por Theodore Kaczynski (“Unabomber”)

1. A Revolução Industrial e suas conseqüências foram um desastre para a raça humana. Aumentou enormemente a expectativa de vida daqueles que vivem em países «avançados», mas desestabilizou a sociedade, tornou a vida um inferno, submeteu seres humanos a indignidades, provocou sofrimento psicológico (no terceiro mundo sofrimento físico) e infligiu um dano severo ao mundo natural. O contínuo desenvolvimento da tecnologia piorará a situação. Certamente submeterá os seres humanos a grandes indignidades e infligirá maior dano ao mundo natural, provavelmente conduzirá a um grande colapso social e sofrimento psicológico, e pode incrementar o sofrimento físico inclusive em países «avançados».
2. O sistema tecnológico-industrial pode sobreviver ou pode fracassar. Se sobrevive, PODE conseguir eventualmente um nivel baixo de sofrimento físico e psicológico, mas só depois de passar por um grande e penoso período de ajuste e apenas mediante o custo permanente de reduzir o ser humano e a outros muitos organismos vivos a produtos de engenharia e meras engrenagens da maquinaria social. Ademais, se o sistema sobrevive, as conseqüências serão inevitáveis: não há como reformar ou modificar o sistema nem como preveni-lo de privar as pessoas de liberdade e autonomia.
3. Se o sistema fracassar as conseqüências ainda serão muito penosas. Quanto mais o sistema crescer mais desastrosos serão os resultados de seu fracasso, de forma que se vai fracassar, melhor fracassar logo do que depois.
4. Por isso advogamos uma revolução contra o sistema industrial. Esta revolução pode ou não usar a violência: pode ser súbita ou pode ser um processo relativamente gradual abarcando poucas décadas. Não podemos predizer nada disso. Tudo que podemos fazer é delinear de uma forma geral as medidas que aqueles que odeiam o sistema industrial deveriam tomar para preparar o caminho para uma revolução contra esta forma de sociedade. Não deve ser uma revolução POLÍTICA. Seu objeto não será derrubar governos, mas as bases econômicas e tecnológicas da sociedade atual.
5. Neste artigo abordamos apenas alguns dos acontecimentos negativos que engordaram demasiado o sistema tecnológico-industrial. Ademais, aqui apenas mencionamos tais acontecimentos resumidamente ou os ignoramos em sua totalidade. Isto não quer dizer que consideramos os demais acontecimentos triviais. Por razões práticas, tivemos que limitar nossas discussões a áreas que não receberam suficiente atendimento do público ou nas quais temos algo novo que dizer. Por exemplo, na medida em que estão bem reveladas as tendências ambientais e a desertificação, escrevemos muito pouco sobre a degradação do meio ambiente ou a destruição da natureza selvagem, embora consideremos tais coisas de grande importância.

 

PSICOLOGIA DO ESQUERDISMO MODERNO

6. Quase todo mundo concorda que vivemos numa sociedade profundamente nociva. Uma das manifestações mais evidentes da loucura de nosso mundo é o esquerdismo, de forma que uma discussão sobre a psicologia do esquerdismo nos pode servir de introdução ao debate dos problemas da sociedade moderna em geral.
7. Mas, o que é esquerdismo? Durante a primeira metade do século XX pôde ser praticamente identificado com o socialismo. Hoje o movimento está fragmentado e não está claro quem pode ser chamado propriamente de esquerdista. Quando neste artigo falamos de esquerdistas pensamos principalmente em socialistas, coletivistas, «politicamente corretos», feministas, ativistas pelos direitos dos homossexuais, dos descapacitados, ativistas pelos direitos dos animais. Mas nem todos os que se associam a algum destes movimentos é um esquerdista. Não se trata de um movimento ou de uma ideologia mas de um tipo psicológico, ou, melhor dito, uma coleção de tipos relacionados. Assim, o que queremos dizer com «esquerdista» aparecerá com mais clareza no curso da discussão da psicologia esquerdista. (Veja também parágrafos 227-230).
8. Mesmo assim, nossa concepção ficará menos clara do que desejaríamos, mas parece não ter remédio para isto. Tudo o que tentamos fazer é indicar de uma maneira tosca e aproximada as duas tendências psicológicas que cremos ser as principais forças condutoras do esquerdismo moderno. Com isto não pretendemos estar dizendo TODA a verdade. Ademais, nossa discussão abarca apenas o esquerdismo moderno. Deixamos aberta a questão sobre o esquerdismo do século XIX e princípios do XX.
9. As duas tendências psicológicas que servem de base ao esquerdismo moderno chamamos de «sentimentos de inferioridade» e «sobressocialização». Enquanto os sentimentos de inferioridade caracterizam todo esquerdismo, a sobressocialização caracteriza apenas um determinado segmento do esquerdismo moderno, mas este segmento é altamente influente.

 

SENTIMENTOS DE INFERIORIDADE

10. Por «sentimentos de inferioridade» não nos referimos apenas aos sentimentos de inferioridade no sentido estrito, mas a todo espectro relacionado: baixa auto-estima, sentimentos de impotência, tendências depressivas, derrotismo, culpa, auto-aborrecimento, etc. Argumentamos que alguns esquerdistas modernos tendem a tais sentimentos (mais ou menos reprimidos) e como eles são decisivos para determinar a direção do esquerdismo moderno.
11. Quando alguém interpreta como depreciativo quase tudo o que se diz dele (ou a respeito de grupos com quem se identifica), concluímos que tem sentimentos de inferioridade ou baixa auto-estima. Esta tendência é evidente entre os defensores dos direitos das minorias, independente de pertencerem ou não à minoria cujos direitos defendem. São hipersensíveis diante das palavras usadas para designá-las. Os termos «negro», «oriental», «descapacitado», «índia» para um africano, um asiático, uma pessoa impossibilitada, uma mulher originária não tinham uma conotação depreciativa. «Rapariga» era simplesmente o equivalente feminino para moça. As conotações negativas foram agregadas a estes termos pelos próprios ativistas. Alguns defensores dos direitos dos animais foram tão longe ao ponto de recusar a palavra «mascote» e fazer questão de sua substituição por «animal de companhia». Antropólogos esquerdistas exageram ao ponto de evitar falar qualquer coisa a respeito de pessoas primitivas que possa ser interpretado como negativo: querem substituir a palavra «primitivo» por «iletrado». Parecem quase paranóicos sobre qualquer coisa que lhes sugira que alguma cultura primitiva seja inferior à nossa. (Não queremos dizer que as culturas primitivas SÃO inferiores à nossa. Somente apontamos a hipersensibilidade destes antropólogos).
12. Aqueles que são mais sensíveis à terminologia «politicamente correta» não são os negros médios habitantes do gueto, imigrantes asiáticos, mulheres maltratadas ou pessoas deficientes, senão uma minoria de ativistas, muitos dos quais não pertencem a nenhum grupo «oprimido», mas que provem de estratos sociais privilegiados. A correção política tem seu maiores intusiastas entre os professores universitários, os quais têm emprego seguro, salários confortáveis, e a maioria deles são varões brancos heterossexuais de famílias de classe média.
13. Muitos esquerdistas têm uma intensa identificação com os problemas de grupos que têm um esteriótipo de débeis (mulheres), derrotados (índios americanos), repelentes (homossexuais), ou aparentemente inferiores. Nunca admitirão em seu foro interno que têm tais sentimentos, mas é precisamente por sua visão destes grupos como inferiores que se identificam com seus problemas. (Não sugerimos que mulheres, índios, etc., SÃO inferiores; só estamos fazendo uma anotação sobre a psicologia esquerdista).
14. As feministas estão ansiosamente desesperadas por demonstrar que as mulheres são tão fortes e capazes quanto os homens. Elas estão claramente esmagadas pelo medo de que as mulheres possam NÃO ser tão fortes e capazes quanto os homens.
15. Os esquerdistas odeiam todo esteriótipo de ser forte, bom e exitoso. Eles odeiam os Estados Unidos, odeiam a civilização ocidental, odeiam aos varões brancos, odeiam a racionalidade. As razões que dão para odiar o ocidente, etc. claramente não coincidem com seus motivos reais. DIZEM que odeiam o ocidente porque é guerreiro, imperialista, sexista, etnocêntrico, mas quando as mesmas faltas aparecem em países socialistas ou culturas primitivas, encontram desculpas para eles ou, quando muito, admitem-no RESMUNGANDO, enquanto destacam (muitas vezes exagerando muito) estas faltas quando aparecem em civilizações ocidentais. Assim, está claro que estas faltas não são os motivos reais para odiar os Estados Unidos e ocidente: odeiam os Estados Unidos e o ocidente porque são fortes e exitosos.
16. Palavras como «autoconfiança», «segurança», «iniciativa», «empreendimento», «otimismo», etc. jogam um papel muito pequeno no vocabulário liberal e esquerdista. O esquerdismo é antiindividualista, é procoletivista. Querem a sociedade para que ela resolva as necessidades de todo mundo, por eles e para cuidar deles. Não é a classe de pessoas que têm um sentido interior de confiança em suas próprias habilidades para resolver seus próprios problemas e satisfazer suas próprias necessidades. O esquerdista opõe-se ao conceito de competição porque, interiormente, sente-se perdedor.
17. As formas de arte que apelam aos intelectuais do esquerdismo moderno tendem a enfocar-se na sordidez, na derrota e no desespero ou, por outro lado, tomam um tom orgiástico, renunciando ao controle racional, como se não tivesse esperança de conseguir nada através do cálculo racional e tudo o que ficou de fora deve submergir na sensação do momento.
18. Os filósofos esquerdistas modernos tendem a recusar a razão, a ciência, a realidade objetiva e fazem questão de que tudo é culturalmente relativo. É justo que se faça perguntas sérias sobre os fundamentos do saber científico e sobretudo como o conceito de realidade objetiva pode ser definido. Mas é óbvio que estes filósofos não são simplesmente lógicos de cabeça fria que sistematicamente analisam os fundamentos do conhecimento. Estão profundamente envolvidos emocionalmente em seu ataque à verdade e à realidade. Atacam estes conceitos por suas necessidades psicológicas. Seu ataque é uma saída para a hostilidade, e ao ser exitoso, satisfaz o impulso pelo poder. Mais importante, os esquerdistas odeiam a ciência e a racionalidade porque classificam certas crenças como verdadeiras (isto é, sucesso, superior) e outras crenças como falsas (isto é, fracasso, inferior). Os sentimentos esquerdistas de inferioridade estão tão profundamente arraigados que não podem tolerar nenhuma classificação de algo como exitoso ou superior e outra coisa como fracassada ou inferior. Isto também sublinha a rejeição de muitos com relação à doença mental e a utilidade das provas de inteligência. São antagonistas das explicações genéticas das habilidades ou condutas humanas porque estas explicações tendem a fazer aparecer algumas pessoas como superiores ou inferiores a outras. Preferem dar à sociedade o mérito ou a culpa para uma habilidade ou carência individual. Assim, se uma pessoa é «inferior» não é sua culpa, mas da sociedade, porque não foi educada corretamente.
19. O esquerdista não é a classe de pessoa cujos sentimentos de inferioridade fazem dela um bravo, um egoísta, um valentão, um promotor de si mesmo, um competidor cruel. Esta classe de pessoa não perdeu totalmente sua confiança. Tem um déficit em seu sentido de poder e em seu valor, mas ainda se pode conceber tendo a capacidade para ser forte, e seus esforços por fortalecer-se produzem seu comportamento desagradável. Alegamos que TODOS, ou quase todos, os fanfarrões e os competidores cruéis sofrem sentimentos de inferioridade. Mas o esquerdista vai bem além disso. Seus sentimentos de inferioridade estão tão arraigados que não pode conceber-se como um indivíduo forte e valioso. Daí o coletivismo do esquerdista: só pode sentir-se forte como membro de uma organização grande ou de um movimento de massas com o qual possa identificar-se.
20. Atendimento à tendência masoquista das táticas esquerdistas: protestam deitando na frente dos veículos, provocam intencionadamente à polícia ou aos racistas para que os maltratem, etc. Estas táticas com freqüência podem ser efetivas, mas muitos as usam, não como meios para um fim, senão porque PREFEREM táticas masoquistas. O ódio pelo ódio é característica esquerdista.
21. Podem reivindicar que seu ativismo é motivado pela compaixão ou por princípios morais, e os princípios morais exercem um papel nos esquerdistas do tipo sobressocializado, mas a compaixão e os princípios morais não podem ser os principais motivos para seu ativismo. A hostilidade é um componente que salta aos olhos no comportamento esquerdista, do mesmo modo que o impulso pelo poder. Ademais, muitos dos comportamentos esquerdistas não são racionalmente calculados para servir de benefício àqueles a quem clamam estar tentando ajudar. Por exemplo, se alguém crê que ações afirmativas são boas para o povo negro, faz sentido demandar ações afirmativas em termos hostis ou dogmáticos? Obviamente, implementar uma aproximação diplomática e conciliadora é mais produtivo do que fazer concessões verbais e simbólicas a brancos que pensam e implementar ações afirmativas que os discriminem. Mas os ativistas esquerdistas não tomarão tais atitudes porque não satisfarão suas necessidades emocionais. Ajudar negros não é sua verdadeira finalidade. Em vez disso, os problemas raciais servem a eles como desculpa para expressar sua própria hostilidade e frustração diante de sua necessidade de afirmação. Fazendo isto eles realmente provocam dano ao povo negro, porque a atitude hostil dos ativistas para com a maioria branca tende a intensificar o ódio racial.
22. Se nossa sociedade não tivesse nenhum problema social, teriam que INVENTAR problemas com objetivo de mostrar uma desculpa para organizar um alvoroço.
23. Enfatizamos que o precedente não pretende ser uma descrição exata de todo mundo que possa considerar-se um esquerdista. É só uma indicação tosca de uma tendência geral.

 

SOBRESSOCIALIZAÇÃO

24. Os psicólogos usam o termo «socialização» para designar o processo pelo qual os meninos são treinados para pensar e atuar como manda a sociedade. Diz-se que uma pessoa está bem socializada se ela obedece e crê no código moral de sua sociedade e se encaixa bem como parte do funcionamento desta. Pode parecer com pouco sentido dizer que muitos esquerdista estão sobressocializados, desde que o esquerdista é percebido como um rebelde. No entanto, a posição pode ser defendida: muitos não são tão rebeldes como parecem.
25. O código moral de nossa sociedade é tão exigente que ninguém pode pensar, sentir e atuar de uma forma completamente moral. Por exemplo, supõe-se que não podemos odiar a ninguém, no entanto quase todo mundo odeia ou odiou alguém alguma vez, quer admita ou não. Algumas pessoas estão tão altamente socializadas que tentam pensar, sentir e atuar moralmente, impondo um severo ônus a si mesmas. Com objeto de eludir sentimentos de culpa, continuamente têm que se enganar sobre seus próprios motivos e encontrar explicações morais para sentimentos e ações que na realidade não têm origem moral. Usamos o termo sobressocializado para descrever tais pessoas. Durante o período Vitoriano muita gente sobressocializada sofreu sérios problemas psicológicos como resultado de reprimir ou tentar reprimir seus sentimentos sexuais. Freud aparentemente baseia suas teorias em gente deste tipo. Hoje em dia o foco da socialização se transladou do sexo para a agressão.
26. A sobressocialização pode conduzir a uma baixa autoestima, sentimentos de impotência, derrotismo, culpa, etc. Um dos mais importantes recursos pelos quais nossa sociedade socializa os meninos é fazendo-os sentir envergonhados do comportamento ou da fala que é contrária às expectativas da sociedade. Se isto é excessivo ou se um garoto em particular é especialmente sensível a tais sentimentos, acaba por sentir-se envergonhado de SI MESMO. Ademais o pensamento e o comportamento da pessoa sobressocializada são mais restringidos pelas expectativas da sociedade do que da pessoa levemente socializada. A maioria das pessoas adota uma quantidade significativa de comportamento travesso. Mente, comete roubos desprezíveis, viola normas de tráfego, gazeteia o trabalho, odeia alguém, diz coisas rancorosas ou usa truques para levar vantagem sobre outros. A pessoa sobressocializada não pode fazer tais coisas, se faz origina um sentimento de vergonha e autoaborrecimento. A pessoa sobressocializada inclusive não pode experimentar, sem culpabilidade, pensamentos ou sentimentos que são contrários à moralidade aceita; não pode ter idéias «impuras». E a socialização não é só um problema de moralidade; estamos socializados para confirmar muitas normas de comportamento que não estão sob o encabeçamento da moralidade. Assim a pessoa sobressocializada está retida por uma correia psicológica e passa sua vida correndo pelas trilhas que a sociedade abriu para ele. Em muita gente sobressocializada isto resulta num sentido de coação e impotência que pode ser uma severa pena. Sugerimos que a sobressocialização está entre as crueldades mais sérias que os seres humanos infligem uns a outros.
27. Deduzimos que um segmento muito importante e influente da esquerda moderna está sobressocializado e que sua sobressocialização é de grande importância na determinação da direção do esquerdismo moderno. Os esquerdistas do tipo sobressocializado tendem a ser intelectuais ou membros da classe média alta. Note-se que os intelectuais universitários, sem incluir necessariamente os especialistas em engenharia ou ciência «hard», constituem o segmento mais altamente socializado de nossa sociedade e a ala mais esquerdista.
28. O esquerdista do tipo sobressocializado trata de fugir de sua correia psicológica e reafirmar sua autonomia rebelando-se. Mas normalmente não é suficientemente forte ao ponto de rebelar-se contra os valores mais básicos da sociedade. Em termos gerais, as finalidades dos esquerdistas de hoje NÃO estão em conflito com a moral estabelecida. Quer dizer, a esquerda toma um princípio da moral estabelecida, adota-o a sua maneira e então acusa a corrente majoritária da sociedade de violar esse princípio. Exemplos: igualdade racial, igualdade dos sexos, ajuda ao pobre, paz opondo-se à guerra, pacifismo generalizado, liberdade de expressão, amabilidade aos animais. Ainda mais fundamental, a obrigação da pessoa de servir à sociedade e a obrigação da sociedade de estar a serviço da pessoa. Todos estes foram valores profundamente arraigados em nossa sociedade (ou ao menos por muito tempo em sua classe média e alta). Há bastante gente na classe média e alta que resiste a alguns destes valores, mas normalmente sua resistência está mais ou menos encoberta. Tal resistência aparece nos meios de comunicação de massa de uma forma bem limitada. O principal impulso da propaganda em nossa sociedade é a favor dos valores declarados. A principal razão para que tais valores prevaleçam, por assim dizer, como valores oficiais de nossa sociedade é que eles são úteis ao sistema industrial. A violência é reprovada porque transtorna o funcionamento do sistema. O racismo é reprovado porque os conflitos étnicos também o transtornam. A discriminação desperdiça o talento dos membros de um grupo minoritário que pode ser útil para o sistema. A pobreza deve ser «curada» porque a classe baixa causa problemas ao sistema e o contato com esta abate a moral das outras classes. As mulheres são animadas a ter carreiras porque seu talento é valioso para o sistema e, ainda mais importante, por meio do trabalho regular as mulheres estão melhor integradas ao sistema e se atam diretamente a ele mais do que com suas famílias. Isto ajuda a debilitar a solidariedade familiar. (Os líderes do sistema dizem que querem fortalecer a família, mas o que realmente querem dizer é que almejam que a família sirva como ferramenta eficaz para socializar aos filhos de acordo com suas necessidades. Raciocinamos nos parágrafos 51, 52 que o sistema não pode permitir à família ou qualquer outro grupo social de pequena escala ser forte e autônomo). Estes valores são explicitamente ou implicitamente expressos ou orçados em muitos dos materiais apresentado pelos meios de comunicação de corrente de opinião majoritária e pelo sistema educativo. Os esquerdistas especialmente do tipo sobressocializado, normalmente não se rebelam contra estes princípios, exceto quando justificam sua hostilidade à sociedade afirmando (com algum grau para valer) que esta não está vivendo de acordo com eles.
29. Tenho aqui uma ilustração da maneira como o esquerdista sobressocializado ao mesmo tempo em que adota uma afeição real às atitudes convencionais de nossa sociedade pretende estar em rebelião contra elas. Muitos promovem ações afirmativas, para inserir negros em trabalhos prestigiosos, melhorar a educação nos colégios negros e investir mais dinheiro em tais colégios; enquanto que a forma de vida da «classe baixa» negra é conservada como uma desgraça social. Querem integrar o homem negro dentro do sistema, fazer dele um executivo de negócios, um juiz, um cientista, simplesmente como gente branca de classe média alta. Em última análise querem mesmo é fazer do homem negro uma cópia do homem branco; dizem também querer preservar a cultura afroamericana. Mas em que consiste esta preservação? Pode consistir simplesmente em comer o estilo de comida negra, escutar música negra, vestir roupa ao estilo negro e ir a uma igreja ou mesquita negras. Em outras palavras, só podem expressar-se nos problemas superficiais. Em todos os aspectos ESSENCIAIS os esquerdistas do tipo sobressocializado querem mesmo é harmonizar o homem negro aos ideais de classe média do homem branco. Querem fazer o pai negro «responsável», querem que gangues negras se tornem não violentas, etc. Mas estes são exatamente os valores do sistema tecnológico-industrial. O sistema não quer saber que tipo de música homem escuta, que tipo de roupa veste ou em que religião crê, desde que estude no colégio, tenha um trabalho respeitável, ascenda a escala social, seja um pai «responsável», seja não violento e assim sucessivamente. Efetivamente, embora muitos possam negá-lo, o esquerdista sobressocializado quer integrar o homem negro no sistema para que ele adote os valores do sistema.
30. Certamente não postulamos que os esquerdistas, inclusive do tipo sobressocializado, NUNCA se rebelem contra os valores fundamentais de nossa sociedade. Claramente algumas vezes o fazem. Alguns esquerdistas sobressocializados chegaram ao ponto de rebelar-se contra um dos princípios mais importantes da sociedade moderna pelo uso da violência física. Por sua própria conta, a violência é para eles uma forma de «libertação». Em outras palavras, cometendo violência atravessam as restrições psicológicas que foram experimentadas em seu interior. Porque estão sobressocializados estas restrições foram mais limitantes para eles do que para outros; portanto precisam liberar-se delas. Mas normalmente justificam sua rebelião em termos de valores da corrente de opinião principal. Se se comprometem na violência postulam estar lutando contra o racismo ou algo parecido.
31. Compreendemos que podem haver objeções ao pequeno esboço precedente. A situação real é complexa, e algo como uma descrição completa ocuparia vários volumes, mesmo que os dados necessários estivessem disponíveis. Apenas chamamos a atenção para as duas tendências mais importantes na psicologia do esquerdismo moderno.
32. Os problemas do esquerdismo remetem aos problemas de nossa sociedade como um todo. Baixa autoestima, tendências depressivas e derrotismo não se restringem à esquerda. Embora sejam especialmente notáveis nesta, se estentem a toda nossa sociedade. E a sociedade de hoje trata de socializar-nos a um gráu maior do que qualquer sociedade prévia. Os especialistas nos dizem como comer, como fazer amor, como educar a nossos filhos e assim sucessivamente.
O Processo de Afirmação Pessoal
33. Os seres humanos têm necessidade (provavelmente biológica) daquilo a que chamaremos o “processo de afirmação pessoal”. Embora esteja intimamente ligado à necessidade de poder (que é geralmente reconhecida), não é propriamente a mesma coisa. O processo de afirmação pessoal tem quatro elementos. Há três melhor definidos que chamamos ter um objectivo, esforçar-se para alcançá-lo e atingi-lo. (Todos precisam de ter objectivos que para serem atingidos requerem esforço, e precisam de conseguir atingir pelo menos alguns desses objectivos.) O quarto elemento é mais difícil de definir e pode não ser uma necessidade para toda a gente. Chamamos-lhe autonomia e será discutido mais à frente (parágrafos 42-44).
34. Considere-se o exemplo hipotético de alguém que passa a ter tudo o que quiser sem esforço. Embora tenha poder, essa pessoa há-de ficar com problemas psicológicos graves. De início irá divertir-se muito, mas aos poucos sentir-se-á fortemente aborrecida e desmoralizada. Acabará até por ficar clinicamente deprimida. A História demonstra que as aristocracias desocupadas tendem a tornar-se decadentes. Isso não é verdade para aristocracias guerreiras que tiveram que lutar para preservar seu poder. Mas aristocracias descansadas e seguras, por não terem a necessidade de aplicar-se em nada geralmente aborrecem-se, tornam-se hedonísticas e desmoralizadas, mesmo que detendo o poder. Isto mostra que o poder por si só não é suficiente. É necessário objectivos que orientem o exercício desse poder.
35. Todos têm objectivos; se não for para mais nada, pelo menos para satisfazer as necessidades vitais: comida, água, e roupas e abrigos de acordo com o clima. Mas o aristocrata descansado obtém essas coisas sem esforço. Daí seu tédio e desmoralização.
36. A não-realização de objectivos importantes resulta na morte se os objectivos forem necessidades vitais, e em frustração se a não-realização dos objectivos é compatível com a sobrevivência. A falha em realizar objectivos ao longo da vida resulta neste caso em derrotismo, fraca auto-estima ou depressão.
37. Assim, para obviar problemas psicológicos graves, os seres humanos precisam de ter objectivos cuja realização exija empenhamento, e de terem uma certa taxa de sucesso nessa realização.

 

ATIVIDADES DE SUBSTITUIÇÃO

38. Mas nem todo aristocrata descansado torna-se entediado e desmoralizado. Por exemplo, o Imperador Hirohito, ao invés de afundar-se no hedonismo decadente, devotava-se à biologia marinha, um campo no qual ele destacou-se. Quando as pessoas não tenham de aplicar-se para satisfazerem as suas necessidades vitais é frequente estabelecerem objectivos artificiais para si mesmas. Em muitos casos acabam por esforçar-se com a mesma energia e envolvimento emocionais que teriam posto para a satisfação de necessidades vitais. Assim os aristocratas do Império Romano tinham suas pretensões literárias; muitos aristocratas europeus há alguns séculos investiam enorme tempo e energia na caça, ainda que eles certamente não precisassem da carne; outras aristocracias competiam por status através de elaboradas demonstrações de riqueza; e alguns aristocratas, como Hirohito, voltaram-se para a ciência.
39. Usamos o termo “actividade de substituição” para designar actividades orientadas por objectivos artificiais e que as pessoas estabelecem por si próprias meramente para terem uma razão para se esforçarem, ou seja, meramente pela “realização” que resulta de tentarem atingir esses objectivos. Eis uma maneira de identificar actividades de substituição. No caso de uma pessoa que devota muito tempo e energia para atingir um objectivo X, se em vez disso tivesse de orientar a maior parte do seu tempo e energia para a satisfação das suas necessidades biológicas, com o empenho dos seus recursos físicos e mentais de uma maneira variada e interessante, será que essa pessoa se sentiria gravemente carenciada por não atingir o objectivo X? Se se vir que a resposta é não, então o esforço dessa pessoa para realizar o objectivo X é uma actividade de substituição. Os estudos de Hirohito em biologia marinha claramente constituíam uma atividade de substituição, já que com certeza se Hirohito tivesse que gastar seu tempo trabalhando em interessantes tarefas não-científicas de modo a obter as necessidades da vida, ele não se sentiria privado por não saber tudo sobre a anatomia e os ciclos vitais de animais marinhos. Por outro lado, a obtenção de sexo e amor (por exemplo) não é uma actividade de substituição, porque a maior parte das pessoas, mesmo que as suas existências fossem de resto satisfatórias, se sentiriam carenciadas se passassem por esta vida sem alguma vez terem tido uma relação desta natureza. (Mas a busca de uma actividade sexual excessiva, para além do que seriam as necessidades, pode já ser uma actividade de substituição.)
40. Nas sociedades industriais modernas o esforço necessário para satisfazer as necessidades vitais é mínimo. Basta em princípio que se passe por uma fase de aprendizagem para atingir uma capacidade técnica pouco exigente, depois que se compareça ao emprego dentro dos horários e se exerça um modesto esforço para não perdê-lo. Os requisitos são apenas alguma inteligência, e acima de tudo, simples OBEDIÊNCIA. Para quem os tiver, a sociedade oferece a segurança do berço à cova. (Sim, há os marginalizados que não têm garantias de satisfazer as suas necessidades vitais, mas aqui focam-se apenas as classes sociais comuns.) Assim, não é surpresa que as sociedades estejam cheias de actividades de substituição. Estas incluem o trabalho científico, os êxitos desportivos, o trabalho humanitário, a criação artística e literária, a promoção nas hierarquias empresariais, a acumulação de dinheiro e bens materiais muito para além do ponto em que deixam de acrescentar satisfação de necessidades vitais, e activismo social dirigido a assuntos que não são importantes para os próprios activistas, como no caso de ativistas brancos que lutam pelos direitos de minorias não-brancas. Nem sempre se trata de actividades puramente de substituição, pois para muitos elas podem ser motivadas em parte por outras necessidades que não sejam apenas a necessidade de ter objectivos. O trabalho científico pode ser em parte motivado pelo desejo de prestígio, a criação artística pela necessidade de expressar sentimentos, o activismo social militante por hostilidade. Mas para a maior parte daqueles que se dedicam a elas, trata-se principalmente de actividades de substituição. Por exemplo, a maior parte dos cientistas concordariam provavelmente que a “realização” que têm com o seu trabalho é mais importante que o dinheiro e prestígio que este lhes pode conferir.
41. Para muitos senão a maior parte, as actividades de substituição são menos satisfatórias que o esforço para atingir verdadeiros objectivos (isto é, objectivos que continuariam a valer a pena mesmo que a sua necessidade de atravessar o processo de afirmação pessoal já estivesse satisfeita). Uma indicação disto mesmo é o facto de em muitos casos ou a maior parte, as pessoas que estão profundamente envolvidas em actividades de substituição nunca estarem satisfeitas, nunca descansarem. Por exemplo, o indivíduo que ganha muito dinheiro continua a querer acumular mais e mais riqueza; o cientista mal acaba de resolver um problema e já está a passar para outro. O corredor de longa distância impele a si mesmo a correr cada vez mais longe e mais rápido. Muitas pessoas que exercem actividades de substituição hão-de dizer que têm muito maior realização com estas actividades do que com a ocupação “mundana” de satisfazer as suas necessidades vitais, mas isto é porque na nossa sociedade o esforço requerido para satisfazê-las é trivial. E, o que é mais importante, não as satisfazem AUTONOMAMENTE, antes fazendo parte de uma máquina social imensa. Em contraste, as pessoas têm bastante autonomia na prossecução das suas actividades de substituição.
Autonomia
42. A autonomia, como parte do processo de afirmação pessoal, pode não ser necessária para todos os indivíduos. Mas a maior parte, a trabalhar para os seus objectivos, precisa de autonomia em maior ou menor grau. Os seus esforços têm de ser empreendidos por sua própria iniciativa e têm de manter-se sob o seu comando e controlo. No entanto, a maior parte das pessoas não precisam de exercer esta iniciativa, comando e controlo como indivíduos, cada um por seu lado. Basta que o façam como membros de um grupo PEQUENO. Assim, se meia dúzia de pessoas discutem um objectivo entre si e o realizam com sucesso através de um esforço conjunto, isto serve para a sua necessidade do processo de afirmação pessoal. Se pelo contrário trabalharem sob ordens rígidas vindas de cima, que não lhes deixem espaço para decisões e inciativas autónomas, então não serve para a sua necessidade do processo de afirmação pessoal. O mesmo se aplica quando as decisões são tomadas colectivamente por um grupo tão grande que o papel de cada indivíduo é insignificante [nota 5].
43. É um facto que alguns indivíduos parecem ter uma fraca necessidade de autonomia. Pode dever-se isso a uma falta de desejo de poder ou à satisafação do mesmo identificando-se com alguma organização poderosa a que pertençam. E também há tipos acéfalos animalescos que parecem se satisfazer com um sentido puramente físico de afirmação pessoal (o bom soldado combatente, que consegue seu senso de afirmação pessoal pelo desenvolvimento de habilidades de combate as quais ele é muito contente de usar em obediência cega aos seus superiores).
44. Mas para a maior parte das pessoas é através do processo de afirmação pessoal – ter um objectivo, fazer um esforço AUTÓNOMO e atingir esse objectivo – que se adquirem a auto-estima, a auto-confiança e uma sensação de poder. Quando não tenham a oportunidade de atravessarem o processo de afirmação pessoal as consequências são (dependendo do indivíduo e da maneira pela qual o processo de afirmação pessoal lhe é bloqueado): aborrecimento, desmoralização, fraca auto-estima, sentimentos de inferioridade, derrotismo, depressão, ansiedade, culpa, frustração, hostilidade, opressão/ agressão dos companheiros ou dos filhos, hedonismo insaciável, comportamento sexual fora do normal, perturbações do sono, problemas alimentares, etc. [nota 6]

 

DIAGRAMA DA ORIGEM DOS PROBLEMAS SOCIAIS

45. Qualquer um desses sintomas precedentes podem ocorrer em qualquer sociedade, mas na sociedade industrial moderna estão presentes massivamente. Não somos os primeiros a mencionar que hoje o mundo parece estar enlouquecendo. Isso não é normal nas sociedades humanas. Há boas razões para crer que o homem primitivo sofria menos tensão e frustração e estava mais satisfeito com sua forma de vida do que o homem moderno. É verdade que nas sociedades primitivas nem tudo era um caminho de rosas. O abuso às mulheres era comum entre os aborígenes australianos, assim como a transexualidade entre algumas tribos indígenas americanas. Mas parece que EM TERMOS GERAIS os problemas relacionados no parágrafo precedente eram muito menos comuns entre os povos primitivos do que na sociedade moderna.
46. Atribuimos os problemas sociais e psicológicos das sociedades modernas à exigência imposta aos indvíduos de viverem em condições radicalmente diferentes daquelas em que a espécie humana evoluiu e de comportarem-se em conflito com os padrões de comportamento que foram desenvolvidos nessas condições ancestrais. Ficou claro pelo exposto anteriormente que consideramos a falta de oportunidade de viver plenamente o processo de afirmação pessoal, entre as condições anormais a que as sociedades modernas sujeitam as pessoas, como a mais importante de todas. Mas não é a única. Antes de analisar-se o bloqueamento do processo de afirmação pessoal como causa de problemas sociais é necessário discutir algumas das outras causas.
47. Entre as condições anormais que caracterizam as sociedades industriais modernas contam-se a excessiva densidade populacional, o isolamento do Homem da natureza, o excesso de rapidez nas mutações sociais e o desaparecimento das pequenas comunidades naturais como o clã, a aldeia ou a tribo.
48. É bem sabido que a superpopulação eleva o estresse e a agressividade. O grau de superpopulação que há hoje e o isolamento do Homem da natureza são consequências do progresso tecnológico. Todas as sociedades pré-industriais eram predominantemente rurais. A Revolução Industrial aumentou enormemente o tamanho das cidades e a proporção da população que nelas vive, e a tecnologia agrícola moderna tornou possível obter da terra o necessário para manter uma densidade populacional como nunca houve anteriormente. (Também, a tecnologia exacerba os efeitos da superpopulação porque ela põe possibilidades cada vez mais disruptivas nas mãos das pessoas. Por exemplo, uma varidade de aparelhos barulhentos: rádios, motos, etc. Se o uso desses aparelhos for irrestrito, pessoas que quiserem paz e sussego serão frustradas pelo barulho. Se seu uso for restrito, as pessoas que usam os aparelhos serão frustradas pelas regulações… Mas se essas máquinas nunca tivessem sido inventadas não haveriam os conflitos e frustrações geradas por elas.)
49. Para as sociedades primitivas o mundo natural (que em geral só muda lentamente) constituía uma referência estável e por isso inspirava um sentimento de segurança. No mundo moderno é a actividade humana que domina a natureza e não o contrário, e as sociedades modernas mudam muito rapidamente devido às mudanças tecnológicas. Não existe uma referência estável.
50. Os conservadores iludem-se: enquanto se queixam da perda progressiva dos valores tradicionais, apoiam entusiasticamente o progresso e o crescimento da economia. Aparentemente nunca lhes ocorreu que não se pode mudar rápida e drasticamente a tecnologia e a economia da sociedade sem também causar mudanças rápidas em todos os outros aspectos da sociedade, e que tais mudanças acabam inevitavelmente por sacrificar os valores tradicionais.
51. A perda dos valores tradicionais implica de certa maneira a quebra dos elos que unem os pequenos agrupamentos tradicionais. A desintegração destes grupos também é promovida pelo facto de as pessoas, nas condições modernas, terem frequentemente de mudar-se (por exigência ou tentação) para outras terras, separando-se das suas comunidades. Além disso, uma sociedade tecnológica TEM DE enfraquecer os laços familiares e as comunidades locais para poder funcionar eficientemente. Nas sociedades modernas a lealdade de cada indivíduo tem de ser primeiro ao sistema e só secundariamente à pequena comunidade, porque se as lealdades internas das pequenas comunidades fossem mais fortes do que a lealdade ao sistema, essas comunidades actuariam para se favorecerem à custa do sistema.
52. Suponhamos que um servidor público ou um executivo de uma corporação prefira nomear seu primo, melhor amigo ou correligionario para um cargo do que uma pessoa melhor qualificada para o trabalho. Permitir que a fidelidade pessoal substitua a fidelidade pelo sistema é «nepotismo» ou «discriminação», pecados terríveis na sociedade moderna. Será que as sociedades industriais fizeram um precário trabalho na subordinação da fidelidade pessoal ou local à fidelidade ao sistema, já que são normalmente muito ineficientes? (Vide América Latina). Assim, uma sociedade industrial avançada só pode tolerar comunidades de pequena escala que estejam castradas, domesticadas e convertidas em ferramentas do sistema. Uma exceção parcial se pode fazer com uns poucos grupos fechados e passivos, tais como os *Amish, os quais têm poucas conseqüências na sociedade longínqua. Aparte destes, hoje em dia existem nos Estados Unidos algumas outras comunidades de pequena escala genuínas. Por exemplo, ligas de jovens e «cultos». Todo mundo os considera perigosos, e são, porque os membros destes grupos são mais leais uns aos outros do que ao sistema, portanto este não os pode controlar. Consideremos aos ciganos. Estes comumente escapam no roubo e na fraude porque suas lealdades são tais que sempre podem conseguir outros ciganos a depor «provando» sua inocência. Obviamente o sistema estaria num sério problema se muita gente pertencesse a tais grupos. Alguns pensadores chineses do início do século XX interessados na modernização da China reconheceram a necessidade de acabar com grupos sociais de pequena escala como a família: «(Segundo Sun Yat-sen) O povo chines precisava uma nova onda de patriotismo, na qual trasnferiria sua lealdade à família para o Estado… (Segundo Li Huang) os apegos tradicionais, particularmente à família, tinham que ser abandonados para que o nacionalismo pudesse se desenvolver na China.» (Chester C. Tão, «Pensamento Político Chinês no Século Vinte», página 125, página 297).
53. A superpopulação, as mudanças rápidas e a decomposição das comunidades foram amplamente reconhecidos como origens dos problemas sociais, mas não cremos que sejam suficientes para explicar a amplitude dos problemas que hoje vemos.
54. Algumas cidades pré-industriais foram grandes e densamente povoadas, e no entanto os seus habitantes não parecem ter sofrido de problemas psicológicos como se verifica nas sociedades modernas. Hoje nos EUA ainda se encontram áreas rurais pouco povoadas, nas quais se vêem os mesmos problemas que nas áeras urbanas – embora menos agudamente nas áreas rurais. Isto para dizer que o sobrepovoamento não parece ser um factor decisivo.
55. Enquanto a fronteira dos EUA ia avançando durante o século XIX, é provável que a mobilidade da população tenha feito desaparecer as pequenas comunidades de então pelo menos tanto como hoje acontece. Na realidade, até houve famílias que escolheram viver em isolamento, sem vizinhos num raio de várias milhas, nem pertencendo a comunidade alguma, e não consta que tenham desenvolvido problemas em resultado disso.
56. Mais ainda, as sociedades fronteiriças de então mudavam muito rápida e profundamente. Um homem podia ter nascido e ser criado numa cabana de madeira, longe da alçada da lei e de qualquer forma de organização, e alimentado com carne de animais selvagens; esse mesmo homem, quando chegasse a uma idade avançada, encontrar-se-ia a trabalhar num emprego regular, vivendo numa comunidade organizada e com aplicação das leis. Sendo uma mudança mais profunda do que ocorre tipicamente na vida de um indivíduo moderno, não consta que tenha acarretado problemas psicológicos. Na verdade, a sociedade norte-americana do século XIX era optimista e auto-confiante, bem ao contrário da sociedade que lhe sucede hoje.
57. A diferença, na nossa opinião, é que o indivíduo moderno tem a sensação (e com razão) que a mudança lhe é IMPOSTA, quando o habitante fronteiriço do século XIX tinha um sentimento (também justificado) que era ele a criar a mudança, por sua própria decisão. Assim um pioneiro ocupava um pedaço de terra de sua própria escolha e tornava-a uma fazenda por seu próprio esforço. Naqueles dias um condado inteiro poderia ter apenas umas centenas de habitantes e era uma entidade muito mais isolada e autônoma do que um condado moderno é. Portanto o agricultor pioneiro participava como membro de um grupo relativamente pequeno na criação de uma nova comunidade organizada. Pode questionar-se se a criação desta comunidade era uma melhoria, mas em todo o caso isso satisfazia a necessidade desse pioneiro do seu processo de afirmação pessoal.
58. Seria possível dar outros exemplos de sociedades nas quais tem havido mudanças rápidas e/ou falta de laços comunitários próximos sem o tipo de aberração comportamental massiva que é vista na sociedade industrial contemporânea. Mantemos que a mais importante causa dos problemas sociais e psicológicos nas sociedades modernas reside no facto das pessoas não terem oportunidades suficientes para experimentarem o processo de afirmação pessoal de maneira normal. Não queremos com isto dizer que as sociedades modernas são as únicas nas quais o processo de afirmação pessoal é bloqueado. Provavelmente a maior parte senão todas as sociedades civilizadas interferem com o processo de afirmação pessoal em maior ou menor grau. Mas nas sociedades industriais o problema tornou-se especialmente gritante. O esquerdismo, ao menos em sua forma recente (da metade para o fim do século XX), é em parte um sintoma de privação em relação ao processo de afirmação pessoal.
continua…Fonte
O cara era um doido varrido mas com otimos textos.

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