Na barraca da Cléo (nome fictício, e em breve vocês vão entender por quê) tem cura para tudo quanto é doença. Se o problema é gastrite, o antídoto natural vem de uma semente ralada ou uma casca amassada. Para tosse, o famoso xarope de guaco. Até mesmo para doenças mais sérias, como câncer, ela jura ter remédio. São banhos, chás, cremes, sabonetes, plantas, óleos, pomadas e tudo o que você imaginar feito de plantas, sementes e até animais. Mais que dores físicas, a curandeira de Manaus diz ter poções para as angústias da alma.

“Tem muita mulher desesperada que vem aqui”, afirma. “Dizem que funciona. Eu não vou dizer que sim porque nunca usei”. Uma das fórmulas mais procuradas na barraca de Cléo é para atrair macho. Tem de tudo. Mulher querendo roubar o marido alheio, noiva abandonada às vésperas do casamento tentando recapturar o moço. A cura vem em pequenas ampolas cujo rótulo indica o nome da alquimia, as ervas presentes ali e o telefone da barraca para o caso de a dona precisar de mais umas doses.

A primeira vez que vi, achei divertido. Até descobrir que o produto mais vendido pela Cléo – e pelas dezenas de barracas dos mercados municipais das cidades da Amazônia – usa partes íntimas do boto, um animal ameaçado de extinção. Funciona assim: eles matam o bicho, pegam a vagina da bota, cortam em pedacinhos e colocam dentro de frascos. É uma prática ilegal.

Uns levam álcool e são comercializados como perfume. Outros vêm em forma de óleo. Se a ideia é atrair o sexo oposto, basta passar um pouco do perfume atrás da orelha. Se a intenção for segurar de vez o rapaz, a dica é usar o óleo no órgão genital sete vezes antes da relação. Detalhe: não pode emprestar o vidrinho a ninguém, nem deixar o parceiro descobrir – sob a ameaça de o feitiço ser quebrado.

As barracas também oferecem mercadoria para os homens. O moço interessado em alguma dama mais difícil deve comprar o olho do boto, e usá-lo dentro do bolso por período indeterminado. Dizem que é tiro e queda.

Ninguém sabe explicar, porém, de onde brotam esses animais. Fiz a pergunta a alguns vendedores do Mercado Municipal de Manaus e do Ver-o-Peso, em Belém do Pará. Parte deles jurou de pé junto só usar bicho morto. Não é isto que acontece. E eles sabem se tratar de uma prática ilegal. Em outra ocasião que estive em Belém, tentei comprar o óleo e perfume e a vendedora me respondeu que estavam escondidos no fundo da barraca. O IBAMA – órgão que teoricamente faz a fiscalização – havia passado por ali dias antes, e apreendido centenas de exemplares da mercadoria.

Para escrever este post, procurei entender um pouco melhor a situação dos animais. Qual é a estratégia de fiscalização, se existe um plano para combater a mortalidade, o que a legislação diz, se o extermínio vem crescendo. Liguei para o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) para falar com um pesquisador que estuda a espécie. Me passaram para o IBAMA. Entrei em contato e a assessoria me informou que quem cuida disto é o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Este, por sua vez, me transferiu para o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos (CMA), uma unidade especializada do ICMBio. Ainda não tive resposta.

Uma busca rápida na internet me fez ficar ainda mais estarrecida. As barracas de comunidades tradicionais não são as únicas a oferecer o produto. O alcance da prática é infinitamente maior. O óleo e perfume do boto (a) são vendidos em pelo menos dois sites na internet, espécies de sex shop virtuais. A comercialização de pedaços de animais ameaçados de extinção é ilegal. Quem é responsável por barrá-la? Assim que tiver uma resposta (se tiver), conto para vocês aqui no blog.

(Aline Ribeiro) | Fonte

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Trabalha na área de Controle de Qualidade em uma empresa Suíça. A espiritualidade fez com que Marluce despertasse espiritualmente. Sem um certo nível de consciência espiritual é impossível perceber a magia da vida.