Algumas escolas no Brasil utilizam métodos diferentes para avaliar o desempenho de cada aluno, passando longe da prova tradicional

Sem aquela tensão na hora de responder as perguntas, sem o pavor do “branco” e sem o suspense da nota. É possível ter uma escola sem provas. Algumas instituições de ensino no Brasil seguem esse modelo, numa proposta pedagógica um pouco diferente das escolas tradicionais. Um desses lugares é a Escola Politeia, de São Paulo. A instituição é particular e tem apenas cerca de 30 alunos. São aceitos alunos do 1º ao  9º ano. Osvaldo de Souza, educador da instituição, justifica a decisão com a própria filosofia da escola. “Acreditamos que qualquer escolha que o estudante faça o ajuda a construir conhecimento. Ele não é o receptor passivo de informação, ele é o produtor do conhecimento. Sendo assim, não faz sentido ter provas”, explica.

Para ele, a prova é uma lista de conteúdos que o professor tentou transmitir e vai verificar por meio de várias questões. “Acreditamos que cada estudante tem sua forma de desenvolver conhecimento. Eles podem escolher o que querem aprender e aprender em tempos diferentes, então a prova perde o seu sentido. Não há como avaliar igualmente utilizando essa perspectiva de trabalho”.

Mesmo sem provas, a Politeia ainda faz avaliações. “Avaliação contínua, autoavaliação e avaliação textual compõem o nosso conceito”, Souza enumera. É necessário que, ao fim de cada ano, exista alguma forma de medir o desempenho do aluno, e para isso, a escola trabalha com conceitos. “Tentamos desassociar o conceito da nota. Os alunos sabem que os conceitos existem, mas não tem a burocracia da nota. Numa escola tradicional, se destaca o número final, e nós tentamos nos dissociar disso”. Por acreditar que cada estudante tem seu tempo de aprendizagem, a reprovação também não existe nessa escola. “Se trabalhamos com cada um desenvolvendo os conhecimentos em seu tempo, a reprovação não faz sentido”.

A Politeia segue o modelo de escola democrática; isso significa que é uma instituição com decisões coletivas, onde a comunidade ajuda a escolher os rumos da escola, em todos os sentidos. Há assembleias entre comunidade, estudantes e famílias para decidir sobre regras da escola até questões pedagógicas. “Trabalhamos também com a ideia de emancipação do sujeito e autonomia. Trata-se de ter uma formação política pra entender o mundo. Toda semana tem assembleia e isso forma o aluno para saber argumentar, defender suas propostas, decidir o que vai aprender”, comenta. Lá, o aluno escolhe sobre qual assunto quer pesquisar e desenvolve um projeto de pesquisa durante todo um semestre.

“A gente conhece um modelo e acha que aquele é o único que funciona, mesmo que não funcione, diz a psicóloga Rosely Sayão Foto: Divulgação

A proposta pedagógica que a Escola Politeia segue tem uma precursora, a Escola da Ponte, de Portugal, famosa entre educadores. Há mais de 40 anos, a instituição fundada por José Pacheco segue a mesma linha didática e é referência mundial no modelo. A Escola Municipal de Ensino Fundamental Amorim Lima, também em São Paulo, é outra instituição inspirada nessa metodologia.

Na Amorim Lima, a prova foi abolida com a transição para um novo projeto pedagógico. “No começo, os pais ficaram receosos. A gente é conservador. A gente conhece um modelo e acha que aquele é o único que funciona, mesmo que não funcione”, diz a psicóloga Rosely Sayão, uma das organizadoras do novo projeto. Hoje, os alunos são classificados por meio de projetos e têm maior autonomia.

A psicóloga acredita que a prova perdeu o sentido enquanto instrumento educativo. “Tornou-se um instrumento de poder, de controle sobre os alunos”, explica. Ela relembra que o novo projeto pedagógico surgiu a partir da evasão alta que a escola enfrentava. Os alunos entre a 1ª e a 5ª séries começaram a estudar em grupos e a partir do desenvolvimento de projetos.

No Rio Grande do Sul, uma instituição de ensino nos mesmos moldes começa a se formar. É a Escola Sepé Tiaraju II, em Eldorado do Sul, região metropolitana de Porto Alegre. A escola deve iniciar as suas atividades em 2015 e trabalhará com o mesmo modelo: não há divisão de séries, os alunos serão divididos em três ciclos (iniciação, desenvolvimento e aprofundamento) e é desconstruída a ideia de professor, todos são educadores. A futura diretora da escola, Rosângela Debom, também afirma que não trabalharão com o conceito de provas ou reprovação. “Não existe reprovação, mas o aluno não avança se não cumprir a questão dos valores. É o tempo do próprio aluno”, esclarece.

Legislação não exige prova
O Ministério da Educação afirma, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que as escolas devem ter alguma forma de avaliação, mas não menciona o formato tradicional de provas. “A crítica que fazemos é que a prova pede que todos da mesma turma, mesma idade, transmitam no mesmo tempo aquilo que aprenderam. Cada pessoa tem um tempo diferente, nem todo mundo aprende ao mesmo tempo, chega a ser injusto e cruel juntar ao mesmo tempo. A prova coloca todos no mesmo patamar e ainda traz a nota junto. É a mesma avaliação para pessoas diferentes com habilidades diferentes, é muito injusto”, avalia Souza.

Dirce Foletto de Moraes é doutoranda em educação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) e atua na área de didática, tecnologia e avaliação da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Para ela, a prova como é realizada hoje, com questões objetivas, acaba servindo apenas para classificar os melhores e piores alunos da classe. Ela vê vantagem se a prova for aplicada para avaliar aprendizagens adquiridas, identificar falhas e tentar corrigi-las.

As escolas democráticas podem não fazer provas, mas algum meio de avaliação é necessário, conforme exigido pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. A professora Dirce explica a importância da avaliação. “Independentemente de prova, portfólio ou qualquer outro instrumento avaliativo, eles devem servir para perceber em que momento do aprendizado o aluno se encontra.”

Ela defende a mudança do formato das questões propostas em provas para os alunos e estimula a reflexão dos professores sobre o objetivo de cada pergunta. “Observo questões muito complexas que só confundem a cabeça do aluno ou questões objetivas que servem para constatação, pura decoreba que não faz sentido. O aluno deveria aproveitar o momento da prova para poder refletir sobre aquilo que sabe e sobre o que ainda precisa aprender”.

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