MUNIQUE — Velhos exemplares do tomo agressor são mantidos em um seguro “armário de veneno”, uma zona de perigo literária nas trevas da vasta Biblioteca Estadual da Baviera. Uma equipe de especialistas veta cada pedido para ver um deles, mantendo o texto tóxico longe dos olhos de curiosos ou daqueles que podem exaltá-lo.

— Este livro é muito perigoso para o público em geral — adverte o historiador Florian Sepp enquanto cuidadosamente coloca uma primeira edição de “Mein Kampf”, o manifesto de ódio autobiográfico de Adolf Hitler, em uma mesa em uma sala de leitura restrita.

Ainda assim, o livro que serviu como uma espécie de bíblia nazista, cujas reproduções domésticas estão proibidas desde o fim da II Guerra Mundial, em breve estará retornando às livrarias alemãs desde os Alpes até o Mar Báltico.

A proibição da reedição foi mantida durante anos pelo estado da Baviera, que detém os direitos de autor na Alemanha e legalmente bloqueou tentativas de reproduzi-lo. Mas esses direitos expiram em dezembro, e a primeira corrida por uma nova impressão desde a morte de Hitler começará no início do próximo ano. A nova edição é um volume repleto de anotações em seu original em alemão que está gerando um debate apaixonado sobre a História, o antissemitismo e o poder latente da palavra escrita.

A reedição do livro, para o desgosto dos críticos, está efetivamente sendo paga pelos contribuintes alemães, que financiam a sociedade histórica que está produzindo e publicará a nova edição. Ao invés de um manual para o aspirante fascista, a nova reimpressão, o grupo disse este mês, será uma ferramenta acadêmica vital, um volume de duas mil páginas embalado com mais críticas e análise do que o texto original.

Ainda assim, os adversários estão horrorizados, em parte porque o livro está saindo em um momento de crescente antissemitismo na Europa e versões em inglês e outras línguas estrangeiras de “Mein Kampf“ — livres dos obstáculos de direitos autorais alemães — vivem um renascimento global.

Embora as autoridades na Alemanha tenham fechado acordos com os vendedores on-line como a Amazon.com para proibir as vendas na Alemanha, novas cópias de “Mein Kampf” tornaram-se amplamente disponíveis através da Internet ao redor do globo. Em lojas de varejo na Índia, o livro desfruta de enorme popularidade como um livro de autoajuda para os nacionalistas hindus. Uma edição em quadrinhos foi produzida no Japão. Uma nova geração de aficionados também aumenta entre as fileiras da extrema-direita na Europa. O partido neonazista grego, Aurora Dourada, por exemplo, oferece “Mein Kampf“, na sua livraria, em Atenas.

Independentemente do contexto acadêmico proporcionado pelo novo volume, os críticos dizem que a nova edição alemã acabará por permitir que a voz de Hitler ecoe de seu túmulo.

— Eu sou absolutamente contra a publicação de “Mein Kampf”, mesmo com anotações. Você pode fazer anotações sobre o Diabo? Você pode fazer anotações sobre uma pessoa como Hitler? — diz Levi Salomon, porta-voz do Fórum Judaico de Berlim para a Democracia e Contra o Antissemitismo. — Este livro está fora da lógica humana.

Mein Kampf

Não surpreendentemente, a nova edição tornou-se uma batata quente política, o que ilustra a questão sempre incômoda de como a Alemanha moderna deve lidar com seu passado. Inicialmente, a Baviera, por exemplo, prometeu 575 mil dólares para apoiar diretamente a publicação da nova edição para fins históricos. Mas desistiu depois da visita do governador da Baviera a Israel, em 2012, quando ouviu críticas ferozes à proposta por parte de sobreviventes do Holocausto.

Isso deixou a organização financiada pelo Estado responsável pela nova edição — o Instituto de História Contemporânea, com sede em Munique — de mãos atadas. Desde o final da década de 1940, o instituto analisou a ascensão e repercussões da era nazista, publicando textos com anotações, tais como discursos de Hitler. O único trabalho mais importante que ainda não foi publicado desta forma é, de fato, “Mein Kampf”. Desde 2012, o órgão tem uma equipe de acadêmicos preparando a nova edição, de olho no fim dos direitos de autor.

Apesar do coro de oposição, particularmente de grupos judeus e sobreviventes do Holocausto, o instituto optou por ir em frente com a publicação, financiando-a a partir do seu orçamento geral — uma tarefa facilitada pelo fato de que a Baviera permitiu-lhe manter a concessão original para outros fins de pesquisa.

— Eu entendo que alguns se sentem imediatamente desconfortáveis quando um livro que desempenhou um papel tão dramático é disponibilizada novamente para o público — disse Magnus Brechtken, vice-diretor do instituto. — Por outro lado, eu acho que esta é também uma forma útil de transmitir educação histórica e iluminação: uma publicação com os comentários apropriados, exatamente para evitar esses eventos traumáticos voltem a acontecer.

Uma obra desconexa e repetitiva destruída pelos críticos literários por seu estilo pedante, “Mein Kampf” foi redigido por Hitler em uma prisão da Baviera após o fracassado levante nazista em Munique, em novembro de 1923. Ele foi inicialmente publicado em dois volumes em 1925 e 1926, com as edições conjuntas, lançadas posteriormente, formando uma espécie de manual nazista. Durante o Terceiro Reich, algumas cidades alemãs distribuíam cópias para os recém-casados ​​arianos como presentes de casamento.

O livro também lançou as bases para o Holocausto, afirmando, por exemplo, que os judeus são e “continuarão a ser o parasita eterno, um parasita que, como uma bactéria maligna, se espalha rapidamente, sempre que um terreno fértil é colocado à sua disposição”.

Ao contrário da crença popular, “Mein Kampf“ — ou “Minha Luta” — nunca foi proibido na Alemanha pós-guerra; apenas sua reimpressão foi. Das mais de 12,4 milhões de cópias existentes antes de 1945, estima-se que centenas de milhares sobreviveram. Cópias antigas ainda podem ser vendidas em livrarias de antiquário. Mas o acesso do público é geralmente limitada a alguns repositórios restritos, tais como a biblioteca em Munique, que só permite a leitura com base na necessidade acadêmica ou de pesquisa histórica. Autoridades bávaras também travaram um jogo de gato e rato com aqueles que tentam publicar “Mein Kampf” na internet, bloqueando versões publicadas em alemão sempre que possível.

Brechtken disse que a nova versão irá apontar, por exemplo, como Hitler parece pegar emprestados seus pontos de vista a partir de outras fontes, e vai refutar suas afirmações racistas. Funcionários bávaros também dizem que vão procurar aplicar leis contra incitação ao ódio a qualquer tentativa de publicar versões sem anotações no futuro. Mas, até agora, eles afirmam que não vão procurar bloquear a publicação da versão expandida do instituto, citando os benefícios que ela pode trazer para a pesquisa histórica.

No entanto, a oposição vocal parece estar crescendo. Charlotte Knobloch, líder da comunidade judaica de Munique, disse que não se opôs vigorosamente quando o projeto surgiu pela primeira vez. Mas sua posição, ela disse, endureceu após ouvir relatos de sobreviventes do Holocausto indignados.

— Este é o livro mais maligno; é o pior panfleto antissemita e um guia para o Holocausto — disse ela. — É uma caixa de Pandora que, uma vez aberta de novo, não poderá ser fechada.

Fonte: http://oglobo.globo.com/mundo/alemanha-r…a-15441908

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