Heróis existem. E, os de verdade, costumam ser anônimos e podem passar a vida toda sem contar para alguém sobre o seu ato de heroísmo. E foi assim com Nicholas Winton por muitas e muitas décadas, na verdade quase meio século, até que sua esposa encontrou um álbum antigo com fotos de crianças, telegramas, cartas e uma lista escondida no sótão.

Este álbum revelava um segredo: Winton ajudou a salvar 669 crianças da antiga Checoslováquia, na época do nazismo. É isso mesmo: o britânico mudou o roteiro de suas férias em 1938 após seu amigo Martin Blake o convidar para uma viagem até a Checoslováquia, pois ele queria lhe mostrar algo. O país estava sob o domínio da Alemanha Nazista. Milhares de pessoas assustadas e perseguidas com um futuro nada promissor, podendo a qualquer momento ser mandadas para campos de extermínio. Ao pisar no país Winton sentiu o clima de terror e resolveu sair de sua zona de conforto e fazer algo, efetivo, para ajudar as crianças: mandá-las para outros países.

Nicholas Winton nasceu em 1909 em Hampstead, Londres, filho de alemães judeus que haviam se mudado para Londres dois anos antes. O sobrenome da família era Wertheim mas mudaram para Winton como um esforço de integração. Eles também se converteram ao Cristianismo e Winton foi batizado.

Em 1923, Winton entrou na Stowe School , mas saiu sem se formar. Ele continuou os estudos frequentando uma escola noturna enquanto era voluntário no Midland Bank. Também foi para Hamburgo e trabalhou no Behrens Bank, em seguida no Wasserman Bank, em Berlim. Em 1931 mudou-se para França e trabalhou no Banque Nationale de Crédit, em Paris, onde adquiriu formação na área bancária. Quando retornou para Londres, tornou-se corretor na Bolsa de Valores de Londres. Winton serviu a Força Aérea Real durante a Segunda Guerra Mundial.

Pouco antes do Natal de 1938, quanto tinha apenas 29 anos, Winton estava prestes a viajar para a Suíça para umas férias de esqui, quando decidiu viajar a Praga para ajudar seu amigo Martin Blake, que estava envolvido em trabalho humanitário com judeus. Lá, ficou impressionado com o clima de medo: a Checoslováquia já estava sob o domínio da Alemanha Nazista. Ele ficou no Sroubek Hotel, na Wenceslas Square, e pouco tempo depois percebeu que não haviam planos específicos para salvar as vidas das crianças, criando a própria organização para ajudar crianças judias que corriam risco com nazistas.

Muitos sentiriam pena, achariam essa situação injusta, ficariam indignados, entretanto, apenas observariam a tragédia acontecer. Nicholas Winton, não. Sabia que poderia fazer algo por essa pessoas. Teve a ideia de mandar as crianças das famílias perseguidas para outros países. Apenas uma ideia, porém, não resolveria a situação. Winton precisaria ter muita disposição e colocar a mão na massa para realizar esse objetivo.

Nicholas pesquisou e coletou dados das crianças que precisavam de ajuda e escreveu cartas para vários países. Foi um trabalho árduo e burocrático, mas nada o fazia desanimar. Persistente, atendeu as exigências impostas pelas autoridades. As portas do mundo sempre se abrem para um guerreiro que não se intimida com os obstáculos. Com a ajuda de organizações cristãs e beneficentes, foi possível conseguir recursos para o transporte dos pequenos refugiados e arrumar famílias interessadas em adotá-los.

Somente a Inglaterra e a Suécia aceitaram receber aquelas crianças. Winton organizou a viagem. Era uma decisão difícil: para escapar do horror nazista, as crianças teriam de ser mandadas para longe dos pais. Winton entrou em contato com Refugee Children’s Movement (RCM), em Londres. A missão dessa organização era conseguir alojamento e a quantia de dinheiro que o governo Britânico requisitava como garantia para aprovar a entrada dos refugiados europeus perseguidos pelo nazismo.

Em novembro de 1938, pouco depois da Kristallnacht na Alemanha Nazista, a Câmara dos Comuns do Reino Unido aprovou uma medida que permitiu a entrada de refugiados com idade inferior a 17 anos, contanto que tivesse um lugar para ficar e £50 depositadas como garantia de pagamento de um tíquete para eventual retorno ao país de origem.
O boato do “Britânico da Rua Wenceslas” se espalhou e logo uma grande quantidade de famílias apareceram para tentar incluir seus filhos na lista que os colocaria fora do alcance nazista. “Era exasperador”, Winton disse um dia, “como cada grupo se sentia mais urgente que o outro”.

Durante nove meses ele tentou evacuar 669 crianças, por trem, de Praga para Londres.

“Nós ouvíamos falar sobre a possibilidade de que nossos pais tivessem sido enviados para os campos, mas alimentávamos a ilusão de que talvez eles tivessem escapado”, diz uma sobrevivente.
“Eu entendi que não veria os meus pais de novo, é difícil falar, desculpe. Sempre acreditei que a família é o que existe de mais importante”, confessa um homem, que um dia foi uma das crianças salvas por Winton.

Quando desembarcaram na Inglaterra, lá estava Nicholas Winton esperando por elas. Uma imagem rara registra o herói na plataforma de desembarque com uma das crianças. Um nono trem com 250 crianças deveria ter partido em setembro de 1939, mas este foi o dia em que o Reino Unido declarou guerra contra a Alemanha. O trem não saiu da estação e as crianças não foram vistas novamente . Winton só lamenta que o último trem, que traria 250 crianças, não tenha conseguido sair da Checoslováquia: o início da guerra, no dia 1º de setembro de 1939, tornou a viagem impossível. Nenhuma das crianças que não conseguiram embarcar sobreviveu. Também foram mandadas para os campos de extermínio. Entre as crianças que sobreviveram ao terror nazista, estava Karel Reisz, que se tornaria uma renomada diretora de filmes, autora do premiado filme “The French Lieutenant’s Woman”.
Hoje em dia, acredita-se que existam mais de 5.000 crianças das chamadas “crianças de Winton” que seriam descendentes das crianças que Winton salvou.

Durante mais de cinco décadas Nicholas Winton não revelou esse trabalho humanitário para ninguém. A história foi a público quando sua esposa, Greta, descobriu no sótão de sua casa uma pasta que continha a lista das crianças salvas e cartas para os pais delas. Após esse feito mais que heroico, Winton resolveu não contar a história para ninguém porque não o achava tão extraordinário assim. Porém, após a descoberta de sua esposa, o britânico recebeu diversas homenagens:

– Foi agraciado com a Ordem de Tomáš Garrigue Masaryk, Quarta Classe, pelo Presidente Checo em 1998;

– No Aniversário da Rainha de 1983, ele foi nomeado como um Membro da Ordem do Império Britânico pelo seu trabalho na instalação na Grã-Bretanha de asilos da sociedade Abbeyfield e em 2002 foi nomeado cavaleiro pela rainha Elizabeth II em reconhecimento ao seu trabalho salvando crianças;

– O asteróide 19384_Winton foi nomeado em sua honra pelo casal de astrônomos checos Jana Tichá and Miloš Tichý;

– Vera Gissing, uma das crianças salvas na época escreveu a biografia de Winton, em agradecimento ao seu ato de coragem;

Estátua em sua homenagem (estação em Praga)
– Em 2008, Nicholas Winton foi homenageado pelo governo checo de várias formas. Uma escola de ensino elementar em Kunžak recebeu seu nome e ele foi agraciado com a Cruz do Mérito do Ministério da Defesa, Grau I. Também foi indicado pelo governo checo para o Prêmio Nobel da Paz de 2008.

Desde que a história de Winton se tornou pública, ele começou a receber todo tipo de homenagens. Mas o agradecimento mais comovente veio daqueles que Winton um dia salvou da morte certa. Um programa de TV inglês encheu o auditório de sobreviventes que foram salvos por ele quando eram crianças, mas nunca o tinham encontrado.

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Reikiana, praticante e apaixonada por Yoga, a estudante de Design de Moda pela UCS, Manoela desenvolveu um grande interesse na conexão espiritual entre o passado, presente e o futuro da humanidade, seus caminhos e mudanças ao longo dos séculos. Suas pesquisas para o Verdade Mundial vem sendo amplamente visualizadas nas áreas da sociedade, história e religião.