Um dos aspectos mais fascinantes da reencarnação é que ela nos liberta do confinamento à uma única existência e nos oferece novas oportunidades de corrigir nossos erros e continuar os progressos. E isto parece ser muito mais razoável do que  ser condenado à uma única existência vazia e sem sentido, ou na qual somos vigiados por um ser onipotente que premia e castiga segundo regras extemporâneas.

Mesmo estando cada vez mais presente no mundo ocidental a despeito de sua maioria cristã, a ideia da reencarnação acaba entrando em choque inevitável com um dos mais importantes elementos de nossa civilização, que é o livre-arbítrio. É inevitável que o ocidental se pergunte sobre a possibilidade de escolher os detalhes da próxima encarnação, e se esta existência atual também é fruto de uma escolha.

Para a doutrina budista da reencarnação, o comum é que a maioria dos seres sencientes não seja capaz de escolher as condições sob as quais vai renascer. Ou seja, os budistas acreditam que ao abandonar o corpo depois da morte, a essência se move em direção à outra forma de vida, a qual é determinada pelos méritos e pelos deméritos acumulados na existência prévia.

Contudo, existe uma classe especial de seres aos quais é reservado o direito de optar pelas circunstâncias materiais, sociais e religiosas que envolvem a reencarnação seguinte. Tais seres são conhecidos como tulkus, os quais além de poderem escolher como e onde irão reencarnar, ainda são capazes de, em seu leito de morte, revelar o lugar onde acontecerá seu renascimento, facilitando seu reconhecimento.

É estimado que existam cerca de 500 tulkus identificados por todo o Tibete, um número que alcançava os milhares antes da invasão chinesa. Para o Budismo Tibetano, um tulku é uma Lama de alta posição hierárquica, como o Dalai Lama, o Panchen Lama e o Karmapa, e que podem escolher como irão renascer.

Cada tulku possui uma linhagem distinta de renascimentos. Por exemplo, o 14° Dalai Lama é considerado a reencarnação de cada um dos 13 Dalai Lamas anteriores, os quais por sua vez são considerados como manifestações de Avalokiteshvara, o Bodhisattva de Compaixão. As linhagens de tulkus não devem ser confundidas com as linhagens formadas por mestres e discípulos. Esta última está relacionada exclusivamente com a transmissão escrita e oral , de geração em geração, de ensinamentos budistas e práticas espirituais específicas.

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Na literatura tibetana antiga, a estrutura primitiva da palavra tulku era usada para descrever o imperador que voltava a tomar forma humana na Terra. Com o tempo, este conceito religioso de um soberano desencarnado que retorna à forma corpórea para continuar seu reinado torna-se o termo usado para designar o próprio imperador do Império Tibetano.

Mais tarde, a palavra tibetana tulku é associada ao termo filosófico sânscrito nirmanakaya que, de acordo com o conceito dos três corpos do Buda, nirmanakaya é um dos corpos superiores do Buda. Assim, a pessoa de Sidarta Gautama, o Buda histórico, é um exemplo de nirmanakaya. No contexto do Budismo Tibetano, o termo tulku é usado para se referir à existência corpórea dos budistas que alcançaram a iluminação.

Os tulkus são uma verdadeira instituição tibetana, que se desenvolveu durante os séculos XII, XIII e XIV, quando várias escolas do Budismo Tibetano buscaram incorporar a possibilidade de que figuras de destaque espiritual pudessem permanecer no mundo humano como uma espécie de professores oficiais, reencarnando de existência em existência movidos pela compaixão.

Neste momento, a noção sânscrita de nirmanakaya é conectada com a ideia da manifestação regular de uma autoridade religiosa. É quando esta ideia é reforçada com a perspectiva de que o tulku poderia herdar as propriedades de sua encarnação prévia. Esta regra da herança permitiu o surgimento de propriedades muito prósperas pertencentes às linhagens dos tulkus reencarnantes.

O primeiro tulku a ser reconhecido dentro das tradições Vajrayanas foi o Karmapa, o chefe da escola Karma Kagyu do Budismo Tibetano. Mais precisamente, o primeiro indivíduo a ser reconhecido como tulku reencarnado foi o segundo Karmapa, chamado Karma Pakshi (1204–1283). Atualmente, o Karmapa está em sua décima-sétima emanação.

Enquanto historicamente a maioria dos tulkus tem sido formada por tibetanos, alguns têm nascido em outras culturas que vêm tendo contato com os tibetanos, tal como os mongóis. Na atualidade, com a diáspora tibetana, tulkus vem sendo encontrados por todo o planeta, alguns deles no mundo ocidental, que vê há anos o crescimento de seguidores da doutrina de Buda.

Ao se aproximar da morte, o tulku pode começar a revelar sinais ou dar pistas que ajudarão a encontrar sua reencarnação. Em alguns casos, o tulku deixa uma carta ou uma canção que descreve de modo poético onde ele será encontrado, enquanto em outros pode fornecer vários detalhes sobre seus futuros pais, sobre a localidade ou mesmo a residência que habitará. Havendo escassez de detalhes, dificultando a busca pela emanação, um lama astrólogo pode ser convocado para auxiliar o processo.

O exame de um sucessor em potencial envolve certos testes, nos quais a criança deve reconhecer objetos pessoais ou indivíduos do círculo próximo do tulku em sua existência anterior, e ainda responder a questões que só eram conhecidas pela própria emanação. De acordo com a autora Alexandra David-Neel, vários objetos são dispostos juntos, tais como rosários, objetos ritualísticos, livros e xícaras, e a criança deve escolher aquele que pertencia ao tulku. Isso mostraria que ele reconhece seus pertences de uma existência prévia.

Estima-se que existam atualmente cerca de 500 linhagens de tulkus espalhadas pelo Tibete, Butão, Índia, Nepal, Mongólia e China. A grande maioria destas linhagens é formada por homens, mas existem algumas poucas linhagens femininas. A mais importante destas linhagens femininas é a deDorje Pakmo, do Monastério Samding. Contudo de longe a linhagem do Dalai Lama vem sendo por séculos a mais relevante de todas, especialmente no campo político.

Uma vez, enquanto discutia o seu próprio sucessor, o Dalai Lama teria dito que se uma mulher acabar sendo mais útil para que o lama desempenhe as funções para a qual está destinado, ele pode tranquilamente se reencarnar nesta forma. E numa manifestação de sua humildade, ao ser questionado sobre o que aconteceria se a figura do Dalai Lama não fosse mais útil para o povo tibetano, ele teria dito que, neste caso, ele poderia renascer como um animal, até mesmo como um inseto.

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Trabalha na área de Controle de Qualidade em uma empresa Suíça. A espiritualidade fez com que Marluce despertasse espiritualmente. Sem um certo nível de consciência espiritual é impossível perceber a magia da vida.