Todos os dias, sempre à mesma hora, o Dandy vai acordar a Mariana. Pula para cima da cama, lambe-a e a primeira coisa que ela faz, ainda com os olhos fechados, é pôr o gato debaixo do braço e abraçá-lo. «Os dois ficam ali num namoro demorado e só quando acabam é que eu posso chegar perto», revela a mãe, Sofia Gaudêncio. E reconhece: «O nosso gato ocupa um lugar especialíssimo na vida da minha filha, um lugar que não pertence a mais ninguém!»

Histórias como a da Mariana e do seu gato repetem-se em muitas casas, que optam por receber de braços abertos mais um elemento para a família. A maioria das vezes são as próprias crianças que pedem, com uma insistência e persuasão tais, que os pais não resistem. Os benefícios reúnem o acordo de pediatras e veterinários. «Ter um animal de estimação em casa faz com que as nossas crianças vivam e cresçam mais felizes, promovendo a comunicação com o mundo que as rodeia, facilitando a interacção social e estimulando o seu desenvolvimento psicossocial», defende Dária Rezende, pediatra no Hospital de São Marcos, em Braga. E destaca até vantagens ao nível físico: «São companheiros incansáveis de brincadeira, quer ao ar livre, quer dentro de casa, tirando as crianças da frente dos computadores, consolas e televisões.

Para além disso, o contacto com animais ajuda a relaxar e a diminuir os índices de ansiedade. Segundo alguns estudos, contribui inclusivamente para diminuir os valores da tensão arterial, os níveis de colesterol e triglicerídeos, melhorando os indicadores de stresse a nível cardiovascular».

Terapeutas silenciosos

A sua dedicação e permanente disponibilidade transformam-nos em amigos incondicionais. «Os animais são companheiros e ouvintes, com quem se pode desabafar problemas, medos e preocupações sem recear qualquer crítica ou censura. Por vezes, ajudam até a criança ou adolescente a superar fases mais difíceis da vida. São verdadeiros terapeutas silenciosos», considera Dária Rezende. Sofia, a mãe da Mariana, reconhece que no seu caso isso aconteceu. Após a separação dos pais, «apanhei-a em várias conversas com o gato. É uma espécie de confidente e as suas lambidelas, cada vez que alguma lagriminha caía, confortavam-na de uma maneira muito especial».

Além disso, os animais de estimação também ajudam a criança a preparar-se emocionalmente para as situações da vida, pois confrontam-na, de uma forma acelerada, com as suas principais fases: nascer, crescer, adoecer, sofrer acidentes, até morrer. Nesta convivência saudável e necessária, surgem novas perguntas e conhecimentos. Cristina Fernandes é mãe e veterinária e testemunha estas questões com a sua filha Sara, de dois anos e meio: «Ela já assistiu à gravidez de uma cadela e já sabe que o bebé cresce dentro da barriga, que depois nasce e mama. A minha sogra tem mais seis netos e diz que a Sara é muito precoce em saber, por exemplo, que a avó é a mãe da mãe. E eu acho que ela tem noção desta ‘hierarquia familiar’ por assistir rapidamente a essa evolução com os animais com que convive na quinta da minha mãe».

Dária Rezende conta-nos também uma história que a comoveu, na sua experiência hospitalar: «Era uma menina de sete anos que tinha uma cadela, que encontrou na rua, após ter sido atropelada. Ela acompanhou todo o tratamento da cadela e todas as idas ao veterinário. A cadela recuperou na totalidade e tornou-se a sua melhor amiga. Um dia, a menina teve de ser hospitalizada e encarou todas as intervenções (nomeadamente punções venosas e injecções) de forma estóica, lembrando-se sempre de todo o processo médico que tinha acompanhado com o seu animal de estimação. Até tinha a fotografia da cadela junto à cama, para matar saudades enquanto estivessem separadas e para que a sua amiga visse como ela era forte».

Decisão bem ponderada

A lista de benefícios continua. O convívio com os animais promove a comunicação entre adultos e crianças, desenvolve as noções de respeito e dedicação, estimula a autonomia e responsabilidade, favorece a afectividade e aumenta a auto-estima. Mas não nos podemos esquecer que ter um animal de estimação é uma decisão para a vida, como alerta Cristina Fernandes: «Muitas vezes, as pessoas não pensam na grande responsabilidade que é acolher um animal em casa. É como se fosse mais um brinquedo que compram para a criança para lhe agradarem naquela semana e que, depois de ser novidade, deixa de ter interesse». Apesar de estimar-se que quase metade dos lares portugueses tenham um animal de estimação (o dobro da média europeia), a taxa de abandono é muito grande e tem vindo a crescer. Embora sem números oficiais, Miguel Moutinho, presidente da associação Animal, em declarações à Lusa, considera que «se admitirmos que, em média, 500 animais (números conservadores) são abandonados em cada um dos 308 concelhos, estamos a falar de 150 mil por ano».

Perguntámos, então, a Jorge Ribeiro, médico veterinário no Núcleo de Medicina e Cirurgia de Animais de Companhia do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (Universidade do Porto), o que é que as famílias com crianças devem ter em conta ao adoptar um animal de estimação. «Fundamentalmente têm de gostar de animais. Se isso acontecer, é fácil serem conquistadas pelo amor que eles demonstram diariamente». E continua: «Têm de ter em conta o espaço físico que possuem e o tempo que a família poderá dedicar ao animal». Além disto, é muito importante informar-se previamente sobre as características, hábitos e necessidades da raça escolhida. Precisa de ser levado a passear todos os dias? Qual a frequência dos banhos? Qual a sua esperança média de vida? Qual o tamanho com que ficará na idade adulta? Podem parecer pormenores, mas são informações essenciais para tomar uma decisão.

As despesas são também um aspecto que terá que prever, não só as de aquisição, como as relativas a vacinas, desparatizações e alimentação. Para Jorge Ribeiro, a divisão de tarefas é também essencial: «Se as crianças forem incluídas nas actividades a que um animal obriga, o trabalho fica mais leve para todos e bem mais divertido. Elas podem, e devem, ser envolvidas desde cedo nos passeios, alimentação e higiene dos seus animais. Devem ser responsabilidades partilhadas com os pais até que estes considerem que as crianças já atingiram a maturidade suficiente para as fazerem sozinhas».

Mãe, podemos ter um cão?

Os pedidos por parte das crianças começam com mais insistência a partir dos quatro, cinco anos e os eleitos são os cães, gatos, coelhos e, por vezes, hamsters e tartarugas. Segundo Dária Rezende, perante estes pedidos, os principais medos dos pais são a transmissão de doenças, as alergias e os acidentes. Mas esclarece: «A transmissão de doenças é minimizada se o animal de estimação for visto periodicamente pelo veterinário e fizer as desparatizações e vacinações necessárias. Também é importante os adultos insistirem na lavagem das mãos pelas crianças após terem contactado com os animais. Quanto às alergias, segundo estudos mais recentes, a exposição precoce da criança a animais diminui a probabilidade de virem a sofrer de alergias. Inclusivamente, acredita-se que a exposição da mãe a animais de companhia durante a gravidez pode ser relacionada com uma maior resistência imunitária do bebé e menor probabilidade de este vir a sofrer de asma».

Cristina Fernandes recorda-se de alguma insegurança inicial: «O meu marido, embora também sendo veterinário, sempre teve algum receio da Sara andar desde muito pequena no meio de tantos animais. Como já tínhamos um gato em casa quando ela nasceu, perguntámos logo ao pediatra a sua opinião. A resposta não nos podia ter deixado mais descansados.
Ele disse: «Só há benefícios». Sofia Gaudêncio é da mesma opinião. Fazendo um balanço destes dois anos da presença em sua casa do gato Dandy, não hesita: «Claramente é uma experiência que aconselho a todos os pais. Tem sido uma grande mais-valia nas nossas vidas! [FONTE]

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Trabalha na área de Controle de Qualidade em uma empresa Suíça. A espiritualidade fez com que Marluce despertasse espiritualmente. Sem um certo nível de consciência espiritual é impossível perceber a magia da vida.