Usar animais em espetáculos de circo já é proibido em vários estados brasileiros. Infelizmente, ainda é permitido em Brasília. Talvez, por causa disso, tivemos um espetáculo durante uma sessão na Câmara, onde um funcionário soltou cinco ratinhos no inicio do depoimento de João Vaccari Neto, tesoureiro do PT, apontado como operador de seu partido no esquema de pagamentos de propinas. Como se sabe, os ratos são espécies resistentes, inteligentes, proliferam com muita rapidez e se alimentam da podridão existente em determinados locais. Não é a toa que os ratos existem há mais de 10.000 anos e não conseguimos até hoje nos livrar deles. Eles são uma praga, odiados e temidos pelos homens. Durante o século XIV foram os causadores da terrível Peste Negra, que dizimou mais de 75 milhões de pessoas na Europa.

Existe um fenômeno curioso chamado de Rato Rei, onde muitos animais ficam presos uns aos outros pelas caudas e sem possibilidade de libertação. Vários já foram encontrados na Alemanha desde a Idade Média, sendo que o maior aglomerado até hoje foi de 32 ratos mumificados encontrados em uma lareira, em 1828. Esse macabro achado era considerado como um presságio de doenças e morte certa. Da mesma forma, hoje, existem os famosos corruptos que se protegem, entrelaçam suas caudas e um não consegue de desvencilhar dos outros. Esses novos ratos também são difíceis de serem eliminados, têm alto poder de sobrevivência, são odiados, perseguidos, mas muitas vezes se escondem e voltam a prejudicar a raça humana, quando menos se espera. A corrupção é como a peste, que não morre nunca. Ela espera, pacientemente, o momento para acordar seus ratos. Como são espertos, eles se infiltram em todos os ramos da nossa sociedade. Quando nos damos conta, estamos infestados de ratos e a peste aparece. Para acabar com a peste, temos que acabar com os ratos. Isso já foi aprendido durante o grande surto na Europa e não podemos nos esquecer desses fatos. Se quisermos um país sem a peste da corrupção, temos que eliminar os ratos. Não conseguiremos eliminar a doença, vivendo com a causa.

Voltando ao depoimento de João Vaccari Neto, vimos alguns lances curiosos; por exemplo, a defesa obteve um habeas corpus assinado por um ministro do Supremo Tribunal Federal, garantindo o direito de não assinar um termo de compromisso usual nas CPIs, no qual o depoente se compromete a dizer apenas a verdade. Em outras palavras, ele teve o direito assegurado de mentir sem ser penalizado. Estranho esse mundo infestado de ratos, com a peste batendo à nossa porta.

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Célio Pezza é escritor e colunista de diversos jornais e revistas no Brasil. Seus romances misturam ficção com realidade e trazem fortes mensagens por trás de cada história. Seu livro As Sete Portas foi traduzido para o inglês e editado no Canadá, EUA e Inglaterra. Sua mais recente obra, A Tumba do Apóstolo, foi lançada em 2014.