Aviso: Desculpem a presunção do título, mas não encontrei outra maneira de fazê-lo. Caso você chegue ao final deste artigo e continue discordando de mim, pode me xingar o quanto quiser nos comentários, sem problemas. Mas faça um esforço de reflexão. [Fonte]

Dada a reativação do debate acerca da pena de morte, por ocasião da execução de mais um brasileiro na Indonésia, achei pertinente vir aqui falar sobre o assunto. Falar sobre isso não vai, diretamente, melhorar os resultados da sua empresa ou impulsionar sua carreira. Mas acredito que qualquer assunto que tem impacto na sociedade em que vivemos nos afeta de alguma maneira.

Está óbvio, mas faço questão de reafirmar: sou contra a pena de morte. Sou contra por acreditar que barbárie não combate barbárie, que nenhum ser humano tem direito a tirar a vida de outro a menos que seja para defender a própria ou a dos seus e, principalmente, por ter plena consciência de que uma injustiça muito grande pode ser cometida, sem chance alguma para reparação. Mas esse é só um discurso bonitinho e humanista que qualquer um repete por aí. Vamos aos fatos.

Hoje, várias agências internacionais informaram que o governo da Indonésia executou mais oito pessoas, mas uma filipina também acusada de tráfico de drogas que estava no corredor da morte foi poupada. Sua execução foi adiada porque horas antes uma suposta aliciadora teria se entregado à polícia e poderia mudar o caso. Não há detalhes nem dá ainda para confirmar se isso provará a inocência da acusada. Mas prova que, se ela for inocente, poderia ter sido executada injustamente (não levando em conta aqui o sentido de “justiça” da pena de morte).

Isso me fez lembrar de outro caso, nos Estados Unidos. Ricky Jackson tinha 18 anos quando foi preso. Passou 39 na cadeia e estava na fila para ser executado. No ano passado, entretanto, uma reviravolta no caso provou que ele era inocente. Sua condenação havia sido baseada em um julgamento cheio de falhas. Se uma advogada não tivesse se interessado pelo caso e resolvido reabri-lo, certamente aquele senhor – que passou a vida inteira atrás das grades sem ter cometido nenhum crime – poderia ter sido assassinado pelo estado, também injustamente.

Aqui no Brasil também há casos semelhantes. Um deles é o de Marcos Mariano da Silva, preso em Recife/PE, acusado de homicídio. Depois de 19 anos, sua inocência foi provada. O autor do crime era outro homem, cujo nome era exatamente igual ao seu (mas tinhas documentos diferentes, vivia em um lugar diferente, tinha outra vida). Se existisse pena de morte no Brasil, talvez Marcos tivesse sido executado.

A pena de morte na Indonésia está ajudando a combater o tráfico de drogas? Ela acabaria com a violência no Brasil? Sinceramente, não sei. Mas sei que a Justiça falha. Nosso sistema judiciário está entupido de processos não julgados. Nos presídios, não é raro encontrar casos de detentos que já cumpriram todo o tempo de pena que lhes seria imputado caso fossem condenados pelos crimes dos quais são acusados, mas sem nunca terem ido a julgamento.

Existe uma série de fatores que podem afetar um julgamento. Em um país como o Brasil, que tem diversos problemas de cunho institucional, isso se torna ainda mais grave. Tem a pressão da polícia e sobre a polícia para que um culpado seja encontrado a qualquer custo. Tem a morosidade da Justiça. Tem a dificuldade de acesso geral e irrestrito de todos os cidadãos à defesa (nem todo mundo pode pagar um bom advogado e as defensorias públicas não dão conta da demanda).

Embora seja contra, consigo compreender seu instinto de querer ver morto um estuprador de criancinhas, o cara que vende drogas em portas de escolas, o político que desvia dinheiro da saúde e da merenda escolar. Esse assunto é mais complexo e merece um artigo à parte (na verdade, não sei se um livro daria conta). Mas não é a isso que me refiro aqui. Só quero que você pense que o estuprador, traficante ou corrupto podem ser outros e o condenado seja um inocente. Que pode, inclusive, ser você mesmo.

Para pensar mais sobre esse assunto, sugiro ver o filme “A vida de David Gale”. Veja o trailer abaixo e deixe sua opinião nos comentários sobre o tema.

About Author

Trabalha na área de Controle de Qualidade em uma empresa Suíça. A espiritualidade fez com que Marluce despertasse espiritualmente. Sem um certo nível de consciência espiritual é impossível perceber a magia da vida.