O orçamento previsto para as Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016 foi de R$ 28 bilhões, mas já passou de R$ 40 bilhões, sem a despoluição da Baia da Guanabara, que era um dos principais legados desta competição. O lixo corre solto e o risco de doenças para as equipes participantes é real. Das 52 obras prioritárias previstas, como obras de mobilidade urbana, 15 ainda não foram iniciadas e nem custeadas. Essas obras farão com que os gastos sejam ainda maiores e essa olimpíada já está cotada para ser a mais cara da História, a exemplo da Copa do Mundo. Só em consultorias, já gastamos mais de R$ 100 milhões, sendo a maior parte do Ministério de Turismo, com mais de R$ 60 milhões. Mas, vamos em frente, já que no Brasil sobra dinheiro para tudo, desde que o circo e a corrupção estejam garantidos.

Só para alimentação dos atletas, temos a bagatela de R$ 7 bilhões, e este é o objetivo desta crônica. A previsão é de servirem perto de 14 milhões de refeições na Vila Olímpica durante os jogos, e, por incrível que pareça, refeições com garantia de isenção de produtos químicos como pesticidas e venenos de todos os tipos que inundam as nossas prateleiras. O povo come alimentos cheios de venenos, mas, na Vila Olímpica, esses mesmos produtos estão proibidos. Só entra “selo verde”, produto orgânico de qualidade, sem venenos e defensivos agrícolas, para garantir uma alimentação saudável lá dentro.

São centenas de empresas certificadas pelo Comitê Olímpico, para fornecerem comida de alta qualidade dentro dos recintos dos jogos, enquanto aqui fora vale tudo, sem a mesma fiscalização. São dois pesos e duas medidas. Uma que mostra para o mundo como somos rigorosos na alimentação e como ela é saudável e outra, real, completamente oposta, onde até o uso de pesticidas proibidos no mundo todo são utilizados pela grande maioria dos agricultores, que seguem a indicação de vendedores inescrupulosos. Na minha ótica, é mais um crime contra a população brasileira, que se alimenta de todos os tipos de venenos, conforme vemos na mídia continuamente e é só dar uma volta nas casas agrícolas do interior de qualquer estado, que constatarão essa triste realidade. Mais uma vez, o governo e os responsáveis debocham da nossa cara, e mostram um Brasil que não existe. Sou a favor que tenham comida de qualidade nas Olimpíadas, mas também sou a favor que essa mesma comida seja estendida a todo o povo brasileiro e não fique restrita a um grupo privilegiado que vai se alimentar na Vila Olímpica. Só para lembrar, o Brasil é um dos maiores consumidores de pesticidas agrícolas do mundo.

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Célio Pezza é escritor e colunista de diversos jornais e revistas no Brasil. Seus romances misturam ficção com realidade e trazem fortes mensagens por trás de cada história. Seu livro As Sete Portas foi traduzido para o inglês e editado no Canadá, EUA e Inglaterra. Sua mais recente obra, A Tumba do Apóstolo, foi lançada em 2014.