A Criança Interior Ferida

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A influência dos traumas de infância em nossa vida adulta – principalmente nos relacionamentos afetivos – é um dos temas centrais do trabalho do terapeuta norte americano John Bradshaw. Neste artigo, ele aborda os sintomas básicos da síndrome de co-dependência, que afeta profundamente o cotidiano de grande número de famílias e casais.

Eu mal acreditava que pudesse ser tão infantil. Estava com 40 anos e tinha esbravejado e gritado até deixar todos – minha mulher, meus enteados e meu filho – apavorados. Então, entrei no meu carro e os deixei. Ali estava eu, sozinho em um motel, no meio das nossas férias na Ilha do Padre. Eu me sentia muito só e muito envergonhado.

Quando procurei me lembrar dos acontecimentos que provocaram aquela explosão, não encontrei nada. Estava confuso. Era como acordar de um pesadelo. Mais do que qualquer coisa, queria que minha vida de família fosse repleta de calor humano, de amor e de intimidade. Mas esse era o terceiro ano que eu explodia durante nossas férias. Eu já os havia abandonado emocionalmente outras vezes – mas nunca fisicamente.

Era como se eu tivesse em um estado de alteração do consciente. Meu Deus, como eu me odiava. O que está acontecendo comigo?

Raiva e Afastamento

O incidente na Ilha do Padre ocorreu em 1976, um ano depois da morte do meu pai. Desde então descobri as causas dos meus ciclos de raiva/afastamento. A primeira pista importante me ocorreu na estrada da Ilha do Padre. Sentado sozinho e envergonhado naquele horrível quarto de motel, comecei a lembrar vividamente cenas da minha infância. lembrei de uma véspera de Natal, quando tinha uns onze anos, e me vi deitado no quarto escuro com a cabeça sob as cobertas, recusando falar com meu pai.

Ele tinha chegado tarde em casa, levemente embriagado. Eu queria puni-lo por estragar nosso Natal. Não podia expressar verbalmente minha revolta, porque haviam me ensinado que era um dos pecados mortais, especialmente quando dirigida aos pais. Durante anos, minha raiva inflamou-se no bolor da minha alma. Como um cão faminto no porão, desesperado de fome, transformou-se em raiva feroz. A maior parte do tempo eu a guardei cuidadosamente. Eu era um cara legal. Era o melhor pai que existia – até não poder mais suportar. Então, me transformei em Ivan, o Terrível.

Regredindo a Infância

O que eu vim a compreender foi que aquele comportamento nas férias eram regressões espontâneas no tempo. Quando estava esbravejando e punindo minha família, afastando-me dela, eu estava regredindo à minha infância, quando engolia minha raiva e a expressava da única maneira que uma criança podia expressar – afastando-me de todos. Agora, adulto, quando passava a crise de afastamento emocional ou fpisico, sentia-me exatamente como o garoto solitário e envergonhado que tinha sido.

O que compreendo agora é que quando o desenvolvimento de uma criança é interrompido, quando sentimentos são reprimidos, especialmente sentimentos de raiva e de mágoa, a pessoa torna-se um adulto com uma criança zangada e magoada dentro dele. Essa criança contamina espontaneamente o comportamento do adulto.

A princípio pode parecer absurdo que uma criança possa continuar a viver no corpo de um adulto. Mas é exatamente o que estou sugerindo. Acredito que essa criança interior, negligenciada e ferida no passado, é a maior fonte da infeliciade humana. Até o momento em que a recuperamos, ela continuará a agir mal, contaminando nossa vida de adultos.

Co-dependência

Defino a co-dependência como uma perda de identidade. Ser co-dependente é perder o contato com os proóprios sentimentos, carências e desejos. Consideremos os exemplos seguintes:

O namorado de Pervilia fala sobre seu descontentamento no emprego. Nessa noite ela não consegue dormir, preocupada com o problema dele. Pervilia senti os sentimentos dele e não os dela.

Quando a namorada de Maximiliam termina o relacionamento de seis meses, ele pensa em suicídio. Acredita que seu próprio valor depende de ser amado por ela. Na verdade, Maximiliam não tem noção do próprio valor, que é criado no seu íntimo, só compreende o valor dos outros, que depende de outras pessoas.

O marido de Jolisha, um atleta, a convida para sair a noite. Depois de muita hesitação, ela aceita. Ele pergunta aonde ela quer ir. Jolisha diz que tanto faz. O marido a leva a uma churrascaria e depois para ver o filme A volta do assassino do machado. Jolisha detesta o programa. Fica emburrada e distante do marido durante uma semana. Quando ele pergunta, “qual p problema”, ela responde, “nada”.

O falso Eu

Jolisha é “um amor”. Todos concordam em dizer que ela é adorável. Na verdade é tudo fingimento. Ela está constantemente representando. Para Jolisha, ser agradável é um eu falso. Não sabe do que precisa nem o que quer. Não conhece sua outra identidade.

Jacobi tem 52 anos. Procura conselho porque há dois meses vem mantendo um caso com a secretária de 26 anos. Jacobi diz que não sabe como isso aconteceu. Ele é presbitero na sua igreja e membro prestigiado do Comitê para Preservação da Moralidade. Foi o lider da luta para livrar sua cidade da pornografia. Na verdade, Jacobi representa um papel religioso. Não tem nenhum contato real com seus impulsos sexuais. Depois de anos de repressão ativa, esse impulso o dominou.

Biscayne assume como o seu o problema de peso da mulher. Limitou a vida social dela porque não quer que os amigos a conheçam. Biscayne não sabe onde termina e onde começa sua mulher. Pensa que sua masculinidade vai ser julgada pela aparência dela. Seu sócio, Bigello, tem uma amante. Ele verifica o peso dela periodicamente para evitar que engorde. Bigello é outro exemplo de pessoa sem o senso do “eu”. Pensa que sua masculinidade depende do peso da amante.

Sistemas doentio

Ophelia Oliphant exige que o marido compre uma Mercedes. Insiste também em continuarem como sócios do Clube de Campo River Valley. Os Oliphant têm muitas dívidas, vivem de um dia de pagamento para o outro. Gastam uma energia enorme para fugir dos credores e para conservar uma imagem de riqueza e de classe alta. Ophelia acha que sua auto-estima depende de manter uma determinada imagem. Não tem nenhuma noção interior do próprio “eu”.

Em todos os exemplos citados acima, vemos pessoas cuja identidade depende de algo que está fora delas. Esses são exemplos da doença da co-dependência.

A co-dependência nasce e cresce dentro de sistemas familiares doentios. por exemplo, todos na família de um alcoólatra tornam-se co-dependentes do alcoolismo dessa pessoa. Como o alcoolismo representa uma ameaça de vida para todos os membros da família, eles se adaptam, tornando-se cronicamente alertas (supervigilantes)

A marca da violência

A adaptação à tensão deve ser, por natureza, um estado temporário, nunca crônico. Com o passar do tempo, a pessoa que convive com a tensão crônica do comportamento de um alcoólatra perde o contato com suas características internas – os próprios sentimentos, carências e desejos.

As crianças precisam de segurança do exemplo de emoções saudáveis para compreender os próprios sinais interiores. Precisam, também, de ajuda para separar os pensamentos dos sentimentos. Quando o ambiente familiar é de violência (química, emocional, física ou sexual), a criança passa a focalizar apenas o exterior.

Isto é co-dependência, um sintoma da criança interior ferida. O comportamento co-dependente indica que as carências da infância não foram atendidas, e que a criança não sabe quem é.

John Bradshaw é terapeuta e autor de “Volta ao Lar” – Como Resgatar e Defender a Criança Interior”, de onde foi extraído esse texto.

FONTE

About Author

Trabalha na área de Controle de Qualidade em uma empresa Suíça. A espiritualidade fez com que Marluce despertasse espiritualmente. Sem um certo nível de consciência espiritual é impossível perceber a magia da vida.