Desde que iniciei meu caminho espiritual, passei a ver o mundo, as pessoas com outros olhos. Olhos de amor, sim! Mas também de alguém que vê o que a maioria está condicionada a não ver. Hoje por coincidência, li um texto de Osho, que explica o que passei a perceber estando consciente. No início é duro, e dói sim, pois temos de nos desfazer de todos os rótulos que os outros colocaram em nós. Precisamos deixar para trás a multidão, abrir as feridas, para enfim, curá-las. E só nós podemos fazer isso por nós mesmos.

[“Toda vez que estou comigo mesmo, me sinto separado, solitário e miserável. Eu só amo a mim mesmo quando estou com outros. Se eu estiver sozinho me sinto envergonhado e antipático. É como se eu julgasse a mim mesmo pelos olhos dos outros.”]

Isso não é só com você. A maneira como as crianças são criadas é a causa de toda essa miséria. Nenhuma criança é aceita como ela é. Ela é recompensada quando segue as direções dos pais, dos professores, dos mais velhos. Essas direções podem ir contra a natureza dela porque essas diretivas não foram feitas por ela ou para ela. Alguém, cinco mil anos passados, fez esses princípios e eles ainda estão sendo utilizados no crescimento das crianças.

Naturalmente, toda criança fica deslocada. Ela não está em seu próprio ser. Ela não é ela mesma; ela é alguém mais. Esse alguém mais é dado a você pela sociedade, pelos outros.

Então quando você está sozinho e não há ninguém a ditar para você, você simplesmente relaxa em sua natureza. Não há nenhuma necessidade de representar coisa alguma porque não há ninguém para ver. Esse relaxar em sua própria natureza faz você sentir-se culpado. Você está indo contra seus pais, contra os padres, contra a sociedade; e eles lhe disseram que você, por si mesmo, não está certo. Você aceitou isso. Isso se tornou algo condicionado em você.
Tudo que você fizer por si mesmo é sempre condenado e tudo que você fizer seguindo outros é sempre elogiado.

Em sua solidão não há mais ninguém lá. Naturalmente, você não precisa atuar; Você não precisa ser um hipócrita. Você simplesmente relaxa no que você é; sua mente porém, está repleta de entulho dado pelos outros.

Assim quando você está com os outros, os outros ficam ditando para você; e quando você está só, a mente que foi criada pelos outros, faz você sentir-se feio, culpado, mesquinho.

É por isso que as pessoas não gostam de ficar a sós. Elas sempre querem estar com alguém mais, porque com outra pessoa elas não podem relaxar em sua própria natureza. A presença do outro as mantém tensas. O outro está lá, julgando cada momento, cada ato e cada gesto que você está para fazer.

Então você simplesmente representa um certo ato que lhe foi dito que é certo. Assim sua mente se sente bem: isso está de acordo com o condicionamento. Sua mente fica feliz que você fez bem; você é legal.

A pessoa precisa da multidão. Essa é a razão psicológica porque eles sempre querem pertencer ao Hinduísmo, ao Cristianismo, ao Maometismo, a esse país, àquele país. A essa raça, àquela raça. E se isso não for suficiente, eles criam rotary clubes, lion clubes.
Eles não podem ficar sozinhos. Eles precisam estar continuamente rodeados de pessoas. Só assim eles podem manter a tensão viva, o ato vivo. Na multidão, eles não podem ser eles mesmos.

Sozinho, porque você fica assustado? Ficar sozinho é uma das mais belas experiências. Você não está mais incomodado pelos outros; você não está mais forçando a si mesmo fazer alguma coisa que é esperado. Só, você pode fazer o que você quiser. Você pode sentir o que você quiser. Tudo que você precisa é estar desligado da sua mente.
Sua mente não é sua mente. Sua mente é apenas um agente da multidão a qual você pertence. Ela não está a seu serviço; ela está a serviço da multidão. A multidão colocou um detetive em sua mente que fica lhe forçando, mesmo quando você está sozinho, a agir de acordo com as regras.

Todo o segredo é testemunhar a mente; permita sua natureza e diga claramente para a mente, “Você não é minha. Eu vim para o mundo sem você. Você me foi dado depois pela educação, pelo exemplo. Você é algo alienígena; você não é parte da minha natureza. Assim, pelo menos quando eu estiver sozinho, me deixe em paz”.

Você precisa aprender a dizer, “Cale a boca!” a mente e deixar sua natureza completamente livre.

Você ficará imensamente surpreso com as belezas que você possui, que inocência, que perceptividade. Uma vez que você aprendeu que a mente pode ser posta de lado, e você pode realmente ficar só – porque com a mente você não fica realmente sozinho; todas aquelas vozes de seus pais, dos professores, dos padres e dos políticos estão gravadas na sua mente; a mente fica simplesmente repetindo-as.

Essa é uma grande estratégia desempenhada pela sociedade contra o indivíduo.

Um psicólogo, cujo nome é Delgado, tem trabalhado por toda sua vida sobre um projeto – e ele foi bem sucedido no projeto – o qual lhe dará algum insight para você mesmo.

Em seu cérebro existem setecentos centros. Tudo que você faz é realizado através de um dos setecentos centros. Ele descobriu – trabalhando por toda sua vida – qual centro controla que tipo de atividade em você; como na raiva, no ódio, no assassinato por exemplo – qual centro está ativo quando alguém fica zangado. Ele fez minúsculos eletrodos. É claro, ainda não lhe foi permitido experimentar em seres humanos, mas ele tem um grande presente. Toda a humanidade pode ser mudada através disso, e ele tem trabalhado com animais.

Por exemplo, na Espanha ele mostrou isso. Ele colocou eletrodos no cérebro de um touro, e ficou de pé parado enquanto o touro corria na direção dele para matá-lo. Quando faltava só um pé de distância dele, o touro parou subitamente, congelado. O que aconteceu? As pessoas não podiam acreditar nisso. Eles nunca tinham visto uma cena dessas.

Eles não sabiam que isso era um experimento. Ele tinha um controle remoto. Ele podia parar qualquer atividade do touro apenas pressionando um botão em suas mãos. Ele permitiu ao touro chegar tão perto; cerca de um pé; ele podia ter sido morto. Mas quando o botão foi pressionado, a atividade cessou completamente.

O experimento de Delgado é de imensa importância. Se isso cair nas mãos dos políticos, será muito perigoso para a humanidade, porque quando a criança nasce…

Por exemplo, na Rússia, nenhuma criança pode nascer em sua própria casa; toda criança tem que nascer no hospital. Agora esse é o momento certo para colocar qualquer tipo de eletrodo no cérebro da criança – por exemplo, algum eletrodo que o impeça de qualquer atividade revolucionária contra o governo, algum eletrodo que o impeça de se sentir miserável, cheio de sofrimento, torturado. O painel central do partido comunista teria todos os controles remotos.

Eles podem ter um sistema que se alguém estiver pensando em termos de anticomunismo, uma luz irá imediatamente mostrar isso num painel.. E assim eles só precisam pressionar um botão e toda a sua revolução, anticomunismo, irá desaparecer.

O que Delgado tem feito e provado, tem sido feito a você pela sociedade de uma maneira mais primitiva. Mas tem obtido sucesso até agora. Eles não colocam nenhum eletrodo em sua mente – eles não tem nenhuma idéia disso – mas o que eles fazem funciona do mesmo jeito.

Eles vão lhe dizendo o que é certo. E a contínua repetição do que está certo e do que está errado vai criando uma mancha em sua mente sem precisar colocar nela um eletrodo. Aos poucos, você começa a pensar que é sua mente que está decidindo o que está certo e o que está errado. Não é assim. A sociedade lhe condicionou.

Isso você pode ver em diferentes sociedades, porque sociedades diferentes têm condicionamentos diferentes. Por exemplo, a bandeira Americana possui um significado para o Americano porque desde a infância tem sido dito a eles, “Até mesmo sacrificar sua vida pela bandeira é algo grande”.

E o que é a bandeira? Apenas um pedaço de pano. Não possui nenhum valor intrínseco. Para um Indiano, ela não significa nada, para um Americano significa tudo. A bandeira Indiana significa tudo para o Indiano; para o Americano não significa nada.

Portanto não é sua mente que está decidindo. É a mente da sociedade que impôs certas idéias sobre você. Seja qual for a multidão que você esteja, a multidão dá a mente dela para você. Lentamente, muito lentamente, você se esquece completamente que esse não é seu ser real.

Meus sannyasins precisam fazer uma clara distinção. A mente é parte da sociedade, não parte de você. O que é parte de você é sua atenção, sua consciência, sua testemunha. Assim você pode ficar só e imensamente feliz. Na verdade, você só pode ser feliz quando você está só.

Aquele que sabe como ser extático estando sozinho pode ficar só na multidão. Quem irá descobrir que intimamente você está completamente centrado na sua testemunha e que você não está de maneira alguma incomodado pela mente?
Isso leva apenas um pouco de tempo, mas como você continua desidentificando-se com a mente, ela perde o controle sobre você e finalmente começa a desaparecer.

Esse é o início da liberdade, o nascimento de um novo homem, o nascimento de um homem autêntico. Agora você irá agir a partir de sua consciência não a partir de sua mente. Você irá agir de momento a momento, vendo a situação claramente. Não há nenhum problema para se preocupar sobre o que está certo e o que está errado.
Sua claridade irá decidir o que está certo, sua claridade lhe guiará em direção ao certo. Pode não coincidir com o certo de sua sociedade. Eis porque a sociedade teme e quer colocar uma mente em você.

O método antigo é um longo processo. O método de Delgado é simples, pode ser feito dentro de segundos, porém é mais perigoso também. Você pode se desidentificar com a mente que a sociedade lhe deu, mas o eletrodo é um assunto diferente.

Mesmo se você se desidentificar, o eletrodo irá controlar seu corpo. Você pode não gostar de fazer alguma coisa, mas o eletrodo lhe forçará a fazê-la. Você fica absolutamente indefeso.
De certa maneira, a descoberta pode ser uma bênção porque podemos eliminar tudo que é feio no homem, tudo que é desumano no homem com tal simples metodologia – apenas uma simples operação no seu crânio, e colocando um pequeno eletrodo.

Se você for uma pessoa por demais raivosa, você pode ir para o cientista e dizer a ele que esse é seu problema básico: você fica raivoso com coisas pequenas. Ele pode pôr um eletrodo no ponto exato de onde a raiva surge. Ele pode lhe dar um controle remoto para você colocar no bolso. Sempre quando você não quiser estar com raiva, basta apertar o botão e ela irá simplesmente desaparecer.

Isso é bom de certa maneira, mas espiritualmente não é algo que irei apoiar. Para a sociedade isso é bom, mas se você puder administrar apenas pelo controle remoto todas as suas emoções, sentimentos, ações, você nunca pensará em ficar cônscio. Você nunca irá pensar em se tornar meditativo.

Bastante estranho, nesses setecentos pontos em sua mente, não há sequer um ponto que possa criar meditação em você. Portanto, isso é alguma coisa que está além da mente, acima da mente.

Se estiver claro para um homem sobre toda a situação, ele pode usar eletrodos, mas ele não deve esquecer da meditação, porque ele não é somente o corpo e o cérebro; ele também é um ser luminoso. Essa experiência só é possível através da meditação.

Assim minha sugestão ao questionador é: quando você estiver sozinho, diga a mente, “Cale a boca! Você não faz parte de mim. Deixe-me em paz!”

Existe uma história Sufi… Um jovem buscador, um grande mestre Sufi. Quando ele entrou na sala e saudou o mestre com grande respeito, o mestre disse, “Bom. Isso está perfeitamente bem. O que você quer?”
Ele disse, “Eu quero ser iniciado”.
O mestre disse, “Eu posso lhe iniciar, mas e quanto à multidão que está lhe seguindo?
Ele olhou para trás, não havia ninguém. Ele disse, “Que multidão? Estou sozinho”.
O mestre disse, “Você não está. Feche seus olhos e veja a multidão”.
O jovem fechou os olhos e ficou surpreso. Havia toda uma multidão que ele tinha deixado para trás: sua mãe chorando, seu pai lhe dizendo para não ir, sua esposa em lágrimas, seus amigos lhe impedindo – cada rosto, toda a multidão. O mestre disse, “Agora abra seus olhos. Você pode dizer que essas pessoas não estão lhe seguindo?”
Ele disse, “Sinto muito. Você está certo. Estou carregando toda uma multidão dentro de mim mesmo”.
Então o mestre disse, “Seu primeiro trabalho é livrar-se da multidão. Esse é seu problema. E quando você elimina a multidão, as coisas ficam muito simples. No dia que você acabar com a multidão eu lhe iniciarei, porque só posso iniciar você, não posso iniciar a multidão”.

A história é significativa. Mesmo quando você está sozinho você não está só. E um meditador, embora numa multidão de milhares de pessoas, está sozinho.

Quando você está sozinho, ninguém pode ver a multidão, porque ela está dentro de você. E quando uma pessoa meditativa está na multidão e ainda assim sozinho, ninguém pode ver sua solidão porque isso também está dentro dela. Conhecer sua solidão é estar familiarizado com a existência, com a natureza, com sua realidade. E isso lhe dá uma felicidade tal que não há comparação com qualquer alegria que você tenha sentido no passado.

Você está dizendo que, quando você está com as pessoas você fica perfeitamente feliz. Isso não é felicidade, isso é uma alucinação de felicidade porque sua mente está em sintonia com as pessoas. Sozinhos, eles também estão no mesmo problema que você. Então juntos, há uma certa harmonia na mente e essa harmonia lhe dá o senso de felicidade. Porém, o senso é muito superficial; não tem raízes.

A menos que você seja feliz em sua solidão total, lembre-se, qualquer coisa que você pensa que é felicidade é somente uma decepção.

Uma vez que a coisa se esclarece. Não é difícil fazer isso. Encontre tempo – mesmo por uns minutos, de vez em quando – apenas fique só.

No começo você se sentirá miserável, porque ninguém está lá para dizer quão bonito você é. Ninguém está lá para dizer, “Que grande artista você é!” Não haverá ninguém, apenas silêncio ao seu redor. Mas um pouco de paciência e um pouco de atenção para não ficar identificado com a mente, trará a grande revolução que lhe tornará realmente um sannyasin.

Osho, From Death to Deathlessness, Discurso #40

 

About Author

Reikiana, praticante e apaixonada por Yoga, a estudante de Design de Moda pela UCS, Manoela desenvolveu um grande interesse na conexão espiritual entre o passado, presente e o futuro da humanidade, seus caminhos e mudanças ao longo dos séculos. Suas pesquisas para o Verdade Mundial vem sendo amplamente visualizadas nas áreas da sociedade, história e religião.