O Brasil é realmente um país estranho. Aceitamos que um Governo, Estado ou uma Prefeitura não tenha verbas para Educação, Saúde, Segurança, desde que tenha verbas para fazer uma grandiosa festa de final de ano, com um foguetório inútil e um bando de artistas de qualidade duvidosa a preço de ouro. Gastamos milhões nesta baboseira, que dura somente uma noite, para depois amargarmos o ano todo sem verbas para setores fundamentais. Ao invés de sairmos às ruas protestando contra esse caos instalado, contra essa corrupção que assola o país, nós guardamos as forças para pular durante o carnaval. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o desperdício de alimentos no Brasil chega a 40 mil toneladas por dia. Esse desperdício acontece no produtor, distribuidor, vendedor final e em nossas casas.

Este mês de janeiro, começamos com produtores rurais de Venda Nova do Imigrante, região serrana do Espírito Santo jogando fora 20 mil caixas, cerca de 500 toneladas de tomate de boa qualidade, pois o preço do produto caiu. Será que somos um país sério? Por que não apareceu uma autoridade qualquer para impedir que toneladas de alimento sadio fossem para o lixo, quando tanta gente não tem o que comer? Por que não protestamos contra isso?

Outro assunto que incomoda neste inicio de ano é o decreto presidencial que isenta de vistos para entrar no Brasil todos os estrangeiros que chegarem de janeiro até 18 de setembro de 2016, com o objetivo de aumentar o turismo durante os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos (ou Paralímpicos) no Rio de Janeiro. O chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general José Carlos De Nardi se posicionou contra essa abertura, por entender que desobrigar os turistas de apresentar um visto de entrada pode abrir caminho para a vinda de terroristas ou bandidos de todos os pontos do mundo. Ao invés de ser ouvido, foi destituído do seu cargo pelo novo Ministro da Defesa, Aldo Rebelo (PCdoB). Outra crítica veio do médico epidemiologista e professor da Universidade Federal da Bahia, Dr. Juarez Dias, pois o fluxo descontrolado de estrangeiros no país pode trazer de volta algumas doenças já controladas e outras novas, pois não são exigidas vacinas para entrar no Brasil. O senador Aloysio Nunes (PSDB) também contesta esse decreto, pois a isenção de visto deve sempre implicar em um princípio de reciprocidade entre dois países, não de maneira unilateral e indiscriminada como foi feito.

Com a sanção presidencial, Dilma afirma ao mundo que o Brasil é um país altamente preparado e um modelo em matéria de segurança de grandes eventos. Só não conseguimos evitar as chacinas, as balas perdidas e o aumento de criminalidade em todo o Brasil. Também se posiciona como o país mais democrático do mundo, pois aqui terroristas e bandidos não são discriminados, como é o caso do assassino italiano Cezare Batistti, aqui chamado carinhosamente pelas autoridades de “ativista”.  Também passa a mensagem ao mundo de que o Brasil está absolutamente aberto a todos os refugiados que desejarem conhecer as nossas belezas. Assim começamos 2016, com os mesmos e velhos erros.

Célio Pezza

Janeiro, 2015

About Author

Célio Pezza é escritor e colunista de diversos jornais e revistas no Brasil. Seus romances misturam ficção com realidade e trazem fortes mensagens por trás de cada história. Seu livro As Sete Portas foi traduzido para o inglês e editado no Canadá, EUA e Inglaterra. Sua mais recente obra, A Tumba do Apóstolo, foi lançada em 2014.