O Banqueiro dos pobres

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“Há muitas coisas erradas no mundo às quais as pessoas não ligam, e esta é uma delas. Diria que a resposta é a indiferença: as pessoas estão tão focadas em fazer dinheiro, na perseguição do lucro, em ambições pessoais em termos de quanto dinheiro se ganha… Temas como a violação dos direitos humanos, a escravatura infantil, a pobreza, a disparidade salarial não interessam. Nesse contexto, as pessoas tornam-se muito egoístas porque isso é encorajado num sistema que é alicerçado no egoísmo.

O emprego é um tipo de escravatura porque se está às ordens de outra pessoa. Aceita-se um emprego, há horários e condições que se têm de aceitar: por isso não se é livre. Porquê escolher isso? Por que não ser livre, tomar as decisões sobre o que se quer fazer? Isso é o estado natural do ser humano. Quando se aceita um emprego começa-se por baixo. Vai-se subindo de nível, até que, no fim da vida, eventualmente se chega ao topo. Isso é uma utilização muito limitada do talento humano. Os seres humanos têm um poder criativo tão grande. Porquê perder a energia e o poder, fazendo algo que outros mandaram, e que nós podemos não gostar, só para ter um cheque ao fim do mês? Assim estamos a vender-nos. E para quê? Temos é que fazer as coisas de que gostamos. Por isso, o nosso estado natural é sermos criadores do nosso próprio emprego, sermos, nós próprios, empreendedores.”

Muhammad Yunus nasceu em Bangladesh em 1940, é muçulmano não-praticante e estudou Ciências Econômicas em Nova Délhi. Posteriormente, ampliou seus estudos nos Estados Unidos com bolsas das instituições Fullbright e Eisenhower. Voltou a seu país em 1972 para dirigir o Departamento de Economia da Universidade de Chittagong. Foi nessa situação que saltou a seus olhos o abismo existente entre as teorias abstratas que ensinava e a realidade de miséria fora do campus da Universidade.

O bengalês Muhammad Yunus e o Grameen Bank, instituição criada por ele para a concessão de microcréditos a pessoas de baixa renda, foram agraciados com o Prêmio Nobel da Paz 2006. A escolha foi vista como mensagem do Comitê Norueguês do Nobel contra o neoliberalismo econômico e a globalização que não leve em conta as necessidades dos pobres. “A paz duradoura não pode ser obtida sem abrir um caminho para que uma ampla parte da população saia da pobreza”, afirmou em seu veredicto o Comitê.

Yunus fundou seu banco em 1976. Sua ambição, no longo prazo, é contribuir para erradicar a pobreza do mundo por meio de microcréditos que beneficiam especialmente as mulheres. O que há algumas décadas parecia missão impossível e sem sentido do ponto de vista de qualquer banqueiro, a concessão de créditos a pessoas de parcos recursos, tornou-se, como assinalou o Comitê, “um importante instrumento na luta contra a pobreza”.

O Grameen Bank é entidade financeira que só concede créditos aos “mais pobres entre os pobres”, que se tornam seus acionistas. Assim, o conjunto de acionistas já somava, em 2006, 3,8 milhões de pessoas, das quais 98% eram mulheres.

O fato de quase todos os clientes serem mulheres demonstra a relevância do organismo financeiro na luta pela libertação feminina em sociedades muçulmanas em que elas enfrentam dificuldades devido a seu gênero. O Comitê Nobel afirmou que os “microcréditos se tornaram uma importante força de libertação em sociedades nas quais as mulheres precisam lutar contra um entorno social e econômico repressivo”.

As mulheres que tomam os empréstimos são, predominantemente, moradoras de zonas rurais (Grameen Bank significa “Banco das Aldeias”) e costumam ser pessoas sem terras. Eles se diferenciam de todos os outros tipos de créditos porque não requerem avalistas individuais, mas sim grupos de avais solidários, As solicitantes formam grupos de cinco, e as duas mulheres mais pobres recebem primeiro o crédito. Quando estas começam a pagá-lo, semanalmente, chega a vez de as outras três terem acesso ao dinheiro. Desta forma, é criada espécie de rede de apoio coletivo que, ao mesmo tempo, exerce pressão, o que explica a taxa de adimplência em média maior do que 97%.

“Cada indivíduo na Terra tem o potencial e o direito de viver decentemente. Yunus e o Grameen Bank demonstraram que até os mais pobres entre os pobres podem trabalhar para superar as dificuldades”, disse o Comitê.

Embora o sonho de Yunus de erradicar a pobreza no mundo não possa ser cumprido apenas mediante microcréditos, o economista e o Grameen Bank “demonstraram que para atingir este objetivo, os microcréditos devem desempenhar um papel mais importante”, afirmou o Comitê Nobel. Com isso, fez convite aberto ao mundo financeiro a seguir o exemplo.

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Reikiana, praticante e apaixonada por Yoga, a estudante de Design de Moda pela UCS, Manoela desenvolveu um grande interesse na conexão espiritual entre o passado, presente e o futuro da humanidade, seus caminhos e mudanças ao longo dos séculos. Suas pesquisas para o Verdade Mundial vem sendo amplamente visualizadas nas áreas da sociedade, história e religião.