Por que hoje é mais difícil do que nunca para as mulheres não serem obcecadas pela aparência?

Amanda Scherker Associate Editor, Viral Content, The Huffington Post

REPRODUÇÃO/IMDB.COM

Somos bombardeadas diariamente com imagens de beleza ideal. Estas imagens aparecem tantas vezes em nossa vida diária que é fácil esquecermos que elas são bem novas; que há 150 anos a maioria das mulheres sequer viam fotografias de outras mulheres – muito menos recebiam uma enxurrada diária de anúncios modificados no Photoshop.

É incrível como existem tantas formas de mostrar a beleza e a autoexpressão. Mas, quando a maioria das imagens tradicionais acaba por retratar uma representação estreita de beleza, isso sugere também que as mulheres que não são parecidas com essas imagens são inadequadas.

Se parar para pensar, as mulheres enfrentam uma batalha visual diária, sem precedentes na história:

A menos que você fosse bem rica, antes do final do século 19, você não teria sequer um espelho!

Olhar-se no espelho era caro! De acordo com o livro de Carla Rice, Becoming Women, só os mais ricos podiam comprar um espelho, que custava o equivalente a um carro de luxo. Além disso, a maioria das superfícies de vidro era desigual e distorcida, assim sua aparência podia variar drasticamente de espelho para espelho, de acordo com Kathy Peiss, em Hope In A Jar. Peiss diz que muitas pessoas, realmente, não sabiam como elas eram até o final do século 19, quando os espelhos de vidro se tornaram comuns.

As primeiras imagens de mulheres americanas, amplamente difundidas, apareceram em revistas de moda.

No Carnival on the Page, Isabelle Lehuu escreve que os comerciais que retratavam a moda feminina tornaram-se populares nos EUA no início do século 19. Estas gravuras pintadas à mão apresentavam a moda da época, ao invés de mostrar mulheres individualizadas. Na época, a maquiagem era associada à prostituição, os cosméticos eram caseiros e a demasiada preocupação com a beleza física era considerado vaidade.

Por volta de 1860, a fotografia já tinha se difundido para boa parte dos americanos – e, com ela, uma nova ansiedade sobre a aparência.

Nesta época, os americanos da classe média podiam pagar para ter seus retratos tirados em estúdios. De acordo com Peiss, esta era a primeira vez que muitos americanos podiam ter uma imagem permanente, fixa, de como eles realmente eram e eles, frequentemente, deprimiam-se com o que viam. Um manual de fotografia notou que as fotografias davam mais atenção às características faciais das mulheres e começou a oferecer maquiagem em seus estúdios. Fotos de celebridades começaram a aparecer; os americanos compravam fotos de suas celebridades favoritas e as incluíam até mesmo em seus álbuns de fotos da família.

No final do século 19, o crescimento dos meios de comunicação criou uma explosão de imagens. A mais popular de todas elas: a bela e jovem mulher americana.

No final do século 19, as revistas femininas começaram a ser produzidas em massa e se tornaram amplamente disponíveis. Para competir em um mercado em crescimento, os editores começaram a lançar “Cover Girls” em suas capas. A mais famosa foi a “Garota Gibson”, que aparece acima. A Garota Gibson foi a primeira imagem da mulher americana ideal difundida em todo o país, e seu rosto foi reproduzido em massa em todos os lugares, em lenços, porcelana chinesa e até em papel de parede.

Na década de 1920, as mulheres tornaram-se os principais alvos da indústria de publicidade, em plena expansão. Em 1930, as mulheres diziam que os anúncios faziam com que elas se sentissem mal sobre si mesmas.

Os gastos com publicidade inflaram ao longo dos anos 1910 e 1920, e a maioria tinha como alvo as mulheres. No passado, os tratamentos de beleza eram principalmente um passatempo de mulheres ricas; os anúncios de beleza dos anos 20 estabeleciam como objetivo, e até como um dever obrigatório para todas as mulheres. Como o anúncio de 1924 dizia: “A não ser que você seja uma mulher em um milhão, você deve usar pó facial e rouge”.

Os anúncios equiparavam a beleza com amor e status social; as mulheres negras eram alvos de propagandas que vendiam clareadores de pele perigosos, como forma de avanço social. Os anúncios usavam imagens que incentivavam as mulheres, inconscientemente, a se compararem com as modelos e verem seus próprios corpos como “coisas a serem criadas para competir contra outras mulheres”, descreveu Stuart Ewen em “Capitães de Consciência.”

Conheça o site do Fotógrafo e autor do site Verdade Mundial, Ton Müller

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A indústria cinematográfica de Hollywood definiu a imagem da mulher ideal americana.

Os filmes de Hollywood criaram novos padrões de atratividade, especialmente porque, o, cada vez mais popular, glamour do “close-up” de Hollywood, fazia com que as características faciais dos atores, e sua maquiagem, ficassem mais perceptíveis. Ao longo dos anos 30, mais e mais mulheres americanas compraram cosméticos endossados por celebridades e os manuais de beleza de Hollywood, na esperança de ficarem parecidas às suas atrizes favoritas. A maquiagem, que uma vez foi considerada como algo brega, agora era glamorosa. Peiss diz que em 1940, “a mulher atraente e bem formada põe em evidência o modo de vida americano.” O governo dos EUA chegou a declarar o batom uma necessidade em tempos de guerra.

Nos anos 40 e 50, a televisão trouxe filmes com atrizes glamorosas e comerciais de beleza para dentro de casa.

Comprovada a sua eficácia como forma de divulgação de produtos de beleza, a indústria cosmética começou a investir nos comerciais de TV. A venda de cosméticos aumentou, toneladas de novos produtos foram inventados e produtos de beleza eram cada vez mais comercializados para adolescentes e pré-adolescentes, muitas vezes, em escolas ou grupos de jovens. A TV também produzia concursos de beleza em eventos mundiais – a busca pelo rosto bonito era agora uma indústria. Marilyn Monroe personificou o ideal de beleza do momento. A beleza realmente se tornou um dos principais objetivos da mulher americana.

A partir dos anos 60, o corpo feminino ficou cada vez mais exposto e sujeito a maior exploração.

Imagens de mulheres mais magras apareciam em todos os lugares, desde a Revista Vogue, encarregada de espalhar a moda, até concursos de Miss América e filmes de Hollywood, as mulheres comuns eram incentivadas a ter esse look. Apesar das mulheres sempre se sujeitarem a rigorosos padrões de imagem corporal, elas agora estavam expostas a muitas outras imagens do que era um ter um corpo ideal, diariamente. De acordo com Naomi Wolf, em O Mito da Beleza, revistas de beleza que enfrentavam baixas vendas, no final dos anos 60, mudaram seu foco de moda para o corpo feminino, e entre 1968 e 1972, o número de artigos relacionados com dietas cresceu 70 por cento. A obsessão da mídia com a magreza teve um custo: Wolf cita dois estudos que mostraram que o número de adolescentes que se achavam gordas cresceu de 50 por cento em 1966 para 80 por cento em 1969.

A partir dos anos 70, as imagens das mulheres também se tornaram cada vez mais sexualizadas.

A partir dos anos 70, as mulheres retratadas nos anúncios se tornaram cada vez mais objetos e usavam cada vez menos roupas. Enquanto isso, a diferença entre os pesos das modelos e a da média das mulheres americanas continuou a aumentar. Nos anos 90, as mulheres eram tipicamente vistas encarnando e vivendo o papel de um objeto sexualmente disponível, em qualquer lugar, seja em vídeos de música para comerciais de televisão, revistas ou no horário nobre da televisão.

E as lindas mulheres retratadas eram ainda predominantemente brancas.

Enquanto as mulheres negras criavam suas próprias imagens artísticas, o padrão cultural primário de beleza foi sempre apresentado como sendo das brancas. Assim, escreve Maxine Leeds Craig em Ain’t I a Beauty Queen?, “Antes de 1974, cada capa da Vogue tinha uma mulher branca, antes de 1983, cada Miss América era branca.” As indústrias de televisão e cinema foram igualmente influenciadas pela “cultura branca”. Ainda assim, muitas mulheres negras quebraram barreiras para ganhar visibilidade na cultura dominante, como a supermodelo Donyale Luna, a primeira mulher negra a aparecer na capa da Vogue. Embora a grande mídia começasse a se tornar um pouco mais diversificada, dos anos 70 em diante, as mulheres negras ainda tendiam a serem hipersexualizadas em anúncios e filmes e eram, muitas vezes, retratadas de forma que parecessem mais “brancas”.

Nos anos 90, o Photoshop criou uma nova forma de perfeição feminina, apagando a gordura natural do corpo, sinais de idade ou manchas.

Os programas de Photoshop foram inventados nos anos 90 e foram usados para criar imagens artísticas e futuristas. Em 1995, o retoque era onipresente em anúncios tradicionais, tornando as mulheres incrivelmente magras e com a pele incrivelmente suave e sem poros. Em 1985, uma em cada três mulheres diziam que estavam descontentes com a sua aparência, em uma pesquisa da Revista Psychology Today. Quando a mesma pergunta foi feita em uma pesquisa de 1993, uma em cada duas mulheres se sentiam assim.

Hoje, as mulheres estão mais expostas do que nunca às alterações da mídia digital.

Você sabe como as coisas são: nós estamos cercadas por imagens de mulheres, que estão em sua maioria abaixo do peso, são em sua maioria brancas, e estão, muitas vezes, hipersexualizadas e cada vez mais jovens. Se incluirmos a mídia social nesse meio, as mulheres são colocadas em posição de compararem-se diariamente, não só com celebridades e modelos, mas com suas amigas. A comparação cotidiana com amigas e celebridades (que podem até terem usado photoshop em suas fotos) é um ciclo constante de comparações e “melhorias”, alimentado pela indústria multibilionária da dieta, cirurgias plásticas e cosmética.

Essas comparações visuais parecem estar em todos os lugares que você olha. E isso pode dificultar uma imagem corporal positiva. Mas mulheres maravilhosas estão desafiando os padrões cansados de beleza vendidos pela cultura dominante e lutando para criar novos padrões de beleza. Este trabalho questiona a forma como a nossa cultura de beleza marginaliza as mulheres negras envergonha as mulheres que não são magérrimas.

Essas imagens ajudam a combater a enxurrada diária de imagens da mídia que todas enfrentamos, e servem como um lembrete importante de que é a nossa cultura – não nossos corpos – que precisa de uma reforma.

A pergunta que surge é:
As mulheres estão querendo provar o quê? E para quem?
E até que ponto se tornam vítimas de suas próprias obsessões sem se darem conta?

Fonte: Huffpost
Link: http://m.huffpost.com/br/entry/6084830

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Criador do Site Verdade Mundial, fotógrafo por amor e profissão. Um inquieto da sociedade! Acredito que podemos mudar o pensamento das massas com a informação. Temos as ferramentas e a vontade de ver um Mundo melhor e livre. Estamos nessa luta há dez anos e em frente!