Deus, sendo amor, pode guerrear? Visão de Shambhala

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A disposição para a justiça e a liberdade, com desprendimento da própria vida, é componente fundamental da terceira iniciação, sendo também um aspecto essencial da espiritualidade árya porquanto esta raça tinha por dharma desenvolver esta consciência. Daí se entende os discursos de Krishna no Bhagavad Gita sobre a imortalidade e a importância de cumprir o seu dever mesmo na guerra contra os próprios familiares.
Quem ama verdadeiramente, age e salva. Lutar por amor é mais que um direito, é um dever da boa consciência. As guerras não são movidas apenas pelo ódio e a opressão, mas também pelo cuidado pelas coisas, pela defesa do direito e daquilo que se ama.
Todos os sistemas sociais hoje defendidos, mesmo aqueles mais singelos e naturais, foram criados e preservados através da luta. Se existe vida hoje no planeta, é porque se lutou por ela. A Natureza é fruto de muita luta em sua defesa, e não foi fácil a implantação da cultura do Neolítico com seu sedentarismo, deixando atrás a Ordem original ambientalista que determinava respeitar a Mãe Terra e manter a Natureza intocada. A Idade Média, tão criticada pela ordem burguesa atual, deu um basta ao antigo sistema romano de opressão e de exploração social, reentronizando devidamente o Espírito e a Natureza, tendo como coroação espiritual a mensagem de São Francisco de Assis.

O direito de matar, dentro de certas regras e sempre com testemunhas, tem sido respeitado através dos tempos. Tal como matar pela honra em duelos e justas, ou mesmo sob a lei de talião (de talidade ou de retaliação, visando a punição dentro das proporções), já presente no Código de Hamurábi.
A Justiça torna-se ineficaz dentro dos grandes sistemas sociais inchados, o que não justifica que as pessoas devam sair fazendo “justiça pelas próprias mãos”, mas sim que estes sistemas falidos devem ser destruídos ou abandonados para que a Justiça possa ser resgatada. Não se deve esquecer que o Deus que criou o mandamento de “Não Matar”, é o mesmo Deus libertador dos oprimidos, que também promulgava a guerra contra os infiéis e os recalcitrantes, sob a orientação agarthina de buscar a Terra Prometida.
Afinal, uma Terra Prometida nem sempre está livre como se deseja para implantar uma Nova Ordem, muitas vezes ainda existe ali resquícios de velhas coisas como ignorância e opressão, porém se trata de um território ainda possível de libertar porque a máquina do sistema ainda não impera ali a todo vapor, havendo mais velhos atavismos fragilmente aliados à máquina imperialista.

O direito à vida e à liberdade

Amiúde vemos pais dizerem que fariam tudo por seus filhos, até matar se necessário. Acaso Deus não teria o direito de fazer o mesmo em favor daqueles que considera seus filhos?
Os médicos prescrevem remédios que matam vírus e bactérias -o termo “antibiótico” traduz literalmente esse combate a seres vivos danosos. Pois a Terra e as nações-dharma são como o corpo e os membros de Deus.
Perseguições contra pragas são amiúde realizadas para proteger o ecossistema e, em especial, outras espécies consideradas mais nobres, especialmente o próprio ser humano. Para Deus, os pecadores convictos são exatamente como as pragas da Terra, pois devastam a Criação e oprimem as Criaturas.

Muitas nações do mundo, mesmo entre aquelas consideradas mais civilizadas, fazem uso da pena-de-morte, tornando a morte um direito do Estado e da nação. Outras nações não aceitam isto, mas na prática matam e oprimem cotidianamente seus próprios cidadãos.
A PAX capitalista é a “paz” dos cemitérios. A sociedade capitalista trata de manipular suas guerras com a habitual demagogia. Por detrás de sua pax alienada, está um estado-de-guerra endêmico através de opressão, chacina e depredação, visando manter a sua máquina mortal em atividade.

Tais coisas justificariam então as atitudes das religiões guerreiras? Dir-se-ia que apenas parcialmente, porque o tema está sujeito à distorção e ao fanatismo. Dentro da dinâmica das coisas, muitas destas religiões estão defasadas e já pouco correspondem ao seu período histórico. Contudo, as profecias também anunciam um tempo de batalhas pela redenção do planeta.
O grande diferencial que torna matar uma atitude legítima ou não, está na diferença entre a liberdade e a opressão. Há quem mate para oprimir, e há quem mate para se libertar. Mesmo Gandhi admitia a luta armada, caso o método pacífico não seja mesmo possível. Diferente de Barrabás, Jesus não propugnava a luta armada e até mandava dar a outra face e amar o inimigo; contudo, ele foi o primeiro a dizer que não veio para revogar a Lei Antiga (fundada no carma, por assim dizer), mas sim para completá-la através do espírito do amor e do perdão. E deixava claro que, por mais que se deva perdoar, tudo tem limites. Cada um colhe aquilo que semeia, o perdão é uma oportunidade para a renovação, sempre e quando saibamos aproveitar. Um perdão eterno seria sinônimo de suicídio. A Boa Justiça deve ser como os organismos vivos, moles por fora e duros por dentro.

Então pode surgir uma grande questão atual: num tempo tão perigoso como o nosso, com armamentos tão sofisticados, não será uma temeridade fomentar guerras? Certamente seria, porém se trata antes de promover a libertação, e sociedades realmente oprimidas raramente detém grandes armamentos, antes pelo contrário. A luta dos oprimidos se dá muito mais pela estratégia do que realmente no campo formal de batalha. E é aqui que entra então o espírito vitorioso de Shambhala, como fonte de táticas e estratégias tradicionais de libertação, provendo lutas de livramento e a busca por novos territórios de paz.

Luís A. W. Salvi é filósofo holístico e autor polígrafo com cerca de 140 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da “Sociologia do Novo Mundo” voltada para a construção sócio-cultural das Américas. FONTE

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Trabalha na área de Controle de Qualidade em uma empresa Suíça. A espiritualidade fez com que Marluce despertasse espiritualmente. Sem um certo nível de consciência espiritual é impossível perceber a magia da vida.