Arte da nova versão foi feita pelo brasileiro Henrique Alvim Corrêa.
Leia entrevista histórica com o autor H. G. Wells e o cineasta Orson Welles

O clássico de ficção científica “A guerra dos mundos” acaba de ser relançado no Brasil com uma edição comemorativa que celebra os 150 anos do nascimento do escritor H. G. Wells (1866-1946).

O volume editado pela Suma das Letras, que chegou às livrarias na quinta-feira (2), reproduz as clássicas ilustrações feitas artista brasileiro Henrique Alvim Corrêa (1876-1910) especialmente para uma edição de 1906 do livro.

Além disso, o novo exemplar de “A guerra dos mundos” tem no epílogo uma entrevista de 1940 da qual participaram o próprio H. G. Wells e o ator e cineasta Orson Welles (1915-1985).

Na conversa, transmitida pela rádio americana KTSA, os dois conversam sobre a repercussão da histórica versão radiofônica de “A guerra dos mundos” que Orson Welles tinha feito nos anos 1930.

A adaptação ficou famosa porque o diretor narrou a trama como se, de fato, o planeta estivesse sendo invadido, ou seja, sem avisar que se tratava de ficção. Criou-se então a lenda de que ouvintes, acreditando que marcianos estavam entre nós, tentaram se alistar para combater os inimigos.

Na entrevista, H. G. Wells pergunta a Orson Welles um certo filme que ele estava produzindo – era “Cidadão Kane”. “Se eu não estiver completamente equivocado em minha compreensão, acho que esse filme vai fazer bastante barulho”, antecipou o escritor. De fato: “Cidadão Kane”, àquela altura ainda desconhecido, é considerado uma das maiores obras do cinema em todos os tempos.

Curiosamente, não foi Orson Welles o diretor da primeira versão para o cinema de “A guerra dos mundos”, que ganhou duas versões. A primeira, de 1953, foi assinada por Byron Haskin. A segunda, de 2005, é de Steven Spielberg. Quem estrela é Tom Cruise e Dakota Fanning.

Veja abaixo ilustrações de Henrique Alvim Corrêa para ‘A guerra dos mundos’ e leia a entrevista com H. G. Wells e Orson Welles:

Ilustrações feitas pelo brasileiro Henrique Alvim Corrêa para a edição de 1906 de 'A guerra dos mundos' são reproduzidas na nova versão da obra lançada no Brasil' (Foto: Divulgação)

Ilustrações feitas pelo brasileiro Henrique Alvim Corrêa para a edição de 1906 de ‘A guerra dos mundos’ são reproduzidas na nova versão da obra lançada no Brasil’ (Foto: Divulgação)

H. G. Wells: Pois bem, eu vivi uma série de experiências maravilhosas desde que cheguei aos Estados Unidos, mas o melhor que me aconteceu até o momento foi conhecer meu jovem xará aqui, Orson. Agradabilíssimo, ele porta meu nome e um E extra que espero que ele suprima no futuro, ao constatar que não cumpre nenhum propósito. Conheço seu trabalho desde antes desse acontecimento sensacional de Halloween. Vocês têm certeza de que houve tanto pânico no país, ou será que foi uma brincadeira de Halloween?

Orson Welles: Acho que esta é uma das coisas mais gentis que um homem da Inglaterra poderia dizer sobre os homens de Marte. O sr. Hitler se divertiu bastante com aquilo, sabia? Ele até falou dela no Grande Discurso de Munique. E havia balões e um desfile nazista mostrando…

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Capa da nova edição de ‘A guerra dos mundos’, clássico de ficção científica de H. G. Wells (Foto: Divulgação)

H. G. Wells: Ele não tinha muito o que falar.

Orson Welles: É verdade, [risos]ele não tinha muito o que falar. E é um sinal da condição corrupta e do estado de decadência das democracias o fato de que “A guerra dos mundos” teve a dimensão que teve. Acho que é muito gentil da parte do sr. Wells dizer que não só não era minha intenção, como também que não era intenção do povo americano.

H. G. Wells: Essa foi a nossa impressão na Inglaterra. Houve reportagens, e as pessoas diziam: “Você nunca ouviu falar do Halloween na América, quando todo mundo finge que está vendo fantasmas?”.

[Risos]

Charles C. Shaw (entrevistador): Houve um pouco de agitação, não posso minimizar a dimensão da agitação, mas acho que as pessoas superaram muito rápido, não?

Orson Welles: Que tipo de agitação? O sr. H. G. Wells quer saber se a agitação não foi do mesmo tipo de agitação que temos quando fazemos brincadeiras, quando alguém pendura um lençol na cabeça e fala “bu”. Acho que ninguém acredita que essa pessoa seja um fantasma, mas a gente grita e sai correndo pela casa. E foi mais ou menos isso o que aconteceu.

Charles C. Shaw (entrevistador): Essa é uma descrição muito boa de tudo.

H. G. Wells: Vocês não são ainda muito sérios na América, a guerra e suas consequências ainda não estão debaixo de seus narizes, e vocês ainda podem brincar com ideias de terror e conflito.

Orson Welles: O senhor acha que isso é bom ou ruim?

H. G. Wells: É uma postura natural até o momento em que vocês se virem diante de tudo.

Orson Welles: E aí tudo deixa de ser brincadeira?

H. G. Wells: E aí tudo deixa de ser brincadeira.

(…)

H. G. Wells: Antes de sairmos de perto deste microfone, fale desse filme seu, o que você vem produzindo. Você é um produtor, certo? É um diretor de arte, é tudo. Como é o nome do fime?

Orson Welles: É “Cidadão Kane”.

H. G. Wells: “Cidadão Kane”, não C-A-I-N?

Orson Welles: Não, K-A-N-E. Esse é um gesto muito gentil, muito gracioso. O sr. Wells está permitindo que eu faça o que nós aqui chamamos de “propaganda”.

H. G. Wells: Não entendo nada disso.

Orson Welles: O senhor entende o valor. O sr. Wells quer que eu lhes diga que fiz um filme, e ele teve a gentileza de me perguntar diretamente sobre o assunto.

H. G. Wells: Mal posso esperar.

Orson Welles: O senhor é muito gentil. É um tipo novo de filme, com um método de apresentação original e algumas experiências técnicas e métodos novos de se contar um filme, não só pelo aspecto do texto, mas das imagens.

H. G. Wells: Se eu não estiver completamente equivocado em minha compreensão, acho que esse filme vai fazer bastante barulho.

[Risos]

Orson Welles: Espero que sim. O cinema hoje em dia se beneficiaria de bastante barulho.  Espero que o senhor tenha razão. Espero que ele faça bastante barulho; não me ocorre nada mais desejável para um filme. Eu adoro fazer bastante barulho.

G1

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