P: Já foram explicados os sete princípios: à luz deles, como se explica a completa falta de memória com relação às nossas vidas passadas?

T: Muito facilmente. Os “princípios” que chamamos físicos[1] desintegram-se depois da morte, ao mesmo tempo que seus elementos constitutivos, e a memória junto com o cérebro. Essa memória desvanecida de um corpo que desapareceu não pode recordar nem registrar coisa alguma na posterior encarnação do Ego. Reencarnação significa que esse Ego deve ser dotado de um novo corpo, novo cérebro e nova memória. Seria tão absurdo esperar que essa memória se lembrasse daquilo que nunca pôde registrar, como resultaria inútil examinar no microscópio uma camisa de um assassino, em busca de manchas de sangue, se não era essa a roupa que ele vestia na ocasião do crime. Não é a camisa limpa a que deve ser interrogada; mas, se a outra foi queimada e destruída, como encontrar a resposta?

P: Como pode ter segurança de que se cometeu um crime, ou de que o “homem da camisa limpa” existiu anteriormente?

T: Seguramente não por meios físicos, nem baseando-se no testemunho de quem já não existe. Mas há a evidência circunstancial, que nossas sábias leis admitem. Para se convencer do fato da reencarnação e das vidas passadas, é necessário colocar-se em relação com o próprio Ego real e permanente, e não com a memória que é passageira.

P: Mas como pode uma pessoa acreditar naquilo que não sabe, nunca viu, e, menos ainda, pôr-se cm relação com isto?

T: Se as pessoas mais cultas crêem na “gravidade“, no “éter”, na “força” e tantas outras conclusões da ciência, em abstrações e “hipóteses” que não viram, tocaram, cheiraram, ouviram nem provaram, por que não haveriam de acreditar outras pessoas, partindo do mesmo princípio, no próprio Ego permanente, “hipótese” muitíssimo mais lógica e importante que qualquer outra?

P: O que é, enfim, esse misterioso princípio eterno? Pode explicar sua natureza de um modo compreensível a todos?

T: O Ego que se reencarna é o Eu individual e imortal, não o pessoal; em uma palavra, o veículo da Mônada Atma-Búddhica; aquele que é recompensado no Devakhan e castigado na terra, e aquele, enfim, a que se une somente o reflexo dos skandhas, ou atributos de cada reencarnação[2].

P:  O que são skandhas?

T: Precisamente o que acabo de dizer: os “atributos“, entre os quais está compreendida a memória. Todos morrem como a flor, deixando atrás de si apenas um débil aroma. Aqui está um trecho do Catecismo Buddhista de H. S. Olcott[3], que se refere precisamente a esse assunto: “O ancião recorda os incidentes de sua juventude, apesar de haver mudado física e mentalmente. Então por que não levamos conosco a recordação de nossas vidas passadas de um nascimento a outro? Porque a memória está incluída nos skandhas, e tendo trocado estes com a nova existência, a memória, a recordação da existência anterior particular, se desvanece. Sem dúvida deve sobreviver a recordação ou reflexo de todas as vidas passadas, porque quando o príncipe Siddharta se converteu em Buddha, a série completa de seus nascimentos anteriores lhe foi revelada. . ., e quem quer que chegue a alcançar o estado de Jnana, pode traçar deste modo, retrospectivamente, a linha de suas vidas“. Isto prova que, enquanto as qualidades imperecíveis da personalidade, como o amor, a bondade, a caridade etc., unem-se ao Ego imortal, fotografando nele, se assim se pode dizer, uma imagem permanente do aspecto divino do homem que anteriormente existia, seus skandhas materiais (aqueles que geram os efeitos kármicos mais marcantes), são tão passageiros como a luz dos relâmpagos, e não podem influir no cérebro da nova personalidade, e não alteram, de nenhum modo, a identidade do Ego reencarnado.

P: Isto quer dizer que aquilo que sobrevive é unicamente a memória da alma, sendo essa alma e o Ego um só, e nada sobra da personalidade?

T: Não por completo. Exceto no caso de que esta tenha sido a de um materialista absoluto, cuja natureza não tenha sido penetrada pelo menor raio espiritual, algo pertencente a cada personalidade deve sobreviver, já que deixa sua eterna pegada no eu permanente que se encarna, o Ego Espiritual5[4]. A personalidade com seus skandhas muda constantemente a cada novo nascimento. Como já dissemos antes, é tão somente o papel que representa o ator (o verdadeiro Ego), durante uma noite. Este é o motivo por que não nos lembramos de nossas vidas passadas no plano físico, embora o Ego real que as viveu as conheça todas.

P: Por que, então, o homem real ou espiritual não imprime aquele conhecimento em seu novo “eu” pessoal?

T: Como puderam umas criadas de uma pobre herdade falar o hebraico e tocar violino em estado de êxtase ou de sonambulismo, coisas que desconheciam totalmente no seu estado normal? Porque, como diria todo verdadeiro psicólogo da escola antiga, o Ego Espiritual só pode se manifestar quando o ego pessoal está paralisado. O euEspiritual no homem é onisciente, e toda sabedoria é inata nele; enquanto que o eu pessoal é a organização do que o rodeia, e o escravo da memória física. Se o primeiro pudesse se manifestar sem interrupção nem impedimento algum, já não haveria homens na terra, pois seríamos todos deuses.

P: Sem dúvida deve haver exceções, alguns devem se recordar.

T: Realmente há. Mas quem acredita em seus relatos? Tais pessoas são consideradas, geralmente, pelo materialismo moderno, como alucinados histéricos, maníacos ou farsantes. Leia as obras que tratam deste assunto, especialmenteReencarnação, um Estudo da Verdade Esquecida, por S. D. Walker, M. S. T., e observe a quantidade de provas que o autor apresenta sobre tão debatida questão. Fala-se de alma, e algumas pessoas perguntam: “O que é a alma? Alguma vez provou sua existência?” Portanto, é inútil argumentar aos que são materialistas, mas ainda assim queria lhes dirigir esta pergunta: “Podem recordar do que eram e do que faziam quando crianças pequenas? Conservaram a menor recordação da vida, pensamentos ou atos, ou mesmo de que tenham vivido durante os primeiros dezoito meses ou dois anos de sua existência? Por que, então, partindo do mesmo princípio, nos negam também o ter vivido alguma vez como crianças?” Com relação a tudo isto concluímos que o Ego que se reencarna, ou individualidade, retém durante o período devakhânico unicamente a essência da experiência de sua vida terrestre passada, ou personalidade, sendo absorvidas todas as experiências físicas em um estado in potentia, ou sendo convertidas, por assim dizer, em fórmulas espirituais. Além disso, se levarmos em conta o espaço de tempo que transcorre entre dois renascimentos (diz-se que é de dez a quinze séculos), e que durante esse período a consciência física está total e absolutamente inativa, carecendo de órgãos que trabalhem nela, o que quer dizer: está sem existência a razão da ausência de toda recordação, fica portanto bem clara.

P: Se o Ego Espiritual é onisciente, onde fica então essa decantada onisciência durante sua vida devakhânica?

T: Durante esse tempo está em estado latente e potencial, porque, em primeiro lugar, o Ego Espiritual não é o Eu Supremo, que sendo uno com a Alma Universal ou Inteligência, só ele é onisciente; e segundo, porque o Devakhan é a continuação idealizada da vida terrestre que se acaba de abandonar, período de ajustamento retributivo e recompensa pelos danos e sofrimentos imerecidamente experimentados naquela vida especial. O Ego Espiritual só épotencialmente onisciente, em Devakhan, e de jato, exclusivamente em Nirvana, quando o Ego funde-se na Alma-Mente Universal.

Volta a ser quase onisciente durante aquelas horas na terra em que certas condições anormais e mudanças fisiológicas do corpo, libertam o físico dos entraves e impedimentos da matéria. Exemplos disso são os casos de sonambulismo já citados, de uma pobre criada falando hebraico e outra tocando violino. Isto não quer dizer que as explicações dadas pela medicina a esses dois casos não tenham em si alguma verdade, pois uma das moças ouviu, anos antes, seu professor, um pastor protestante, ler obras hebraicas em voz alta, e a outra ouviu um artista tocar violino na casa de cômodos onde morava. Mas nenhuma das duas poderia fazer nada disso com a perfeição com que o fizeram, se não tivessem sido animadas por Aquele que — em virtude da identidade de sua natureza com a Mente Universal – – é onisciente. No primeiro caso, o princípio superior agiu sobre os skandhas, colocando-os em movimento; e, no último, estando a personalidade paralisada, manifestou-se a própria individualidade. Solicito que não se confundam as duas coisas.



[1] A saber: o corpo, a vida, os instintos passionais e animais, e o fantasma astral — ou eidolon, de cada homem, seja percebido em pensamento, por nosso olho mental, ou objetivamente e separado do corpo físico; cujos princípios chamamos: Sthula sharira, Prana, Kama-rupa e Linga sharira. Nenhum desses princípios é negado pela ciência, embora os chame de modo diferente.

[2] Nas doutrinas buddhistas existem cinco skandhas, ou atributos: Rupa (forma ou corpo), qualidades materiais;Vedana, sensação; Sanna, idéias abstratas; Sankhara, tendências da mente; Vinnana, poderes mentais. Somos formados deles; por eles somos conscientes da existência, e por meio deles nos comunicamos com o mundo que nos rodeia.

[3] Por H. S. Olcott, presidente e fundador da Sociedade Teosófica. A exatidão da doutrina foi sancionada pelo rev. H. Sumangala, Grão Sacerdote de Sripada e Gales, e Principal do Widyodaya Parivena (Colégio), em Colombo, de acordo com o Cânone da Igreja Buddhista do Sul.

[4] Espiritual, em oposição ao eu pessoal. O estudante não deve confundir esse Ego Espiritual com o “Eu Supremo“, que é Atmã, o nosso Deus interno e inseparável do Espírito Universal (Veja no capítulo IX).

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Trabalha na área de Controle de Qualidade em uma empresa Suíça. A espiritualidade fez com que Marluce despertasse espiritualmente. Sem um certo nível de consciência espiritual é impossível perceber a magia da vida.