Sebastião Salgado diz “…não sei se a espécie humana vai sobreviver. É uma crise planetária.”

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Aos 72 anos, um dos melhores fotógrafos dos séculos XX e XXI se sente tão desconectado da tecnologia, dos celulares e aplicativos tipo Instagram quanto as tribos que está imortalizando nos últimos meses. “Eu não sei nem ligar um computador”, confessou com um sorriso.

O homem que imortalizou a pobreza e a natureza selvagem em todo o mundo continua trabalhando como fazia antes: com negativos e impressões, que revê e toca. Mas agora produz suas fotos com uma câmera digital. “Eu me adaptei um pouco, como os dinossauros antes de morrer”, brincou nesta quinta-feira diante de um pequeno grupo de jornalistas na entrega do “Prêmio Personalidade” da Câmara de Comércio França-Brasil, no Rio de Janeiro.

Mas Sebastião Salgado não tem Instagram nem “nada” disso. “Eu não gosto. Sei que os jovens gostam, mas eu não consigo”, afirmou. Às vezes, explicou ele com sua voz arrastada, olha o celular de seus sobrinhos e fica horrorizado ao ver como os aplicativos para compartilhar fotos acabam servindo para “exibir toda a sua vida, para que todos a vejam”. “Olha, às vezes tem fotos interessantes, mas para fotografar você tem que ter uma boa câmera com uma lente adaptada, tem que ter uma série de condições, a luz… não pode ser um processo automatizado”, esclareceu.

“Crise existencial da espécie”

“Eu acho que a nossa espécie está vivendo completamente fora da realidade. A partir de um certo momento, a gente passou a destruir e predar o nosso mundo. Nós estamos consumindo muito mais do que o nosso planeta pode dar. Estamos indo para um buraco sem saída. O planeta não tem condição de arcar com tudo isso.” Segundo ele, a destruição dos ambientes naturais e as dificuldades sociais, com o aumento de guerras entre países e conflitos internos que deixam milhares de mortos, são sintomas de uma crise maior.

“Não é uma crise do capitalismo. É muito mais do que isso. É a crise existencial de uma espécie. Vamos ter que fazer uma autocrítica de toda nossa maneira de viver, de consumir, se comportar e se relacionar. Eu tenho uma grande esperança no planeta, mas não sei se a espécie humana vai sobreviver, estamos indo diretamente contra a parede. É uma crise planetária.”

Salgado disse que a atual geração vai ser cobrada no futuro por tudo o que está fazendo em prejuízo do planeta. “Necessariamente. Para construir esta sociedade moderna, nós deixamos um deserto atrás. Nós temos a obrigação de manter intacto o que possuímos. Não precisamos mais destruir. Temos uma quantidade de terras desbravadas no Brasil que não utilizamos. Nós usamos um terço das terras que foram desmatadas, o resto está abandonado.”

Tragédia em Mariana

Quanto à tragédia de Mariana (MG), provocada pelo rompimento de uma barragem da empresa Samarco há um ano, que varreu o distrito de Bento Ribeiro, arrasando tudo pelo caminho e deixando 21 pessoas mortas, Salgado disse que o importante é garantir que as multas e indenizações sejam aplicadas na região. “O dinheiro das multas não vai para o meio ambiente. Ele vai para o cofre público e vai pagar o déficit do Estado, não voltará jamais para a região. Há um ano nós propusemos a criação de um fundo para recuperar a área. Temos que ressarcir e reconstruir o que for necessário. Refazer todas as fontes de água, recompor as matas ciliares, o sistema de esgoto. É um problema de longo prazo. Para recuperar o Rio Doce, temos que plantar no entorno de 370 mil nascentes. Hoje o fundo só contemplou 500 nascentes”, comentou.

Salgado envolveu-se com a causa ambiental quando assumiu a fazenda de sua família, totalmente degradada, no município mineiro de Aimorés, e replantou a área, de 700 hectares. Com o replantio, fez brotar nascentes que estavam secas e trouxe de volta parte dos animais silvestres da área. A experiência deu origem ao Instituto Terra, voltado à preservação do meio ambiente.

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