Raiva e ódio: doenças e mortes

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Nada mais antigo, comum e animalesco do que sentir raiva. Quem nunca foi invadido pelo primitivo desejo de querer bater, acabar, matar (ainda que no imaginário), querer o pior para alguém que tenha entrado um dia na nossa vida e nos tenha feito mal, prejudicado, traído ou coisa semelhante? No estágio mais agudo, este sentimento ganha uma versão extrema e perigosa: o ódio! Que como dito popular, é capaz de cegar e despertar os mais primitivos instintos, afinal, literalmente, o ódio mata. Mata pessoas, relacionamentos. Destrói nações, fomenta guerras, cria insensatez tal que religiões travam sangrentas disputas por séculos.

Triste constatar que somos muito mais propícios ao ódio do que ao amor, à ofensa do que o perdão, ao egoísmo e ao altruísmo. Ainda estamos mais para seres animais que divinos, é mais reflexivo atacar que pacificar e ser ponderado. Digo tudo isso para convidar meus amigos e leitores para fazer um raio-X daquilo que não vemos, mas sofremos física, psíquica e espiritualmente.

Começo por relembrar que o nosso computador divino, que é o cérebro, é um processador da mente humana e escravo do que nossos pensamentos, sentimentos e desejos projetam. Estranho o que vou dizer, mas reflitam: não existe realidade. Cada um de nós, a cada segundo, ao projetar e perceber os estímulos sensoriais, cria um ” filme ” pessoal e ao mesmo tempo o assiste. Exemplo: uma mãe preocupada com seus filhos adolescentes numa balada, apavorada com o fato de eles não terem chegado, acorda e imagina que eles houve um acidente, que eles morreram, foram assaltados, estão usando drogas, enfim, só tragédia.

Enquanto a mente atormentada dessa mãe sofre por antecipação, o coitado do cérebro responde a isso como se fosse real e assim gera nessa senhora uma preparação trágica, e a sua química cerebral responde ativando um estresse indescritível e uma angustia avassaladora. Aí os filhos chegam sãos e salvos felizes. O que foi real por horas para a mãe? O ” filme de terror”, onde ela teve um velório litro-químico cerebral. E o real para os filhos? Uma belíssima balada. Cada um sempre criará sua realidade e dela resultará uma vida de “suspenses, tragédias, terror, comédia ou romance.”

Por isso, meus caros, é que não há sentimento mais pesado, denso e infernal que o ódio. Se pudéssemos acompanhar os raios e trovoadas que ocorrem no cérebro na sua transmissão eletrônica-química, quando estamos dominados pela raiva e ódio, seria de causar espanto as tormentas e tempestades cerebrais. O coitado do sistema límbico, que administra emoções e estresse, entra em pane. Todos os alarmes tocam e, assim, quem esta ” possuído ” por esse tsunami assassino da raiva e ódio entra em colapso. Insônia, coração disparado, aperto no peito, falta de ar, pressão nas alturas,”soltando fogo pelas narinas “. O corpo fica numa adrenalina negativa, matar ou morrer, não há juízo crítico de realidade. Esse disparo de hormônios, que muda o funcionamento de todo o corpo, gerará sintomas que podem se cronificar. Agora imagine uma raiva, um ressentimento, um ódio constante, de longa data, que a cada dia é ruminado, atualizado, aumentado, presentificado?

Uma briga familiar de décadas, uma separação judicial litigante e venenosa de anos (onde filhos são os que mais sofrem), uma sociedade desfeita, amizades ou traições.Como fica este cérebro submetido a um constante inverno, tempestades e tempo nublado? Adoecido, mortificado. Digo do alto de mais de três décadas de atendimento como médico psiquiatra que atrás de mil sintomas inespecíficos – dor de cabeça, tonteira, dor no peito, dor no corpo, coração disparado, falta de ar e outros tantos -,cheios de exames normais, havia sempre uma mente nublada por mágoas, ressentimentos, raivas e ódios pré-históricos, que nem eram resolvidos, perdoados, compreendidos. E aí vai a moral da história: raivas, mágoas, ressentimentos e ódios só adoecem quem os sente! Pois quem os provocou está feliz da vida, já recusou, mudou, envelheceu, está na praia, aposentou ou não esta nem aí para o seu masoquismo cerebral e mental.

Quem adoece, envelhece e morre de raiva e ódio é você. Quem vive nesta realidade sombria e angustiante é você! Pensar é como agir, e pensamento é a sua realidade! Ninguém tem culpa do seu mau humor, do seu emburramento, de suas doenças psicológicas. Você é autor, personagem e pior espectador da sua realidade.

Fica aqui registrado que no mundo molecular do cérebro os raivosos, magoados e ressentidos são masoquistas. Criam suas doenças e morrem pela pobreza de espírito. Resta o remédio secular: a prática diária do perdão! Para ser feliz é preciso serenar e ter paz de espírito, que por sinal é a maior definição de saúde que conheço. Quem tem paz de espírito não padece no corpo, na mente, na alma.

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About Author

Trabalha na área de Controle de Qualidade em uma empresa Suíça. A espiritualidade fez com que Marluce despertasse espiritualmente. Sem um certo nível de consciência espiritual é impossível perceber a magia da vida.