Na prática clínica, se observa com frequência, a crescente dificuldade das pessoas lidarem com o adiamento do seu prazer, ou, em terem que abdicar deles em situações específicas.

Esse fato é constatado a partir de falas que revelam a crença individual de que “se não é como eu quero então não me serve”, e que geralmente são acompanhadas de sentimentos de raiva e tristeza, e de comportamentos ora de indignação, ora de desprezo com aquilo que não corresponde ao que se queria.

Estes comportamentos podem ocorrer de forma velada, onde o indivíduo acaba não percebendo que está escolhendo a sua vida a partir de um critério rígido de prazer devido o desejo de vivenciar uma euforia constante. Ás vezes se revela através de um conflito sutil na relação, onde um dos parceiros não aceita a possibilidade de abdicar de algo que quer em prol de um desejo do outro, pode se revelar também na tendência em delegar funções para alguém para evitar resolver o conflito, no consumo exagerado, no comodismo em não acordar alguns minutos mais cedo para fazer um exercício físico, em não aceitar regras, em brigar para obter o tão almejado “sim”.

Todas estas atitudes expressam a dificuldade de se lidar com limites, demarca os prejuízos trazidos pelo imediatismo, a confusão dos conceitos de amor próprio e egoísmo/individualidade e individualismo, e a dificuldade de se compreender as distinções de felicidade e euforia.

Mas por que agimos assim?

Segundo Freud, as neuroses surgem quando o indivíduo se afasta da realidade. “Os neuróticos afastam-se da realidade por achá-la insuportável – seja no todo ou em parte”. E assim vivenciam o Princípio do prazer-desprazer, onde o propósito é obter prazer constante e se afastar de tudo aquilo que cause desprazer. Quando a vida é regida pelo Princípio do prazer-desprazer, ocorre um distanciamento da realidade e por isso surge a dificuldade de lidar com o que “eu quero” e com o que “eu posso”, pois, o desejo é incompatível com o que a realidade oferece, deste modo surgem as frustrações, a irritabilidade, o descaso, a agressividade.

Então como podemos lidar com isso?

É necessário identificar o porque de se querer constantemente obter prazer, qual a origem deste desejo e quais sentimentos o amparam. A avaliação das prioridades e das consequências das escolhas também funcionam como métodos para identificar o que estamos escolhendo: obter prazer momentâneo ou conquistar uma satisfação duradoura. Para sabermos as nossas prioridades e se estamos conscientes sobre as consequências das nossas escolhas é válido questionarmos: “O que é mais importante para mim?” Por exemplo: “acordar tarde ao invés de ir para a academia, e como consequência ter mais horas de sono e sentir o meu corpo mais cansado, ou, acordar cedo e ir para a academia e como consequência ter menos horas de sono e sentir o meu corpo mais ativo?”. Através deste questionamento conseguimos perceber que não existem somente prazeres, e que estar em contato com a realidade implica em abdicar de alguns prazeres em prol de outros.

É fundamental também desconstruir crenças negativas que fortalecem a fuga da realidade para então elaborar os sentimentos disfuncionais. A partir destas atitudes, é possível encontrar formas de alterar a realidade (dentro do que é possível) para então se obter satisfação.

Caso você perceba que não está conseguindo tolerar as frustrações, procure auxílio psicológico. Saiba que somente um ego bem estruturado é capaz de lidar com as frustrações, e que uma vida saudável consiste em encontrar o equilíbrio entre a dor e o prazer.

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Psicóloga e psicoterapeuta corporal, Jéssica Horácio atua na psicologia nas áreas clínica e social. É problematizadora de questões sociais, e estudiosa de conteúdos referentes a feminismo, gênero e relacionamentos. Entende que todo indivíduo possui a liberdade de se escolher no mundo, a psicologia é a sua aliada na tarefa de mostrar a estes indivíduos esta possibilidade de liberdade.