Muitos se preocupam com o perigo de uma terceira guerra mundial. A verdade é que a guerra já começou há algum tempo, e ocorre como uma batalha no plano da mente.
A guerra mundial que vivemos agora é um conflito de longo prazo, não declarado, e bastante diferente dos anteriores. É a mais inteligente das guerras, sendo em grande parte sutil; é a mais tola delas, porque é desnecessária. Ela não ocorre no mundo físico: seu principal campo de batalha está localizado na alma.
Não haverá necessidade, portanto, de provocar a ruína completa da nossa civilização, se o respeito pela vida vencer na consciência humana.
Em qualquer espécie de conflito, a vitória e a derrota começam no pensamento. Para Sun Tzu, a “Lei Moral” ou vontade de vencer é fator decisivo. Ele afirma que o líder “representa as virtudes da sabedoria, sinceridade, benevolência, coragem e retidão”. [1]
O melhor tipo de guerra é aquele em que não é necessário combater fisicamente, e Sun Tzu explica:
“Lutar e vencer em todas as batalhas não é a glória suprema; a glória suprema consiste em quebrar a resistência do inimigo sem lutar. Na arte da guerra, a melhor coisa é tomar o país inimigo totalmente e intato; danificar e destruir não é tão bom.” [2]
As boas artes marciais do Oriente têm  como base o mesmo princípio: “em primeiro lugar está a força da mente e do espírito”.
É verdade que o conflito mundial do século 21 inclui planejamento e ocupação de posições militares físicas ao redor do mundo. Ações e intenções genocidas são visíveis no plano material. No entanto, no jogo de xadrez, como na estratégia, a ameaça é frequentemente mais eficaz que a sua realização.
O mapa mundial de armas nucleares revela a existência de uma rede absurda de ameaças e contra-ameaças. A proliferação nuclear, o maior perigo para a humanidade, começa nas mentes dos estadistas e se alimenta da ingenuidade humana. A guerra se desenvolve fundamentalmente como uma batalha da imaginação.
As ideias precedem os fatos externos: a terceira guerra é uma luta pela definição das ideias dominantesque determinam o rumo da humanidade no século atual. Trata-se de uma versão atualizada, planetária e multidimensional da segunda guerra, ocorrida entre 1939 e 1945.
De um lado, temos o campo magnético dos que preservam a ética, amam a Vida e observam o princípio moral da ação moderada.
Do outro lado vemos aqueles que veneram os sentimentos destrutivos. Incapazes de amar a si mesmos, ignoram o valor do autocontrole e do respeito profundo por todos os seres.
Há modos sutis de boicote contra a vida: sabe-se que a adoração do dinheiro e das máquinas constitui uma forma indireta de combater a energia da alma e abrir caminho para vários tipos de calamidade. A luta entre as forças da alma e as forças da não-alma desencadeia-se ao mesmo tempo na mente do indivíduo e no ethos de cada comunidade local. No Oriente Médio e em todo o mundo, nenhuma província ou país fica livre dela. Ninguém está afastado desta guerra abrangente. Na mente de todos, há um amor pela vida e outro sentimento que boicota esse amor.
A falsa religiosidade que glorifica o ódio também alimenta o antissemitismo e o amor pelo poder material. A ilusão de que dinheiro e posição social produzem felicidade estimula as causas da violência física e psicológica. As várias formas de falsidade socialmente estabelecidas possuem o mesmo efeito oculto destrutivo.
Cada cidadão precisa vencer sua própria batalha microcósmica enquanto ajuda outros a vencerem as suas.
Aquele que é suficientemente rigoroso consigo mesmo evita a autoilusão e desmascara a adoração coletiva do mundo da aparência. A vida tem seus próprios modos de derrotar a filosofia da mentira segundo a qual “a sinceridade é impossível” e “a hipocrisia constitui a lei”.
Os amigos da verdade não precisam ser muitos, e o sábio judaico Maimônides escreveu sobre a importância do pensamento independente.
“Quando tenho um tema difícil diante de mim”, disse ele, “quando o caminho é estreito e a única maneira de afirmar uma verdade confirmada é dizendo algo que agradará um só homem inteligente e desagradará dez mil tolos, prefiro dirigir-me a aquele homem, e ignorar a condenação da maioria.” [3]
A filosofia esotérica concorda com Maimônides neste ponto.
A Arte de Observar os Fatos
É errado olhar para o Carma – as situações da vida –  como se ele fosse imutável. O Carma é plástico na sua interação conosco. Seu significado prático e seus resultados dependem do ponto de vista desde o qual ele é vivido e observado.
A terceira guerra mundial é uma guerra pelos pontos de vista dominantes em nossa cultura. A derrota é inevitável para aqueles que olham para a vida pela lente do egoísmo, e acreditam que é ingênuo ser sincero.
Os indivíduos sem contato com suas almas são tristemente destituídos de inteligência: não podem guiar a humanidade. Os cidadãos honestos devem lutar pelo seu direito de ser sinceros, que a média dos mentirosos inveja e ataca. O peregrino consciente promove no seu próprio mundo psicológico aquilo que é correto. Ele rejeita os pensamentos e sentimentos hostis à sabedoria.
Este conflito mundial é uma luta pela compreensão, uma guerra de princípios. A vitória da alma começa em qualquer lugar e se desdobra por toda parte um milhão de vezes. Ela ocorre cada vez que um cidadão se livra de “crenças automáticas”, abandona pontos de vista não examinados e rejeita a rotina do ódio e o hábito do desânimo. Ela emerge sempre que alguém faz um exame severo de suas próprias opiniões e escolhe o pensamento autorresponsável, colocando de lado ideias transmitidas de forma subconsciente.
É dever espiritual do cidadão ouvir a paz sagrada de sua própria alma: a suave voz do silêncio cura a dor humana. Os níveis superiores do silêncio falam do equilíbrio eterno que une todas as coisas.
Nada pode ser mais elevado que a verdade e a sinceridade.
Nenhuma arma feita por seres humanos poderia desafiar a Lei das Leis. Tudo está em unidade no nosso planeta, e nos reinos decisivos da vida flui livremente a força do altruísmo.
O grau de honestidade nos corações dos seres é o fator central em relação ao futuro. No capítulo 18 de Gênesis, vemos que um pequeno número de indivíduos justos teria sido suficiente para evitar uma catástrofe geológica. A mesma ideia fundamental é ensinada nos clássicos taoistas. [4] O princípio é fácil de encontrar nos ensinamentos do cristianismo, do hinduísmo, e na teosofia clássica de Helena Blavatsky.
Será que temos agora esse pequeno número necessário de indivíduos Justos? É uma questão a enfrentar. É um tema a ser trabalhado.
Ao longo da vida do planeta, há três fatores silenciosamente interconectados, e a interação entre eles é ensinada por diferentes tradições culturais, e demonstrada pela ciência e pela sociologia:
1) A quantidade de ética e sabedoria na alma das pessoas;
2) Os ciclos de vida geológicos e ecológicos do planeta; e
3) O grau de bem-estar da humanidade; a legitimidade e o destino de suas civilizações.
A Raja Ioga e a teosofia moderna não estão sozinhas ao dizer que a situação do planeta resulta do estado da alma. O Pirkê Avot, um clássico do judaísmo, afirma:
“O mundo existe graças a três coisas: a verdade, a justiça e a paz (…).” [5]
A presença silenciosa de almas de boa vontade entre nós tem reduzido invisivelmente o tamanho da terceira guerra mundial, evitando que assuma proporções físicas indevidas.
Essa influência ajudará a fechar a porta da destruição desnecessária, se a loucura da proliferação de armas nucleares for interrompida a tempo.
Proteger a humanidade não é uma tarefa de curto prazo. O esforço desdobra-se era após era e deve ser intensificado em algumas ocasiões.
Cada vez que o êxito tem lugar, ele ocorre primeiro no mundo interno, e só depois no mundo exterior. Emerge nos cenários visíveis da vida através do restabelecimento da Ética e da Justiça. Firmeza e moderação são sempre oportunas no processo.
NOTAS:
[1] “A Arte da Guerra”, Sun Tzu, adaptação e prefácio de James Clavell, Editora Record,  1995, 111 pp., p. 18.
[2] “A Arte da Guerra”, adaptação de James Clavell, Editora Record, p. 25.
[3] “The Guide for the Perplexed”, Moses Maimonides, Dover Publications, Inc., New York, 414 pp., ver p. 09.
[4] Veja por exemplo os capítulos 15, 19, 136 e 178, entre outros, em “Wen-tzu, a Compreensão dos Mistérios”, Ensinamentos de Lao-tzu. Tradução do chinês, Thomas Cleary. Tradução do inglês, Carlos Cardoso Aveline. Brasília, Editora Teosófica, 2002, 198 páginas.
[5] “A Ética do Sinai”, Ensinamentos dos Sábios do Talmud, Editora e Livraria Sêfer, São Paulo, 1998, ver Capítulo 1, Mishná 18, p. 64.
O texto acima foi publicado pela primeira vez em inglês sob o título de “The World War in Our Minds” e está disponível em nossos websites associados. Pode ser visto também em  nosso blogue  no jornal israelense “The Times of Israel”.

About Author

Trabalha na área de Controle de Qualidade em uma empresa Suíça. A espiritualidade fez com que Marluce despertasse espiritualmente. Sem um certo nível de consciência espiritual é impossível perceber a magia da vida.