A vida nos “cubículos-caixões” de Hong Kong

“Aquele dia, fui para casa e chorei”, disse Benny Lam ao descrever as cruéis condições de vida em Hong Kong.

Há quatro anos, o talentoso fotógrafo chinês Benny Lam vem documentando as duras condições de vida nos micro-apartamentos de Hong Kong, uma das cidades mais caras do mundo. As fotos impressionantes revelam a vida cotidiana de pessoas que são forçadas a viver em cubículos com poucos metros quadrados por causa do preço exorbitante do setor imobiliário.

Intitulada Trapped”, a série é um desdobramento do projeto “Subdivided Flats, lançado no ano de 2013 e produzido em colaboração com a Society for Community Organization (SoCO). As imagens foram usadas para uma campanha de conscientização, alertando o governo sobre as dramáticas condições de vida de muitas pessoas em Hong Kong.

“Elas são exatamente as pessoas que entram na sua vida todos os dias: elas estão servindo você como garçons nos restaurantes onde você come, elas são os guardas de segurança nos shopping centers que você anda por aí, ou os faxineiros e os entregadores pelos quais você passa na rua. A única diferença entre nós e elas [são suas casas]. Esta é uma questão de dignidade humana.”

As imagens foram reunidas em um fotolivro de mesmo nome, publicado pela SoCo no ano passado. Além das fotografias de Lam, o livro bilíngue (chinês e inglês) apresenta textos de Angela Lui, Gordon Chick e Sze Lai-shan.

Após quatro anos visitando mais de 100 apartamentos subdivididos no distrito mais antigo da cidade, Benny já se acostumara com casas de 4,5 metros quadrados feitas de tábuas de madeira e conhecidas como casas-caixões. Enquanto fotografava um cubículo ligeiramente maior que o normal, Benny deixou escapar: “você tem uma casa-caixão grande!”

Um apartamento de 37 metros quadrados pode ser subdividido em 20 espaços como este. Foto: NatGeo / Benny Lam

“Eu me senti tão mal”, lembra Lam. “Viver assim nunca deveria ser normal. Eu estava entorpecido”.

Hong Kong está repleta de lojas com luzes de neon vendendo marcas de luxo, joias e tecnologia para consumidores ansiosos; o horizonte preenchido de arranha-céus promove negócios que fazem da cidade um dos maiores centros financeiros do mundo. Porém, por trás da fachada glamorosa, aproximadamente 200 mil pessoas, incluindo 40 mil crianças, vivem em espaços que variam entre 4,5 e 30 metros quadrados.

Com uma população de quase 7,5 milhões e pouco terreno disponível para desenvolvimento, o mercado imobiliário de Hong Kong se tornou o mais caro do mundo. Pressionadas por alugueis altíssimos, dezenas de milhares de pessoas não têm outra opção a não ser habitar centros ilegais, unidades subdivididas onde a cozinha e o banheiro se fundem, cubículos-caixão e casas-jaula – cômodos medindo tão pouco quanto 1,80 x 0,76 metros e feitos tradicionalmente de tela de arame. “De cozinhar a dormir, todas as atividades são feitas nesses lugares minúsculos”, diz Benny. Para criar as casas-caixão, um apartamento de 120 metros quadrados é dividido ilegalmente por seu proprietário para acomodar 20 beliches, cada um custando cerca de HK$2000 (mais de R$800,00) por mês de aluguel. O espaço é tão pequeno que nem dá para ficar de pé.

Foto: Nat Geo / Benny Lam

Com sua série Encurralado, Benny Lam quer iluminar as moradias sufocantes que abundam onde as luzes da prosperidade de Hong Kong não chegam. Ele espera que, ao dar visibilidade aos inquilinos e suas moradias, mais pessoas passarão a prestar atenção nas injustiças sociais das quais são vítimas.

Os residentes são obrigados a usar a criatividade para guardar os pertences. Foto: NatGeo / Benny Lam

“Vocês podem se perguntar por que deveríamos nos importar, já que essas pessoas não são parte de nossas vidas”, escreveu Benny em sua página do Facebook. “Elas são exatamente as pessoas que entram em nossas vidas todos os dias: estão os servindo como garçons nos restaurantes onde vocês comem, são os seguranças nos shoppings onde vocês perambulam, ou faxineiros e entregadores nas ruas onde vocês trafegam. A única diferença entre nós e eles é a moradia. Isso é uma questão de dignidade humana.”

Foto: NatGeo / Benny Lam

Tem uma foto que deixa Benny particularmente comovido. Nela, um homem descansa em sua cama, mas não tem espaço suficiente para esticar as pernas e os joelhos separados quase tocam as paredes sem janelas da casa-caixão.  Ele come feijões enlatados, provavelmente seu jantar, e assiste a uma pequena televisão que mostra um arco-íris. Roupas lavadas estão penduradas no teto baixo. Para Benny, é um ótimo exemplo para mostrar aos cidadãos mais privilegiados e ao governo por que devem agir para combater a crise imobiliária e a desigualdade de renda em Hong Kong.

Os membros da família Li Chong – pai e filho – são japoneses. Ambos são muito altos e sofrem para se mover no cubículo. Foto: NatGeo / Benny Lam

A coragem dos homens, mulheres e famílias que abriram suas portas e compartilharam suas histórias com um estranho foi outra coisa que que impactou Benny Lam. Muitos deles sentem vergonha de viver em lugares tão apertados, diz ele, mas têm a esperança de que, uma vez que as fotos forem vistas, receberão algum apoio.

FOTOS DE BENNY LAM 
Agradecimentos: NatGeo e
iPhotoChannel

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Criador do Site Verdade Mundial, fotógrafo por amor e profissão. Um inquieto da sociedade! Acredito que podemos mudar o pensamento das massas com a informação. Temos as ferramentas e a vontade de ver um Mundo melhor e livre. Estamos nessa luta há dez anos e em frente!