Naquele dia, num canto do céu, o Profeta do Islã olhava entristecido para o nosso mundo, vendo as nossas loucuras. Ele sofria ao ver suas palavras perdidas nos ventos quentes dos desertos de sua terra. Por que não ouviram seus ensinamentos? Eles eram simples, fáceis de seguir, e os homens poderiam viver em paz.  Repentinamente, percebeu alguém ao seu lado; virou-se e viu seu irmão de fé, usando um manto branco manchado de sangue.

­─ Assalamu Aleikum!(¹) – Eles não entenderam a minha mensagem, diz o Profeta.

─ Shalom Aleichém!(²) – Também a mim não entenderam, respondeu o Nazareno!

Veja todo o mal que já causaram em meu nome! Desde as cruzadas até os dias de hoje, quantos já morreram pelo uso errado das minhas palavras. Os homens perderam a capacidade de ouvir e de entender. Nós fomos claros, demos exemplos, e eles não nos ouviram. Eles se perderam ao longo do caminho, Profeta.

Naquele instante olharam para baixo e viram a Síria em chamas, repleta de mortos e mutilados. De um lado, o governo de Bashar al-Assad sustentado pela Rússia, Turquia, Irã. Do outro, os rebeldes financiados pelos Estados Unidos, Inglaterra e França. No meio deles, os exércitos do Estado Islâmico, lutando sua “jihad” e por seu califado. Lá embaixo, a confusão é tamanha que fica difícil saber ao certo quem é amigo ou inimigo. Só sabemos que o povo, este sim, sofre de todos os lados e tenta fugir deste inferno. Essa guerra, desde 2.011, já matou mais de 500 mil pessoas e fez mais de 10 milhões de refugiados.

Lá embaixo, as luzes assassinas dos mísseis mostram toda loucura humana e são embaladas pelo som de todos os tipos de armas criadas por mentes doentias, como uma sinfonia triunfal da morte contra a espécie humana. Um rápido balanço mostra que, a cada dia que passa, mais vem a certeza de que o mundo inteiro está perdido e não há saída. O som macabro das guerras chega aos céus, misturado aos apelos dos que pedem a interferência divina ou extraterrestre na Terra, para que ela não deixe de existir.

─ O que sugere Nazareno? Os anjos irão interferir nesse mundo mais uma vez?

─ Você sabe a resposta, Profeta. Você sabe que existem muitos que ainda têm esperança, que acreditam em nós e num mundo melhor. Não podemos decepcioná-los. Lembra-se das cidades de Sodoma e Gomorra, de suas maldades e o que foi feito?

─ Eu me lembro bem, Nazareno! Eu sei que por alguns poucos, tudo será feito de novo.

─ Assim seja, Profeta! Chegará um dia que o Homem entenderá e saberá viver em paz!

─ Allah, o Misericordioso! Bendito seja! O Nascente e o Poente Te pertencem e notamos a Tua presença! ─ Falaram alguns fiéis que olhavam para o céu cheio de luzes estranhas.

─ O Messias está chegando, profetizaram outros! O tempo das mudanças está próximo!

(1) – Assalamu Aleikum! Que a paz esteja contigo! (saudação árabe)

(2) – Shalom Aleichém! A paz esteja convosco! (saudação hebraica)

(3) – Jihad – conceito islâmico que pode ser entendido como uma luta interna para se buscar e conquistar a paz em Deus. Ao contrário do que muitos pensam, não significa “guerra santa”, nome dado pelos europeus às lutas religiosas na Idade Média.

Célio Pezza é escritor e colunista de diversos jornais e revistas no Brasil. Seus romances misturam ficção com realidade e trazem fortes mensagens por trás de cada história. Seu livro As Sete Portas foi traduzido para o inglês e editado no Canadá, EUA e Inglaterra. Sua mais recente obra, A Tumba do Apóstolo, foi lançada em 2014.