Já quase todas as praias da Costa Verde do Estado do Rio de Janeiro estão esgotadas por condomínios fechados e turist resorts. Mas já alguns anos conhecemos uma pequena praia no Saco de Piraquara de Fora entre Angra e as usinas nucleares, que ainda está linda e pouco conhecida. Nesta praia com pedras maravilhosas e águas cristalinas, ainda vive uma família quilombola. Nós já comemos várias vezes um peixe pescado fresquinho da pequena baía em frente à praia.

O que nós só fomos conhecer recentemente é que esta baía, ou melhor, o Saco de Piraquara de Fora, está “esgotada” com substâncias radioativas pelas usinas nucleares Angra 1 e 2, localizada no outro lado do morro, na vizinha baía de Itaorna. Um túnel foi construído exclusivamente para jogar no Saco de Piraquara de Fora estas substâncias radioativas com a água da baia Itaorna, utilizada na refrigeração dos reatores nucleares.

Desde a construção da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (CNAAA), os responsáveis da Eletronuclear e o lobby da energia nuclear criaram o mito que as usinas são sistemas fechados, que não produzem emissões ou resíduos. Foi criado o mito da energia limpa, que o governo Lula não pára de repetir. Mas a realidade é que estas usinas estão produzindo todo dia nem só emissões gasosas radioativas, mas também um “esgoto” líquido radioativo. Por isso, as usinas nucleares tem uma chaminé alta e um sistema de descarga.

O que são estes rejeitos gasosos radioativos e o rejeitos líquidos ou “esgotos” radioativos concretamente? Pelas suas chaminés os reatores liberam no ar os gases nobres e radioativos Criptônio 85, Argônio 41, Xenônio 133 e também Iodo 131 e Tritio (H3). Tritio também está dentro do coquetel dos resíduos líquidos radioativos que são jogados no mar, além de Carbono 14, Estrôncio 90, Césio 137, Chumbo 210 e Bismuto 207 entre vários outros.

No ambiente, o Tritio se conecta com oxigênio e vira água radiotiva, que todos os seres vivos podem incorporar com facilidade no corpo e nas células.

“Como todas as substâncias radioativas, o trítio é um agente cancerígeno, mutagênico e teratogênico”, explica o Matemático e Físico Gordon Edwards, Presidente da Coalizão Canadense de Responsabilidade Nuclear (www.ccnr.org). “No caso do câncer, leucemia e danos genéticos, o consenso científico é que toda a exposição à radiação aumenta o risco total e, portanto, a incidência dessas doenças em populações expostas.” O risco de Tritio é especialmente alto para os fetos expostos no útero, porque os fetos precisam de muita água. Além de H3, as outras substâncias radioativas podem se concentrar em uma parte do corpo (iodo-131 na tireóide, o estrôncio-90 nos ossos e dentes, o césio-137 em tecido muscular) onde eles criam riscos especiais. O estrôncio-90 especialmente é perigoso para crianças porque pode causar leucemia.

Educado em Química Técnica na Alemanha, visitas às usinas nucleares fizeram parte de meus estudos, por isso eu sempre soube sobre estas emissões gasosas e líquidas das usinas nucleares. Mas eu pensei que as usinas Angra 1 e Angra 3, que usam água do mar para resfriar os reatores, jogassem este “esgoto” radioativo no mar diretamente em frente das usinas – onde ninguém toma banho – ou, um pouco melhor, utilizassem um emissário submarino longe da Baía da Ilha Grande, no alto mar, para ter uma diluição maior. Graças ao “Estudo da Dispersão de Radionuclídeos na Baia da Ilha Grande, Rio de Janeiro”, da pesquisadora Franciane Martins de Carvalho Gomes, da UFRJ, publicado este ano, eu sei agora que estas substâncias radioativas são jogadas com a água de refrigeração aquecida no Saco de Piraquara de Fora, em frente de uma das últimas praias lindas de acesso público e em frente também de uma resistência quilombola. Neste local, são despejadas todos os dias do ano, a cada segundo, 30 metros cúbicos de água usadas e poluídas pelas usinas nucleares. Podemos chamar esta contaminação radioativa de “Racismo Ambiental”?

Para os responsáveis das usinas nucleares claramente não existe nenhum risco, porque a descarga e liberação dos radionuclídeos é controlada por eles mesmos. A argumentação oficial é: “Os efluentes resultantes do tratamento dos rejeitos líquidos radioativos são liberados controladamente para a água do mar proveniente dos condensadores principais, somente se a sua concentração de atividade estiver abaixo dos limites legais.” No momento o saco recebe só o “esgoto” das usinas Angra 1 e 2. Mas daqui há pouco também os rejeitos líquidos radioativos de Angra 3 vão ser liberados com a água de refrigeração no mesmo lugar. O Relatório de Impacto Ambiental – RIMA da Unidade 3 da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto fala pouco sobre os rejeitos líquidos radioativos como tritio e Césio que podem aumentar com a operação de Angra 3. O relatório só fala concretamente sobre o problema de aquecimento da água no Saco Piraquara de Fora: “Com o início da operação de Angra 3, espera-se um acréscimo de vazão e temperatura no saco Piraquara de Fora, considerando os efeitos combinados de Angra 1 e 2. Os estudos indicam que o ecossistema marinho poderá ser afetado nas proximidades do lançamento de água, visto que a temperatura da água do mar mais elevada ocasionaria um estresse térmico, e o fluxo elevado, impediria a fixação dos organismos sésseis (por exemplo, cracas, corais, crinóides, ostras e algas).”

É uma ironia que esta pequena baia ou saco, onde as usinas nucleares jogam o seu “esgoto” líquido, sempre foi um lugar de alta biodiversidade. Os arqueólogos – com financiamento da Eletronuclear – descobriram que as populações antigas do saco Piraquara de Fora realizaram uma prática intensa da pesca e caça de mamíferos marinhos, fundamentada em uma grande diversidade de recursos alimentares, incluindo significativa presença de pinças de caranguejos e ossos de mamíferos terrestres. “Tais características indicam Piraquara de Fora, uma pequena enseada abrigada dos ventos que, pela diversidade de espécies de peixes e moluscos, constituiu um local preferencial para populações humanas pré-coloniais que ocupavam e exploravam os recursos na baía da Ribeira”, escreve Nanci Vieira de Oliveira, Professora do Centro de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro– UERJ.

Energia nuclear não é uma energia limpa!

Norbert Suchanek, Correspondente e Jornalista de Ciência e Ecologia, é colaborador do EcoDebate

[EcoDebate]

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