Um estudo publicado na revista Royal Society, no final de fevereiro, revela que criaturas que vivem nos lugares mais profundos do oceano consomem plástico em quantidades surpreendentes.

Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, recolheu um total de 90 anfípodes (pequenos crustáceos) seis das fendas mais profundas do oceano e descobriu que 72% tinham fibras e partículas de plástico em seus sistemas digestivos.

Mas o mais chocante da pesquisa é que 100% dos animais do Challenger (o mais profundo ponto conhecido do oceano, 10.898 metros), tem plástico em suas entranhas.

“Estas observações são possíveis pela profundidade de ocorrência e ingestão de registro microplásticos, indicando que é provável que não existem ecossistemas marinhos que não são afetados por resíduos antropogênicos”, disse o biólogo Alan Jamieson, que liderou a pesquisa, em um comunicado de imprensa da instituição.Os cientistas apontam que as profundezas do mar estão se tornando o despejo final de detritos plásticos. “Uma vez que estes plásticos chegam ao fundo do mar, eles devem acumular simplesmente em quantidades maiores”, diz Jamieson.

“Se contamina um rio, pode ser limpo com um jato de água. Se contamina o litoral, pode ser diluído pelas marés. Mas, no ponto mais profundo dos oceanos, apenas fica lá “, explica ele. Este documento revela a ameaça a pequenas espécies de águas profundas que poderiam ter um efeito dominó devastador na cadeia alimentar.

Por que animais marinhos confundem plástico com comida?

Do plâncton minúsculo a baleias enormes, tem crescido o registro da ingestão de plástico por animais marinhos de várias espécies. Com esse tipo de resíduo despejado na água em uma escala que chega a milhões de toneladas por ano, esse consumo ocorre quando o animal, ao se alimentar, engole acidentalmente fragmentos de plástico que estão na área – ou quando esses fragmentos são, literalmente, confundidos com o alimento.

E por que isso ocorre?

A explicação de pesquisadores é que o plástico não só parece com comida. Ele também tem cheiro de comida.

“Tente cheirar um pedaço de plástico que você encontrar na água da próxima vez que estiver na praia”, sugere Erik Zettler, ecologista microbiano do Instituto Real Holandês de Pesquisas Marítimas. “Ele cheira a peixe.”

Zettler observa que isso acontece porque todo plástico no oceano é rapidamente colonizado por uma fina camada de micróbios, normalmente chamada de “plastisfério”.

Essa viscosa camada de vida libera substâncias químicas que fazem o plástico ter cheiro e gosto de alimento para os animais marinhos.

Um composto específico, o metiltiometano ou sulfeto de dimetila (DMS, na sigla em inglês), atua como o estímulo químico que o plástico emite e é conhecido por atrair alguns animais, incluindo peixes.

A teoria, ao que tudo indica, também é válida para as aves marinhas quando caçam, já que encontram a comida pelo cheiro.Mas outras espécies, como as baleias, estão consumindo plástico acidentalmente enquanto filtram a água por plâncton.

A presença de resíduos plásticos vem aumentando rapidamente nos oceanos do mundo – um estudo de 2015 estimou que cerca de oito milhões de toneladas de plástico entram nas águas oceânicas anualmente.

Alguns flutuam em grandes sistemas de correntes marítimas rotativas, conhecidos como giros oceânicos.

Em um giro, o plástico se decompõe em microplásticos, que podem ser ingeridos pela fauna marinha.

Este estudo é considerado o mais completo esforço já feito para averiguar quantos destes fragmentos estão sendo despejados, soprados ou simplesmente arrastados para o mar.

 

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