O ministério da agricultura liberou a entrada de mais 31 agrotóxicos e componentes no país. A notícia, já publicada no Diário Oficial da União, foi divulgada um dia depois que a ministra Teresa Cristina, – também conhecida como “musa do veneno” – negou, para os integrantes da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento da Câmara dos Deputados, que a liberação dos agrotóxicos seja feita de forma desenfreada, sem critério. Mais: disse também que o governo tem trabalhado para substituir progressivamente os pesticidas mais perigosos por outros, considerados menos tóxicos. Mas não é o que parece.

Assim, do total de agrotóxicos liberados, 44 estão entre os pesticidas mais perigosos e apenas 18 são classificados como “pouco tóxicos”.

Pra se ter ideia da gravidade da situação, entre os produtos “extremamente perigosos” do novo lote, estão três formulações do herbicida 2,4-D, que é um dos princípios ativos do “agente laranja”, arma química usada para derrubar florestas durante a Guerra do Vietnã (que ocorreu entre 1959 e 1975).

Esse princípio foi banido de países como Austrália e Canadá. Aqui, no Brasil, está em processo de avaliação desde 2006, mas agora liberado. Segundo o site De Olho Nos Ruralistas, na semana passada, no Rio Grande do Sul, o 2,4-D tornou-se alvo de um inquérito civil após perdas de R$ 100 milhões na safra de uva, maçã e oliveira. Enquanto isso, um lobby poderoso, formado por empresas como Down e Du Pont, pressiona o governo para manter o produto no mercado.

Bom lembrar que a Down comercializa o Sulfoxaflor, inseticida acusado da morte de abelhas e outros polinizadores no Rio Grande do Sul. Para a Comissão, ela disse que o produto não está registrado no Brasil e que esse “é o grande problema dessa fila enorme. Esse produto provavelmente entrou de maneira ilegal, está sendo usado de maneira errônea e causou a morte das abelhas”. Ou está mal informada ou mentiu: o Sulfoxaflor foi liberado ainda no governo Temer.

Apesar das notícias tenebrosas e da comprovação de que o Glifosato causa câncer, a ministra da agricultura afirmou durante a audiência no Congresso que ele continuará sendo vendido e aplicado no Brasil. “Não existe outro produto que possa substituir o glifosato. Para ser banido, ele precisa ser substituído! Mas, se for usado da maneira correta, com equipamento, diminui muito o risco”, explicou.

Repare que ela disse que diminui o risco, não acaba com ele. E que causar câncer não é motivo suficiente para tira-lo de circulação. Ou seja. os agricultores continuarão sendo expostos ao veneno com o aval do governo. Essa é sua política.

“Coquetel” com 27 agrotóxicos foi achado na água de 1 em cada 4 municípios

Um coquetel que mistura diferentes agrotóxicos foi encontrado na água de 1 em cada 4 cidades do Brasil entre 2014 e 2017. Nesse período, as empresas de abastecimento de 1.396 municípios detectaram todos os 27 pesticidas que são obrigados por lei a testar. Desses, 16 são classificados pela Anvisa como extremamente ou altamente tóxicos e 11 estão associados ao desenvolvimento de doenças crônicas como câncer, malformação fetal, disfunções hormonais e reprodutivas. Entre os locais com contaminação múltipla estão as capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus, Curitiba, Porto Alegre, Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis e Palmas.

Os dados são do Ministério da Saúde e foram obtidos e tratados em investigação conjunta da Repórter Brasil, Agência Pública e a organização suíça Public Eye. As informações são parte do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), que reúne os resultados de testes feitos pelas empresas de abastecimento.

Os números revelam que a contaminação da água está aumentando a passos largos e constantes. Em 2014, 75% dos testes detectaram agrotóxicos. Subiu para 84% em 2015 e foi para 88% em 2016, chegando a 92% em 2017. Nesse ritmo, em alguns anos, pode ficar difícil encontrar água sem agrotóxico nas torneiras do país.

Embora se trate de informação pública, os testes não são divulgados de forma compreensível para a população, deixando os brasileiros no escuro sobre os riscos que correm ao beber um copo d’água. Em um esforço conjunto, a Repórter Brasil, a Agência Pública e a organização suíça Public Eye fizeram um mapa interativo com os agrotóxicos encontrados em cada cidade. O mapa revela ainda quais estão acima do limite de segurança de acordo com a lei do Brasil e pela regulação europeia, onde fica a Public Eye.

O retrato nacional da contaminação da água gerou alarde entre profissionais da saúde. “A situação é extremamente preocupante e certamente configura riscos e impactos à saúde da população”, afirma a toxicologista e médica do trabalho Virginia Dapper. O tom foi o mesmo na reação da pesquisadora em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Pernambuco, Aline Gurgel: “dados alarmantes, representam sério risco para a saúde humana”.

Entre os agrotóxicos encontrados em mais de 80% dos testes, há cinco classificados como “prováveis cancerígenos” pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos e seis apontados pela União Europeia como causadores de disfunções endócrinas, o que gera diversos problemas à saúde, como a puberdade precoce. Do total de 27 pesticidas na água dos brasileiros, 21 estão proibidos na União Europeia devido aos riscos que oferecem à saúde e ao meio ambiente.

A falta de monitoramento também é um problema grave. Dos 5.570 municípios brasileiros, 2.931 não realizaram testes na sua água entre 2014 e 2017.

De quem é a responsabilidade?

Depois de contaminada, são poucos os tratamentos disponíveis para tirar o agrotóxico da água. “Alguns filtros são capazes de tirar alguns tipos de agrotóxicos, mas não há um que dê conta de todos esses”, afirma Melgarejo. “A água mineral vem de outras fontes, mas que são alimentadas pela água que corre na superfície, então eventualmente também serão contaminadas”.

O trabalho preventivo, ou seja, evitar que os agrotóxicos cheguem aos mananciais, deveria ser primordial, afirma Rubia Kuno, gerente da divisão de toxicologia humana e saúde ambiental da Cetesb. “O esforço deve ser na prevenção porque o sistema de tratamento convencional não é capaz de remover os agrotóxicos da água”, afirma.

É grande o debate sobre a complexidade em se enfrentar o problema, mas é difícil encontrar quem está assumindo a responsabilidade.

A reportagem procurou as secretarias do Meio Ambiente, Agricultura e Saúde e Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) para entender quais ações são tomadas no estado com o maior índice de contaminação. As respostas foram dadas pela Sabesp e pela assessoria do meio ambiente com informações técnicas sobre o monitoramento. Nem as secretarias nem a empresa esclareceram o que está sendo feito para controlar ou prevenir o problema.

Perigoso na Europa, permitido no Brasil

O controle da água feito pelo Brasil também está distante dos parâmetros da União Europeia. Com o objetivo de eliminar a contaminação, o continente fixou a concentração máxima na água em 0,1 micrograma por litro – valor que era o mínimo detectável quando a regulação foi criada.

Para descobrir como a água do Brasil seria avaliada pelo padrão europeu, a organização Public Eye classificou os dados fornecidos pelo Ministério da Saúde segundo o critério daquele continente. Alguns dos agrotóxicos mais perigosos ultrapassaram os limites europeus em mais de 20% dos testes. Entre eles, o glifosato e o mancozebe, ambos associados a doenças crônicas, e o aldicarbe, proibido no Brasil e classificado pela Anvisa como “o agrotóxico mais tóxico registrado no país, entre todos os ingredientes ativos utilizados na agricultura”.

O glifosato é o caso mais revelador sobre as peculiaridades do Brasil na regulação sobre agrotóxicos. Classificado como “provável carcinogênico” pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, órgão da Organização Mundial da Saúde, o pesticida está sendo discutido em todo o mundo. Há milhares de pacientes com câncer processando os fabricantes nos Estados Unidos – e vencendo nos tribunais – além de protestos e petições pedindo a sua proibição na Europa. Não há consenso, entre as agências reguladoras, sobre sua classificação. No Brasil, que oficialmente colocou a substância em revisão desde 2008, o Ministério da Agricultura liberou novos registros para a venda de glifosato no início deste ano. O pesticida passou a ser vendido em novas formas, quantidades e por número maior de fabricantes.

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