“Se choras porque perdeste o sol, as lágrimas não te deixarão ver as estrelas.”

“A morte não é o apagamento da luz; é o ato de dispensar a lâmpada porque o dia já raiou.”

“Quando morre uma flor, nasce uma semente; quando uma semente morre, nasce uma planta. E a vida continua o seu caminho, mais forte do que a morte.”
-Rabindranath Tagore


A VIDA DEPOIS DA MORTE
(Explicada em Perguntas e Respostas)

PERGUNTA: Qual é a vantagem de se conhecerem, durante a vida, as condições existentes além da morte? Por que deveria um homem preocupar sua mente com esse assunto, se está seguro de encontrar a verdade dos fatos logo que morrer?

RESPOSTA: Esse argumento é defeituoso, por várias razões. Não leva em consideração o sofrimento que, devido à ignorância, ensombra as vidas de tantos que morrem cheios de pavor; nem as tristezas da separação; nem a ansiedade que sentem os “vivos” sobre a sorte dos seres falecidos que lhes são queridos. O temor é inspirado não tanto pela expectativa definida de algo aterrorizante, mas por um confuso sentimento de incerteza, e pelo horror a um abismo de ociosidade. Quem assim pergunta, ignora também o fato de que o homem, depois da morte, não se dá conta imediatamente de seus erros, e que, devido à sua falta de capacidade para corrigi-los à luz da verdade, frequentemente haverá de sofrer muito. O homem comum, carente de conhecimentos, está ligado no astral pelo “elemental desejo”, do qual logo se falará; não compreende as possibilidades da vida depois da morte, e perde assim muitas oportunidades de serviço e de progresso.

Embora as leis da natureza estejam sempre se impondo a nós, saibamos disso ou não, se o sabemos podemos cooperar com elas com grande vantagem. Entretanto, não podemos fazer isso estando nas trevas da ignorância. Saber é como caminhar em plena luz; e compreender as leis da natureza é adquirir o poder de acelerar nossa evolução, aproveitando-nos daquelas leis que apressam nosso crescimento e evitando a ação daquelas que o retardam.

Além disso, já com o conhecimento da existência além da morte, um homem se dá conta da verdadeira proporção que existe entre o fragmento físico da vida e o resto dela, razão pela qual não perde seu tempo em trabalhar somente para o período físico, que é como a décima ou vigésima parte de toda uma vida entre duas encarnações. Igualmente, quando o homem chega depois da morte ao que se chama o mundo astral, não se sente alarmado, já que compreende as condições de seu ambiente e sabe qual é a melhor maneira de trabalhar nelas, e assim o faz com determinação e confiança. Mesmo o homem que tiver escutado as verdades teosóficas tão somente numa conferência, ao encontrar-se no mundo além da morte se dará conta da exatidão geral dos ensinamentos, e tentará recordar as recomendações que ouviu acerca da conduta que deve ser seguida, e, tendo pelo menos alguma informação sobre essa realidade, pode evitar muito do mal-estar, perturbação e temor que outros sentem, por se acharem em completa ignorância. Porém, a maior das vantagens de tal conhecimento é que ele se sente com força suficiente para prestar ajuda a outros e gerar, assim, bom carma para ele.

PERGUNTA: De acordo com isso, o que acontece a um homem do outro lado da morte?

RESPOSTA: Para conhecer isso, devemos compreender exatamente o que é a morte. Há uma grande quantidade de pesar totalmente desnecessário, de terror e de angústia que a humanidade, como um todo, sofreu e ainda sofre por causa da ignorância e da superstição acerca da morte, que considera como um salto formidável e terrível para um abismo desconhecido.

Para início de conversa, a morte não é mais que lançar fora o corpo físico, o envoltório do Ego, ou seja, do homem real, o qual continua vivendo no corpo astral até que se esgote a força gerada durante sua vida terrestre por suas emoções e paixões. Tem lugar então uma segunda morte, e, ao separar-se o corpo astral do homem, encontra-se este em seu corpo mental, no que é chamado de mundo celeste. E tem de permanecer ali até que se esgote a força dos pensamentos não Egoístas que tiver engendrado durante suas vidas física e astral. Sendo descartado também esse terceiro corpo, o homem permanece por algum tempo como um Ego, em seu próprio mundo, no corpo causal, antes de retornar à encarnação.

E assim a morte não é outra coisa senão nascer em outra região; é um processo repetido de abandonar vestimentas, pois o homem imortal sacode de si, uma após a outra, as envolturas externas para passar a um estado superior de consciência.

PERGUNTA: Como o homem real se separa de seu veículo físico?

RESPOSTA: Durante o lento processo de morrer, o duplo etérico, levando consigo o Prana e os princípios superiores, vai deslizando para fora do corpo denso, ao qual permanece conectado por um fio magnético. No momento solene da morte, mesmo que esta seja repentina, a vida passada desfila rapidamente diante do Ego, fato do qual têm dado testemunho aqueles que se salvaram de afogamento. O Ego revive então toda sua vida nesses poucos segundos antes da morte, quando a personalidade, unificando-se com o Ego omnisciente e passando em revista a vida inteira em seus mínimos detalhes, com a cadeia completa de causas e efeitos, se contempla já sem o engano do “eu” e compreende o propósito da vida. Por conseguinte, durante o lento processo do morrer, deveria observar-se na câmara do moribundo uma extrema quietude e controle de si, a fim de não perturbar o Ego que está absorto na contemplação de sua vida passada; e não deveria permitir-se nenhum pranto ou lamentação ligada à ideia de uma Egoísta perda pessoal.

Lentamente o homem se retira assim do corpo físico, envolto no duplo etérico cor cinza-violeta, até que o fio magnético se rompe. Então, submerge ele numa pacífica inconsciência, enquanto o duplo etérico flutua sobre o corpo denso.

Os atos de morrer e entregar-se ao sono são similares, exceto em muito poucos detalhes, segundo já se explicou no Capítulo III. Em ambos os casos, o homem desliza para fora do corpo físico. Quando se entrega ao sono, deixa o corpo etérico com a envoltura física sobre o leito, e se separa mantendo-se dentro de seu corpo astral. Aquele se conserva com vida pelas correntes de vitalidade que fluem através de ambos; porém, na hora de morrer, ele retira também consigo o duplo etérico, e como tal duplo não é um veículo, o homem, preso nele, geralmente permanece inconsciente, pelo menos por uns momentos, e não pode funcionar nem no mundo físico nem no astral.

Depois de algum tempo, que varia desde uns poucos momentos até umas tantas horas, dias e até semanas – normalmente umas trinta e seis horas – , os cinco princípios superiores se desenlaçam do duplo etérico, sacudindo-o como antes fora sacudido o corpo denso, deixando-o insensível como um cadáver. Prana, tendo perdido assim seu veículo, regressa ao grande repositório de vida universal, de modo semelhante ao da água contida numa vasilha que se quebrou: lançada ao mar, se mistura com a água do oceano. O homem fica agora residindo no seu corpo astral, pronto para a vida astral.

PERGUNTA: O senhor fala de “submergir numa pacífica inconsciência”, mas por acaso não existem muitos seres que sofrem terrivelmente no momento de morrer?

RESPOSTA: As agonias da morte e as lutas finais geralmente são apenas movimentos espasmódicos do corpo físico, depois que o Ego consciente o tiver deixado. Em quase todos os casos, o instante de morrer é perfeitamente indolor, mesmo quando tenha havido longos e tremendos sofrimentos durante a enfermidade. E isso se demonstra pela aprazível expressão que amiúde aparece sobre a face depois da morte, assim como pelo testemunho direto de muitos daqueles a quem essa pergunta foi feita, imediatamente depois que morreram.

PERGUNTA: O que ocorre com o duplo etérico já separado depois da morte?

RESPOSTA: O corpo físico, abandonado à agitação das inumeráveis vidas que previamente estavam mantidas em coesão pelo Prana, que atuava através do duplo etérico, começa a decair e suas partículas passam a formar outras combinações à medida que suas células e moléculas se desintegram. Permanece o duplo etérico próximo de sua contraparte física, participando do mesmo destino por poucas semanas ou meses, precisamente pela mesma razão, a saber, que a força coordenadora do Prana está se retirando dele. Entretanto, não se deve supor que essas duas desintegrações dependem uma da outra. Os clarividentes veem nos cemitérios estes espectros etéricos flutuando sobre as tumbas onde foram enterrados os corpos físicos, apresentando às vezes muita semelhança com o corpo denso, e em outras ocasiões uma aparência de neblina ou luzes violáceas. É conveniente, por muitas razões, queimar os cadáveres e não sepultá-los.

PERGUNTA: Por que é preferível a cremação ao sepultamento?

RESPOSTA: Há várias razões para isso:

I. Nada do que comumente se faz ao cadáver físico deve causar incômodo algum ao homem real, que já vive no plano astral, embora isso às vezes ocorra devido à sua ignorância e insensatez. A duração da estada de um homem no mundo astral depois da morte depende de dois fatores: a natureza de sua vida passada e sua atitude mental depois da morte. Durante sua vida terrena ele afetou a construção de seu corpo astral, diretamente por suas paixões e emoções, e indiretamente, desde a parte superior, pela ação reflexa de seus pensamentos, e desde a parte inferior, pelas ações relacionadas com todos os aspectos de sua vida física (sua continência ou libertinagem, sua alimentação e sua bebida, etc.). Se houver persistido nas más paixões e desejos durante a vida terrestre, criou para si um tosco veículo astral, e encontrar-se-á, depois da morte, atado ao plano astral durante o dilatado e gradual processo da desintegração daquele corpo. Por outro lado, se por ter vivido decentemente construiu um veículo composto em sua maior parte de materiais finos, terá muito poucos pesares depois da morte e passará com suma rapidez através do plano astral. Isso é geralmente entendido, mas parece que se esquece, frequentemente, do segundo grande fator: a atitude mental depois da morte.

O importante é dar-se conta de que, nessa etapa, está-se afastando firmemente em direção ao mundo do verdadeiro Ego, e que sua preocupação deve ser desprender seus pensamentos, o máximo possível, das coisas físicas e fixar sua atenção cada vez mais nos assuntos espirituais, que posteriormente o ocuparão nos níveis “devachânicos”. Agindo assim, facilitará sobremaneira a natural desintegração astral e evitará o erro comum de deter-se desnecessariamente nos níveis inferiores daquele plano.

Entretanto, muitos seres simplesmente se recusam a voltar seus pensamentos para o mais elevado; os assuntos terrenos foram os únicos pelos quais tiveram interesse vital, e assim aferram-se a eles com desesperada tenacidade, mesmo depois da morte. Naturalmente, a força impetuosa da evolução é demasiado potente para eles e veem-se envolvidos por sua corrente benéfica; todavia, lutam a cada passo e resistem, causando para si não só incômodos e sofrimentos desnecessários, como também uma séria demora em seu progresso ascendente. Agora, nessa ignorante oposição à vontade cósmica, um homem se ajuda muito pela posse de seu cadáver físico, como se este fosse uma espécie de ponto de apoio no plano físico. Encontra-se, naturalmente, em íntima relação com ele, e se for tão ignorante para desejar fazer isso, pode usar seu cadáver como uma âncora que o retenha aderido aos níveis inferiores, até que a decomposição chegue a ser muito avançada.

E assim, embora nem o sepultamento nem o embalsamamento de um cadáver possam forçar o Ego, ao qual pertenceu, a prolongar sua estada no mundo astral, contra sua vontade, qualquer desses métodos consiste numa tentação para o Ego deter-se, o que seria ainda mais facilitado se ele, por ignorância, o desejasse. Portanto, a incineração livra o homem de si mesmo nesse assunto, pois se o corpo tiver sido desintegrado, sua “nave” terá sido literalmente queimada atrás de si, e seu poder de retrocesso diminuído grandemente.

II. Quer o corpo denso seja queimado, ou lhe seja permitido esgotar-se lentamente na repulsiva maneira habitual, ou, ainda, preservado indefinidamente como uma múmia egípcia, o duplo etérico prossegue seu próprio curso de lenta desintegração, sem ser afetado por aqueles procedimentos; porém, a cremação é aconselhável do ponto de vista sanitário, já que evita muitos perigos aos seres vivos, pela rápida desagregação dos remanescentes físicos.

III. A cremação impede completamente qualquer tentativa de uma reunião parcial e não natural dos princípios pela galvanização do cadáver etérico, nas proximidades do corpo denso imediatamente depois da morte, ou na sepultura mesmo depois do sepultamento.

IV. A cremação impede inteiramente qualquer esforço de se fazer um mau uso do cadáver nos horripilantes ritos da Magia Negra, que tão seriamente afetam a condição do homem no plano astral.

PERGUNTA: Então o que ocorre ao homem em seu corpo de desejos ou corpo astral, depois que sacudiu de si o duplo etérico e se separou do Prana?

RESPOSTA: Quando se abandona o corpo físico na hora da morte, começa a desarrumar-se toda a ordem das envolturas da personalidade, e o corpo astral começa a desintegrar-se. Disso se dá conta instintivamente o elemental desejo, a vaga consciência corporal do corpo astral, já mencionado no Capítulo III, e se atemoriza. Teme perder aquela habitação que o capacita a manter-se separado do resto e dá oportunidade para o progresso, e receia que o desaparecimento final do corpo astral ponha fim à sua própria vida (elemental) como entidade separada; por isso imediatamente se põe em ação para proteger-se, através de um método muito engenhoso. A matéria do corpo astral é muito mais fluídica que a do físico, e o elemental, aferrando-se a suas partículas, as reorganiza de tal sorte que o novo arranjo do corpo astral possa resistir a toda usurpação, fricção ou desintegração, tanto quanto sua constituição o permita, retendo, por conseguinte, sua forma o mais que puder. Durante a vida terrena, as distintas classes de matéria astral se entremesclaram para formação do corpo de desejos ou corpo astral, e o rearranjo consiste na separação de seus materiais de acordo com sua densidade, num conjunto de sete cascões concêntricos, o mais fino no centro e o mais denso na periferia, cada cascão constituído pela matéria de cada subplano.

PERGUNTA: Mas como pode o morto afetar essa reorganização que faz o elemental desejo?

RESPOSTA: O corpo físico adquire informação do exterior por meio de certos órgãos que se especializaram como instrumentos de seus sentidos. Mas o corpo astral não possui órgãos separados, e o que no corpo astral corresponde à visão é o poder que têm suas moléculas para responder a impactos do exterior, que lhes chegam de moléculas similares, de tal maneira que um homem poderá perceber um objeto astral, de matéria de uma subdivisão particular, desde que existam na superfície de seu corpo astral partículas que pertençam a tal subdivisão. Durante a vida física se mesclam em seu corpo todas as sete classes de matéria astral, e estão em movimento contínuo como as partículas de água fervente. Em qualquer dado momento acham-se representadas, na superfície de seu corpo astral, partículas de todas as variedades, e, por conseguinte, quando ele se encontra funcionando naquele corpo, durante o sono, pode ver qualquer objeto astral da matéria de qualquer subdivisão; porém, devido ao rearranjo da matéria de seu corpo astral em camadas concêntricas, que ele por ignorância permitiu que seu elemental fabricasse após a morte, acha-se confinado a um subplano em um só tempo, isto é, sua consciência recebe impressões apenas mediante um tipo de matéria, e assim obtém uma visão extremamente parcial do mundo no qual se encontra.

Tendo na superfície de seu corpo astral só as partículas mais inferiores e grosseiras, pode perceber apenas impressões das partículas externas correspondentes. Porém, sendo as vibrações de tal matéria densa expressões unicamente de sentimentos e emoções indesejáveis, e da menos refinada classe de entidades astrais, ele pode dar-se conta unicamente daquela variedade inferior de matéria astral que corresponde à sólida aqui embaixo, e ver exclusivamente os habitantes indesejáveis do mundo astral, e só sentir suas influências mais desagradáveis e vulgares. Os demais homens que o rodeiam, que são de um caráter comum e corrente, lhe parecerão monstros de vício, já que pode ver e sentir apenas o mais baixo e vil neles. Mesmo os seus amigos, os que morreram poucos anos antes e já transferiram sua consciência aos níveis superiores, lhe parecem piores do que ele esperava, porque agora é incapaz de apreciar qualquer uma de suas boas qualidades. Sob tais circunstâncias, não é de estranhar que ele considere o mundo astral como um inferno; entretanto, de modo algum deve-se atribuir a culpa ao mundo astral, mas a ele próprio, em primeiro lugar por haver permitido dentro de si tanta quantidade daquele tipo mais grosseiro de matéria astral, e, em segundo lugar, por permitir que aquela vaga consciência astral o domine e que reorganize sua matéria astral à sua maneira particular.

Com o transcurso do tempo, passará aos subplanos superiores, à medida que se desgaste cada uma das coberturas concêntricas; mas a vida astral do homem prolonga-se assim indevidamente, retardando o progresso da alma.

PERGUNTA: O senhor disse que a permissão para essa reorganização é resultado da ignorância; então, pode um homem impedi-la e, evitando ficar confinado a subplanos inferiores, preservar sua capacidade de observar qualquer objeto astral da matéria de qualquer subplano?

RESPOSTA: Durante sua vida ele pôde recusar a satisfação a seus baixos desejos, substituir todas as partículas grosseiras por outras mais finas e elevadas, trocando assim a matéria astral dentro de si, construindo um elemental astral de tipo superior.

Além disso, como o homem ordinário não tem conhecimento dessas coisas, aceita passivamente o rearranjo depois da morte, especialmente porque o elemental desejo transmite-lhe seu próprio temor de um indescritível perigo de destruição; todavia o homem deveria simplesmente resistir àquela sensação irracional de temor, por uma serena afirmação de conhecimento, e, opondo-se a tal reorganização, que o reteria num só subplano, deveria insistir em manter aberta sua comunicação com os níveis astrais superiores. E assim poderá escapar da escravidão do elemental desejo, vencendo lenta, mas, firmemente sua resistência; e, encontrando-se então praticamente numa posição igual àquela na qual estava acostumado a funcionar durante sua vida terrestre, poderá capacitar-se para atuar livremente e para reter seu poder de olhar todo o mundo astral, e não somente a parte mais baixa e repugnante do mesmo. E poderá também ajudar a seus amigos, ensinando-lhes a maneira de liberarem-se a si mesmos. O hábito de voltar os pensamentos para o inferno na meditação, e a prática de dirigir as emoções pela vontade e o intelecto, previnem também esse movimento equivocado de autoproteção, que não é frequente entre os seres que souberam controlar-se.

PERGUNTA: Qual é, pois, o estado de um homem comum no Kamaloka, imediatamente após a morte?

RESPOSTA: Ao encontrar-se um homem livre de seu duplo etérico, não é certo que chegue imediatamente a estar consciente do mundo astral, especialmente se morreu de repente. Isso porque retém consigo uma boa quantidade da classe inferior de matéria astral, e dela pode-se fabricar um cascão ao seu redor. Contudo, se oportunamente tiver aprendido a manter à distância os desejos sensuais de várias classes, sua consciência não mais estará acostumada a funcionar mediante tal matéria. No corpo astral reorganizado, tal matéria se congregará no exterior e, por consequência, será o único canal aberto às impressões externas. Não estando acostumado a receber esse género de vibrações, o homem não pode desenvolver agora, de repente, o poder de funcionar conscientemente mediante ele e permanecerá inconsciente de tudo que é desagradável naquele subplano inferior, até que aquela matéria grosseira se desgaste gradualmente e apareça na superfície alguma porção de matéria da qual estava ele acostumado a usar. No entanto, tal oclusão é raramente completa, pois mesmo no cascão mais bem feito algumas partículas da matéria mais fina encontram o modo de aparecer na superfície e transmitem ao ser lampejos de seu ambiente circundante.

Normalmente, um morto é inconsciente até que se desembarace do duplo etérico, e assim, quando desperta para uma nova vida, tal vida é a do mundo astral. Mas algumas pessoas, devido à ignorância, aferram-se tão desesperadamente à existência física que dificilmente se desapegarão de seu duplo etérico depois da morte. Sentem que aquele é uma espécie de laço com o único mundo que conhecem. Conseguirão assim manter esse contato por algum tempo, porém à custa de grande contrariedade para eles mesmos. Como o duplo etérico é tão somente parte do veículo físico e não um veículo em si – um corpo no qual se vive e se funciona –, tais seres não podem adquirir um contato pleno com o mundo da vida terrestre ordinária, por falta de órgãos físicos sensoriais, e tampouco são conscientes do mundo astral por causa da crosta de matéria etérica que os rodeia. E assim, acham-se isolados de ambos os mundos e encontram-se rodeados de uma densa névoa cinza, através da qual veem muito confusamente as coisas do mundo físico, desprovidas de cor ou matiz. Lutando terrivelmente para manter sua posição, vagam à deriva nessa condição de solidão e desdita até que, de tanto cansaço, chegam a soltar sua presa e passam à relativa felicidade da vida astral. Às vezes, em seu desespero, agarram-se cegamente a outros corpos – a um corpo infantil e mesmo ao corpo de um animal –, e tentam entrar neles, e em certas ocasiões obtêm êxito, ainda que à custa de ulterior sofrimento para eles mesmos, num futuro próximo. Todas essas desgraças e transtornos, que surgem inteiramente da ignorância, jamais podem acontecer a alguém que entenda um pouco das condições e leis da vida post-mortem.

Um homem ordinário, ao despertar no plano astral depois da morte, notará muito pouca diferença em relação ao que lhe foi familiar no mundo físico. O mundo astral se estende a um pouco menos do que a distância média da órbita da lua, segundo já se explicou no Capítulo II, e os tipos de matéria das diferentes subdivisões se interpenetram com perfeita liberdade, sendo a tendência geral que a matéria mais densa se coloque no centro, de modo que, embora as várias subdivisões não fiquem uma sobre a outra como as camadas de uma cebola, o arranjo da matéria daquelas subdivisões parece semelhante.

O homem que não permitiu o reajuste de seu corpo astral tem liberdade de trânsito por todo o mundo astral, e pode flutuar em qualquer direção à sua vontade, embora geralmente permaneça nas proximidades daquilo ao qual se acostumou, onde estão seus interesses.

Ademais, a matéria astral interpenetra a matéria física como se esta última não existisse; contudo, cada subdivisão da matéria física tem uma forte atração pela matéria astral da subdivisão correspondente. Daí que cada corpo físico tenha sua contraparte astral e que o morto possa, por conseguinte, perceber sua casa, seu quarto, seus móveis, seus parentes e amigos. Os vivos pensam do amigo morto como se o tivessem perdido, mas aquele amigo, embora incapacitado para ver os corpos físicos dos vivos, vê seus corpos astrais, isto é, as contrapartes astrais que correspondem, com exatidão, ao delineamento dos corpos físicos. E assim se dá conta da presença de seus amigos, ainda que não possa impressioná-los de maneira nenhuma quando se acham despertos e com sua consciência no mundo físico, nem comunicar-se com eles, nem ler seus pensamentos mais elevados. Pode, também, observar suas emoções pela mudança de cor em seus corpos astrais. Os amigos, igualmente, quando estão adormecidos, são conscientes no mundo astral e podem se comunicar com os mortos tão livremente como durante a vida física, embora geralmente esqueçam tudo uma vez despertos.

A morte não muda o homem de maneira nenhuma; este continua sendo o mesmo em todos os aspetos, exceto no haver perdido seu corpo físico. Seus pensamentos, desejos e emoções são exatamente os mesmos, e sua felicidade ou desgraça dependem do grau em que a perda de seu corpo físico lhe tiver afetado. Amiúde ele não crê que esteja morto, já que vê os objetos que lhe eram familiares e seus amigos ao redor de si, mas começa a se dar conta da realidade ao constatar que não pode comunicar-se com eles como fazia antes. Fala pouco com eles depois de sua morte e parece que eles não o escutam, tenta tocá-los, mas com surpresa vê que não causa nenhuma impressão neles. Durante algum tempo tenta persuadir-se de que está sonhando, mas gradualmente virá a descobrir que já morreu. Então, comumente, o morto começa a ficar dececionado com os ensinamentos que recebeu. Não compreende onde se encontra nem o que lhe aconteceu, já que sua situação não é a que esperava. Conforme disse um general inglês ao se achar em condição semelhante: “Então, se estou morto, onde me encontro? Se este é o céu, não me parece grande coisa. E se é o inferno, está melhor do que esperava”.

E assim, por causa da infundada e blasfema teoria do fogo do inferno, provoca-se uma grande quantidade de inquietação, e até mesmo de agudo sofrimento, totalmente desnecessários, já que causam prejuízos além do túmulo, tanto quanto aquém dele; mas imediatamente o desencarnado encontra-se com um protetor astral, ou com algum outro morto já bem instruído, e aprenderá por ele que não há motivo algum para temor e que existe uma vida razoável que pode ser vivida neste novo mundo, da mesma maneira que naquele que abandonou.

Ele descobre, de modo gradual, que há muito de novo e muito que é somente a contraparte do que já conhece, pois no mundo astral os pensamentos e os desejos se expressam em formas visíveis, embora sejam compostos, em sua maior parte, da matéria mais fina do plano. Isso se faz cada vez mais patente à medida que avança sua vida astral e que vai se afastando, mais e mais, para dentro de si mesmo. À medida que o tempo transcorre, presta menos atenção à matéria inferior, que forma a contraparte dos objetos físicos, e se ocupa cada vez mais da matéria superior, da qual se constroem as formas mentais, até onde seja possível que as formas mentais apareçam no mundo astral. E assim sua vida vai se transformando em uma vida no mundo do pensamento, e se desvanece de seu horizonte a contraparte do mundo que ele deixou para trás, não porque ele tenha mudado de localidade no espaço, mas porque seu interesse mudou de foco. Todavia persistem seus desejos, e as formas que o rodeiam serão em grande parte a expressão de tais desejos, mas as felicidades ou contrariedades de sua nova vida dependerão, principalmente, da natureza daqueles desejos.

Toda a vida astral depois da morte é um processo constante e firme de o Ego retrair-se para dentro de si mesmo, e quando no seu devido tempo a alma chega ao limite daquele plano, morre para ele da mesma maneira que morreu para o mundo físico, isto é, lança fora o corpo de matéria daquele plano e o deixa para trás, passando a uma vida mais elevada e mais plena no mundo celeste.

PERGUNTA: Quais são os arredores ou ambiente de cada pessoa no mundo astral?

RESPOSTA: Em geral, a pessoa constrói seus próprios arredores. O mundo astral, conforme já se explicou no Capítulo II, acha-se dividido em sete subdivisões, que se agrupam em três classes. E contando a partir da mais elevada, as subdivisões 1, 2 e 3 formam a primeira classe; as subdivisões 4, 5 e 6, a segunda classe; e a subdivisão 7, sozinha, a terceira classe. Como já se explicou antes, embora essas subdivisões se interpenetrem livremente, a matéria das subdivisões superiores encontra-se em sua totalidade a uma elevação sobre a superfície da Terra maior do que a massa de matéria das subdivisões inferiores; por isso, se bem que qualquer pessoa possa mover-se em qualquer parte daquele plano, sua tendência natural é flutuar no nível que corresponde à gravidade específica da matéria mais pesada de seu corpo astral. Uma pessoa que não tenha permitido o reajuste em seu corpo astral pode flutuar em qualquer região à vontade, mas o homem que permitiu tal reajuste encontra-se confinado a um único nível, não porque não possa elevar-se ao mais alto, ou submergir-se no mais denso, mas porque está capacitado a sentir, claramente, apenas o conteúdo daquele subplano cuja matéria esteja presente, naquele momento, na parte externa dos cascões concêntricos de seu corpo astral.

O subplano inferior, o sétimo, o arrabalde astral com sua atmosfera sombria e deprimente abaixo da superfície da Terra, é o mais horrível e repulsivo e está povoado pela escória da humanidade (assassinos, rufiões, bêbados, libertinos, etc.), flutuando na obscuridade e separada dos demais mortos, embora ali estejam conscientes apenas os culpados de crimes brutais, ou de crueldade deliberada, ou os possuídos por apetites desprezíveis. Também se encontram ali pessoas de um tipo geralmente melhor; por exemplo, os suicidas que cometeram o assassinato de seu corpo a fim de escapar ao castigo merecido por seu crime.

As subdivisões quarta, quinta e sexta podem ser consideradas como o duplo astral do plano físico. A grande maioria dos seres faz certa morada na sexta subdivisão, a qual é simplesmente como a vida física menos o corpo físico e suas necessidades; enquanto que a quinta e a quarta são meramente cópias etéreas da sexta, sendo a vida nelas menos material.

Os níveis primeiro, segundo e terceiro, embora ocupem o mesmo espaço, dão a ideia de estar muito mais afastados do físico, pois os seres que ali habitam perderam de vista a Terra e seus pertences, e encontram-se profundamente absortos em si mesmos. A terceira região é a “terra estival ou de promissão” dos espíritas (terra de verão), na qual os mortos, pelo poder de seus pensamentos, dão forma a escolas, igrejas e templos, casas e cidades; ou a belas paisagens, com deleitosos jardins, lagos encantadores e magníficas montanhas. Essas são simplesmente criações coletivas de pensamento, mas as pessoas vivem ali muito contentes durante muitos anos.

A segunda subdivisão é o céu material do ortodoxo ignorante; a residência do religioso Egoísta ou carente de espiritualidade, que leva nele sua “coroa de glória” e adora a representação grosseiramente material, execução sua, da deidade particular de seu tempo e país. É o delicioso “campo de caça” do pele vermelha; o “Valhalla” (salão dos mortos) do nórdico; o “Paraíso cheio de huris” (mulheres belas) do maometano; a “Nova Jerusalém das portas de ouro”, do cristão; o céu cheio de liceus e edifícios, do reformador materialista.

A região primeira ou superior acha-se ocupada por homens e mulheres intelectuais, decididamente materialistas, ou ansiosos de alcançar, pelos meios físicos do estudo, um conhecimento baseado na ambição Egoísta ou no prazer de um exercício intelectual. Lá se encontram muitos políticos, estadistas e homens de ciência.

A vida astral é o resultado de todos aqueles sentimentos que têm em si o elemento “Eu”. Se tiverem sido marcadamente Egoístas, trarão para seu dono condições de grande contrariedade no mundo astral; se tiverem sido bons e benévolos, embora tingidos por pensamentos do “eu”, lhe trarão uma vida astral relativamente agradável, mas ainda limitada. Em vez disso, aqueles pensamentos e sentimentos que tenham sido inteiramente altruístas produzem seu resultado na vida do mundo mental; por conseguinte, a vida no mundo mental só vem oferecer bem-aventurança. A vida astral que o homem construiu para si, cheia de sofrimento ou relativamente gozosa, corresponde ao que os cristãos chamam de purgatório; enquanto que a vida no mental inferior, que sempre é inteiramente feliz, corresponde ao que se chama “o céu”.

PERGUNTA: Então não existe o inferno?

RESPOSTA: Não. O homem fabrica para si mesmo seu próprio purgatório ou seu céu, que não são localidades, mas tão somente estados de consciência. Não existe o inferno, que é apenas uma ficção da imaginação teológica. A crença popular do cristão num fogo eterno e num castigo sem fim, não é mais que uma superstição especialmente perniciosa, ensinada pelos monges medievais. A única coisa que, do ponto de vista cristão, deveria ter alguma importância é o que o Próprio Cristo disse acerca desse particular. Há nos Evangelhos oito passagens nas quais se supõe que Ele mencionou um castigo eterno, e pode-se demonstrar facilmente que cada uma dessas oito citações nada tem a ver com a ideia popular que se lhes atribui. Existe um livro chamado “Salvator Mundi”, escrito por um clérigo cristão, o padre Sandal Cox, que investiga muito cuidadosamente as palavras gregas originárias daquilo que se afirma que o Cristo disse, explicando o seu significado, e indicando as palavras que Ele deveria ter usado, se tivesse falado em grego, a fim de se ajustarem à interpretação popular. Ele não poderia ter querido dizer o que as pessoas geralmente pensam que Ele disse. E isso demonstra que não existe uma base racional para um castigo eterno, à parte isso poder ser refutado sob outros pontos de vista. É fácil compreender que se existe um Deus, e que se Ele é um Pai amoroso, a crueldade de um castigo eterno, com sua evidente injustiça, é absolutamente impossível.

Entretanto, advirá um período na evolução humana, o qual ainda dista milhões de anos, o chamado Dia do Juízo, em meados da Quinta Ronda (ver Capítulo VIII), quando as almas jovens, ou os seres que tenazmente tenham se colocado contra o progresso evolucionário, serão colocados à parte, não para um inferno perdurável, mas numa condição de animação relativamente suspensa, na qual terão de esperar o advento de outro esquema de evolução, que lhes ofereça, em suas etapas primitivas, uma oportunidade de avanço mais de acordo com os limites de suas débeis capacidades.

Tais seres ficam simplesmente na posição em que se acharia uma criança que não teria estado à altura de seus companheiros de classe: não poderá trabalhar em companhia deles quando chegarem à última parte dos estudos, a parte mais difícil, assinalada para o fim do ano, motivo pelo qual terá de esperar até que, no próximo ano escolar, outro grupo de crianças inicie os mesmos estudos que ele não pôde seguir. Unindo-se a eles e percorrendo o mesmo caminho anterior, poderá agora superar com êxito as dificuldades das sendas às quais anteriormente sucumbira. Eis aí tudo o que o assunto significa: poderíamos chamá-la uma “condenação aeônica”, pois tal é a verdadeira tradução das palavras, que foram tão mal interpretadas como “condenação eterna”. De modo nenhum é uma danação, nem mesmo uma condenação em algum mau sentido; é simplesmente uma “suspensão” pelo presente aeón (Período de tempo aparentemente interminável, mas que tem limite.) ou dispensação (Longo período de tempo em que a evolução do homem fica suspensa.). A mórbida imaginação dos monges medievais, sempre em busca de oportunidades para introduzir em seu credo horrores, a fim de aterrorizar uma paróquia incrivelmente ignorante, com o objetivo de extrair maiores óbolos para a manutenção da “Santa Madre Igreja”, distorceu essa ideia, perfeitamente simples, de uma “suspensão aeônica” por uma “condenação eterna”.

Contudo, se um homem viver loucamente, poderá preparar para si um purgatório desagradável e de longa duração, se bem que nem o céu nem o inferno podem ser eternos, já que uma causa finita só pode produzir um resultado finito.

PERGUNTA: Segundo isso, no Kamaloka ou mundo astral, quais seriam as condições de um ser muito mau, de um ser comum e de um ser que já tivesse adquirido alguns interesses racionais?

RESPOSTA: As condições da vida post-mortem são quase infinitas em sua variedade. Todo ser comum que tenha permitido o reajuste de seu corpo astral depois da morte terá de atravessar as sete subdivisões, embora nem todos estejam conscientes em todas elas. Uma pessoa ordinariamente boa não terá em seu corpo suficiente matéria do subplano inferior para que se forme uma grossa envoltura; geralmente tem matéria do sexto subplano mesclada com pouca do sétimo; e assim, depois da morte, em geral só lhe interessa a contraparte do mundo físico.

Todavia um ébrio, ou um sensual, que durante a vida física tiver sido presa do vinho ou da luxúria, a ponto de sujeitar aos seus vícios toda razão e sentimentos de decência ou afetos de família, encontrar-se-á depois da morte nas mais baixas subdivisões do mundo astral, pois seus anelos foram tais que exigiram um corpo físico para sua satisfação. Essas ânsias manifestam-se como vibração no corpo astral, e embora o homem tenha vivido no mundo físico, a maior parte de sua força foi usada para colocar em movimento as pesadas partículas físicas. Porém, achando-se no mundo astral sem corpo físico para amortecer e retardar a força das vibrações do desejo, sente os apetites multiplicados em seu poder, e, no entanto, vê-se completamente incapaz de satisfazê-los por falta do organismo físico; e assim sua vida é um verdadeiro inferno, o único inferno que existe. Entretanto, ele se encontra colhendo o resultado perfeitamente natural de sua própria ação e nenhum poder externo o está castigando. Grande parte do sofrimento resulta ali da falta de satisfação do desejo vicioso, fortalecido e fomentado quando usava o corpo físico; o pecador é seu próprio verdugo. Tudo isso foi bem conhecido no mundo antigo, mesmo entre os gregos, que os representavam fielmente sob o mito de Tântalo, o qual sofria de uma raivosa sede e estava para sempre condenado a ver que a água se afastava dele à medida que seus lábios estavam a ponto de tocá-la.

Um assassino que em Kamaloka está reconstruindo, uma e outra vez, as cenas do assassinato e os acontecimentos subsequentes, repetindo incessantemente seu nefando crime e passando de novo por todos os terrores de sua prisão e execução, está sem dúvida experimentando um “inferno”, em comparação com o qual o fogo e o enxofre são meras ficções teatrais. Em muitos casos, como o assassino pensa e repensa no crime cometido, por esta incessante meditação, meio maligna, meio aterrorizante, produzirá algo semelhante a uma obsessão com a cena de sua violenta morte.

Contudo, nenhuma dessas condições é eterna e nenhuma é punitiva. São o resultado inevitável de causas postas em jogo durante a vida no mundo físico, condições que duram tão somente enquanto subsistem as forças geradoras. Com o transcurso do tempo, esgota-se a força desejo, mas à custa de terrível sofrimento para o homem; e como no mundo astral o tempo só pode ser medido por meio de sensações, já que não há outro meio de computá-lo, conforme temos no mundo físico, cada dia pode ser comparado a mil anos. Portanto, a ideia blasfema da condenação eterna parece ser uma apresentação incorreta desse fato.

O destino de Sísifo, na mitologia grega, tipifica exatamente a vida astral do homem de ambições mundanas. Sísifo estava para sempre condenado a empurrar uma pesada rocha até o alto de uma montanha, unicamente para olhar, já no momento de obter êxito, a pedra rolando de novo até o abismo. O homem de ambições Egoístas alimentou durante toda sua vida o costume de fazer planos para atender seu próprio interesse, motivo pelo qual continuará fazendo o mesmo durante sua vida no mundo astral; ele formula cuidadosamente seus planos até que, já perfeitos em sua mente, se dá conta de haver perdido o corpo físico necessário para sua execução. Caem por completo suas esperanças, porém, de tal maneira se inculcou o costume, que continua uma e outra vez empurrando sua pedra até o cume da montanha da ambição, até que chega o tempo em que o vício esgota-se por completo. Por fim se dá conta de que não precisa empurrar mais a pedra, e deixa que ela fique ao pé da montanha.

Tomemos agora o caso de um homem comum, incolor, que possua vícios particulares, mas que se encontra apegado ainda às coisas do mundo físico; cujas ideias não tenham passado além da murmuração ou do que chama “esporte”, que não tenha pensado em outras coisas que seus negócios ou seus trajes, e cuja vida tenha transcorrido fazendo dinheiro, ou em passatempos sociais. O mundo astral o encherá de desgostos, pois lhe é impossível encontrar as coisas que anseia, já que não existem, naquele mundo, nem os negócios, nem os compromissos, nem os convencionalismos nos quais se baseia a sociedade do mundo físico.

Para a grande maioria, a situação depois da morte é mais feliz do que sobre a Terra, porque já não há necessidade de ganhar o sustento diário. O corpo astral não sente fome, nem frio, nem enfermidades; cada ser, no mundo astral, somente pelo exercício de seu pensamento, poderá vestir-se como goste. Pela primeira vez, desde sua tenra infância, o homem se sente inteiramente livre para empregar o tempo em fazer exatamente o que lhe apraz.

As pessoas que tiverem os mesmos gostos e propósitos se agruparão, naturalmente, tal como o fazem no mundo físico, e nunca faltará ocupação proveitosa para um homem que abrigue interesses razoáveis, desde que não requeiram um corpo físico para sua expressão. Um enamorado das belezas da natureza poderá viajar rapidamente, a centenas de quilómetros por segundo, sem fadiga, até as mais deleitosas paragens do mundo; outro, cujo prazer seja a Arte, terá à sua disposição as obras primas do mundo inteiro; enquanto que o estudante de ciências encontrará abertos todos os laboratórios do mundo, poderá visitar todos os homens de ciências e captar seus pensamentos. Para um ser que durante sua vida terrena tiver encontrado satisfação em ações altruístas e no trabalho pelo bem estar de outros, este será um mundo da mais vivida alegria e do mais rápido progresso. Para um homem que tenha sido inteligente, ao mesmo tempo em que útil, e que compreenda as condições dessa existência não física e se dê ao trabalho de adaptar-se a elas, abre-se uma esplêndida perspetiva de oportunidades, tanto para adquirir novos conhecimentos como para efetuar labores proveitosos. De fato, poderá ele fazer maior bem em poucos anos de tal existência astral que o que pôde ter feito durante sua vida física, por mais extensa que tenha sido. Por conseguinte, o mundo astral está cheio de amplas possibilidades, tanto para o júbilo quanto para o progresso.

PERGUNTA: Quais são as condições post-mortem para aqueles que tenham morrido por acidente ou se suicidado?

RESPOSTA: Para os primeiros há uma grande variedade de estados; os do segundo grupo terão que completar o tempo de vida que lhes foi atribuído, período fixado para exercitar o carma daquela vida, conforme já se explicou no Capítulo V ao se falar do tempo exato e da classe de morte das pessoas.

Quando a morte ocorre por acidente, não é raro que coincida com o fim determinado pelos Senhores do Carma para essa reencarnação; mas às vezes não, pois um acidente pode se constituir numa interferência motivada por novas forças, que se produziram na dita vida, seja por iniciativa do próprio ser (por exemplo, a escolha de pagar uma dívida antes do prazo), ou por ações alheias, que o afetam diretamente. Em tais casos, o plano perturbado terá que se ajustar ao principiar a nova existência, de tal modo que, no fim das contas, nada perde a alma cujo destino foi momentaneamente desviado, por si ou por outras. Em nenhum caso está assinalado o suicídio na vida de alguém; é o eu interno diretamente responsável por tal ação, embora a responsabilidade possa ser compartilhada com outros.

Quando se trata de pessoas que morrem por velhice ou enfermidade prolongada, é quase seguro que a ânsia de desejos terrenos se tenha debilitado, um pouco ou muito, e provavelmente já lançaram fora de si as partículas mais densas, de maneira que o homem poderá encontrar-se na sexta ou quinta das subdivisões do mundo astral, ou talvez nas superiores, pois seus princípios foram sendo preparados gradualmente para a separação e a sacudida não é, por conseguinte, demasiado forte.

Mas no caso de morte acidental ou suicídio, nenhuma dessas preparações teve lugar e a retirada dos princípios, e de sua sujeição física, foram comparados com justeza ao ato de arrancar um caroço ou semente do fruto não maduro; grande quantidade da classe mais densa de matéria astral acha-se aderida ainda à personalidade, a qual, por conseguinte, se detém na sétima ou inferior das subdivisões do mundo astral.

As vítimas de morte repentina, cujas vidas terrenas foram nobres e puras, não têm afinidade por esse plano, e assim o tempo de sua permanência nele transcorre ou “numa feliz ignorância e completo esquecimento, ou em estado de quieto torpor, num sono pleno de sonhos cor de rosa”. Entretanto, se suas vidas terrenas tiverem sido de brutalidade, Egoísmo e sensualidade, serão conscientes, como os suicidas, de toda a repulsividade dessa região, e poderão adquirir a tendência a converter-se em entidades terrivelmente más.

Comumente um suicídio é cometido por debilidade ou por covardia, devido a um desespero momentâneo ou a uma sacudida que as almas débeis não conseguem resistir, ou a uma súbita desgraça resultante de qualquer má ação que foi descoberta e de cujo castigo o suicida deseja escapar. Às vezes é um ato deliberado, mas sempre precipitado, de uma pessoa que tenta sair de um terrível aperto e escapar de uma angústia mortal.

Pois bem, não pode escapar. Quando acaba de assassinar seu corpo, encontra-se bem desperto no outro lado da morte, exatamente o mesmo homem que fora antes, exceto que carece do corpo físico; não mudou mais do que se tivesse simplesmente tirado sua casaca. A causa que o impeliu ao suicídio foi de origem emocional ou mental, de acordo com a situação, porém ele não se despojou nem de sua mente nem de suas emoções. Toda aquela parte dele que o impulsionou ao suicídio, a conserva ainda consigo, pois a ação não foi meramente corporal. O resultado de haver perdido seu corpo físico é um grande aumento em sua capacidade de sofrer. Acha-se sujeito ainda às mesmas forças que o levaram a cometer sua nefanda ação. Há, entretanto, uma peculiaridade acerca disso, a saber: o suicida geralmente repete “em sua imaginação”, como já dissemos, tudo aquilo que o induziu ao ato extremo de matar seu corpo; repete automaticamente os sentimentos de desespero e de temor que precederam ao autoassassinato; repassa, repetidas vezes, com espantosa persistência, sua ação e sua luta mortal.

Este curioso efeito automático, a repetição incessante de uma coisa em Kamaloka, é também uma característica do assassino quando morre, quer se descubra ou não o assassinato. Naturalmente, se o assassino é preso e enforcado, então aquilo tem lugar em rápida sequência. Aí está um dos modos de o homem primitivo aprender que é um mal assassinar. No caso dele, não se poderia dizer que o assassinato chegou a ser crime, porque ele mata sem pensar; contudo, deve aprender a abster-se do homicídio. E assim, na vida post-mortem, ele tem um breve sofrimento desse tipo, breve porque houve muito pouco esforço mental por trás do ato e porque apenas foi uma emoção súbita que o levou a cometê-lo. Isso é parte da instrução que leva um homem primitivo à evolução; aprende que assassinar é um mal porque descobre que resulta doloroso para ele. E, obviamente, os que estão mais evoluídos sofrerão por um período muito maior se cometerem um dano semelhante.

A ignorância que envolve o suicídio consiste em que o suicida, erroneamente, espera escapar da vida, porém permanece vivo. Aí está a futilidade de seu ato. O suicídio depende principalmente da ignorância. Se as pessoas estivessem convencidas de que não podem escapar, de que o resultado de suas ações é inevitável, esse conhecimento atuaria sobre suas mentes na ocasião de um súbito impulso de suicídio, motivado pelo desejo de escapar de um mal. Não podem fazê-lo, e, pelo contrário, caem, por assim dizer, da frigideira ao fogo; terão que sofrer ali mais do que no plano físico, visto que atuam agora em matéria mais sutil, na qual, devido à menor resistência da ténue matéria astral, o impacto do sentimento é muito mais forte sobre a consciência do que no mundo físico.

O suicida tem muita propensão a apresentar-se nas reuniões espíritas. Pode ser induzido por aqueles que tentam ajudá-lo, no outro lado da morte, a aceitar quieta e pacientemente os inevitáveis resultados de sua ação; porém, frequentemente rechaça todo conselho e pretende agarrar-se de novo à vida material por meios reprováveis. Tal ser (assim como alguém vítima de morte repentina, cuja vida terrestre tiver sido a de um bruto, sensual ou Egoísta), inflamado por toda classe de horríveis apetites, que já não pode saciar por falta do corpo físico, tenta repetidas vezes satisfazer suas ânsias materiais e suas paixões repugnantes de modo vicário, por meio de um “apoderado” vivente (um médium ou alguma pessoa sensitiva) a quem possa obsedar. Desgraçadamente, se consegue fazer isso, capacita-se a prolongar enormemente sua tenebrosa vida astral e a renovar, talvez por período indefinido, seu poder de gerar mau carma, preparando para si uma futura encarnação do género mais degradado possível, à parte correr o risco de perder uma grande porção do poder mental que tenha sido capaz de acumular. Entretanto, se tem a sorte de não encontrar-se com algum sensitivo, por meio do qual possa saciar vicariamente suas paixões, os desejos não satisfeitos irão se consumindo gradualmente e o sofrimento causado no processo poderá servir, provavelmente, para redimi-lo do mau carma da vida passada.

No entanto, deve recordar-se que a “culpabilidade” do suicida varia consideravelmente, de acordo com as circunstâncias: desde o ato moralmente impecável de um Séneca ou de um Sócrates; passando pelo suicídio cometido por motivos nobres ou num ímpeto de amor maternal e de autossacrifício; até o atroz crime do malvado que corta sua própria vida a fim de escapar das confusões em que sua vilania o meteu. Naturalmente, a situação deles depois da morte difere sobremaneira.

PERGUNTA: Se não existe o inferno, para que tanto sofrimento no mundo astral? Em que sentido o sistema de purgação favorece ao homem?

RESPOSTA: Não há inferno, nem eternidade alguma de tormentos irracionais e inúteis, que só serviriam para satisfazer a cruel malignidade de um déspota irresponsável, no qual a teologia ortodoxa exige que seus devotos creiam. Entretanto, existe um “purgatório” que é, simplesmente, um processo centrado no sofrimento, necessário, efetivo e o mais benéfico para a eliminação dos maus desejos. Por mais terrível que possa ser o sofrimento, qualquer mal vai se esgotando gradualmente, e somente quando tiver acontecido o mesmo com todos os maus desejos, poderá o homem passar para a vida superior do mundo celeste.

O homem ficará definitivamente livre de um mau desejo particular quando este se consumir; e não necessitará submeter-se de novo à carga dele em sua próxima encarnação, a menos que queira fazê-lo. Porém, ainda que o desejo em si esteja morto, subsiste a mesma debilidade de caráter que induziu o homem a sucumbir. Em sua próxima vida, nascerá com um veículo astral que contenha a quantidade de matéria necessária para a expressão daquele mesmo desejo, isto é, com um equipamento, digamos assim, que o incite a repetir sua última vida no que diz respeito a isso. Recebe aquela matéria porque, em sua última encarnação, ele a buscou e fez uso dela; porém, embora a tenha à sua disposição outra vez, de modo nenhum é obrigado a empregá-la da mesma maneira que antes. Se, como resultado de suas ações prévias, tiver ele a boa fortuna de encontrar-se, em criança, em mãos de pais capazes e cuidadosos, dos quais aprenderá a considerar como mau tal desejo e a obter controle sobre ele e reprimi-lo em seus primeiros brotos, então a matéria que deveria expressá-lo permanecerá sem vivificar e gradualmente se atrofiará por falta de uso, como muitos de nossos músculos físicos.

A matéria do corpo astral está se desgastando lenta, mas continuamente, e é substituída da mesma maneira que o é a do corpo físico; e como desaparece a que já se atrofiou, será substituída por matéria de classe mais refinada, que seja incapaz de responder às vibrações fortes e toscas daquele desejo sensual, e assim, aquela abominação particular chegará a ser impossível para ele. De fato, já a terá transcendido e, por último, a terá vencido de tal maneira que nunca, em toda a longa série de suas vidas futuras, repetirá aquele erro, pois terá criado dentro de seu Ego a virtude oposta, um controle completo no que se refere àquele vício. Através de uma vida de luta vitoriosa contra aquele desejo, pôde triunfar sobre ele, agora já não há luta, pois ele considera o vício sob suas verdadeiras cores, e não tem a menor atração por ele. E assim o sofrimento no plano astral, que uma vez lhe apareceu e era tão terrível, foi em realidade uma bênção disfarçada, já que através dele pôde capacitar-se a obter essa imensa vitória moral, para dar esse passo decidido na senda da evolução. Por isso parece não haver outro método melhor que o sofrimento, para serem alcançados resultados tão esplêndidos.

PERGUNTA: Se não existe inferno, como o senhor explica a doutrina cristã da “Salvação”?

RESPOSTA: A salvação, do latim Salvus (Salvo), não quer dizer escapar de uma condenação eterna ou de um inferno mítico. Ser salvo significa, em verdade, ficar do lado correto quando tiver lugar a divisão da ração humana, no “Dia do Juízo”. Tal divisão foi descrita como uma separação entre as cabras e as ovelhas, entre os “salvos” e os “condenados”. No esquema evolutivo de Deus, não há lugar para a ideia de alguém “perdido”, já que Deus desejará que todos evoluam e certamente todos teremos de fazê-lo. Mas a questão radica em se nos individualizamos a tempo, e também em se decidiremos ir voluntariamente ao longo da senda da evolução, ou então se ocasionaremos a outros, e a nós mesmos, grande soma de sofrimentos por tentarmos resistir à orientação divina.

Esse é o único significado da salvação, ou seja: que um ser esteja seguro de sair bem daquele futuro juízo, na hora de julgar se considera-se ou não pronto para passar a um mundo superior, mais evoluído. Se não estiver, ficará separado esperando a próxima onda evolutiva, conforme a criança na escola, que por não estar ainda no nível de seu grau, não pode passar a uma classe superior e terá de esperar até o ano seguinte, para repetir o mesmo labor.

No que diz respeito ao progresso que nos foi assinalado nesta cadeia particular de mundos (ver Capítulo VIII), de modo algum estamos, a grande maioria de nós, já “salvos”. Chegaremos a essa ansiada posição somente quando formos membros da “Grande Fraternidade Branca”, que dura de eternidade a eternidade, após passarmos pela primeira Grande Iniciação, conforme se explicará no Capítulo X.

Os que estiverem familiarizados com o ensinamento cristão recordarão como o grande iniciado São Paulo mostrou que a intenção da religião cristã era provocar o nascimento do Cristo dentro de cada crente individual; e que o “Menino Deus”, assim nascido no espírito humano, crescesse e se desenvolvesse até que o homem alcançasse a estatura de Cristo. Dentro de cada um de nós há um princípio “crístico”, que ainda dormita na maior parte da humanidade, mas pode ser despertado, e o despertar de tal princípio é o nascimento do Cristo dentro do coração de cada homem. Lemos nas escrituras cristãs: “Cristo em vós, a esperança de glória”; e a presença daquele princípio crístico dentro de cada coração é o que dá a esperança de glória a toda alma humana. Tal princípio está intimamente relacionado com a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, aquele “Filho de Deus” que entrou na carne, desceu ao mundo e chegou a ser parte de nós, a fim de que, através d’Ele, pudéssemos nos elevar à maior glória. Sem aquele princípio crístico, sem dúvida estaríamos perdidos e é necessária a crença nesse verdadeiro Cristo para a salvação. Já dizia, no século XVII, Angelus Silesius:

“Mesmo que Cristo nascesse cada ano em Belém,
Se nunca nascesse dentro de ti
Estarias perdido para sempre;
E se dentro de ti não surgir de novo,
Nem a Cruz do Gólgota poderá salvar-te da dor.”

E esta crença, a certeza de que o poder de Cristo está dentro de cada um de nós, é que nos capacitará a alcançar a etapa de salvação, para viver a vida que devemos viver. E neste sentido se diz, com verdade, que a crença no Cristo é necessária para a salvação; entretanto, é no Cristo que se acha dentro de nós mesmos que devemos crer. A crença na mera lenda de uma vida vivida por Cristo no plano físico, de modo algum pode afetar nosso futuro; o que nos salvará, nos ajudará e nos fortalecerá em nossa senda é o conhecimento da Divindade dentro do homem e seu poder para responder à Divindade fora dele.

“Todos nós podemos ser
Salvadores do Mundo,
Se cremos na Divindade
Que mora em nós
E lhe rendemos culto.”

O nascimento do Cristo dentro do coração do homem é uma coisa muito real. Nesse sentido podemos verdadeiramente afirmar que o Cristo é o Salvador do Mundo, pois é somente então que o homem pode alcançar o que Deus quer que alcance, e, ao entrar conscientemente na glória e na plenitude do Cristo Mesmo, tornar uma realidade o Deus que leva em si.

Portanto, para escapar de nascimentos e mortes que se repetem, é necessário o desenvolvimento do princípio crístico dentro de nós. À medida que se desenvolve esse princípio, nos damos conta de que nossa consciência separada não é outra coisa que uma ilusão; de que todos somos um em Deus. E à medida que nos damos conta da paternidade de Deus, compreendemos também a realidade da fraternidade do homem.

O despertar do princípio crístico é denominado, também, a aquisição da consciência “búdica”. Os santos, em seus momentos de êxtase, tocam inconscientemente a glória daquela maravilhosa consciência e se dão conta do Cristo dentro de si; porém há outros que, deliberada e cientificamente, se propõem a alcançar esse esplendor, e entram com toda consciência na glória e plenitude do Cristo, fazendo de Deus uma realidade em si mesmos, porque eles são, conscientemente, parte daquele Deus. Eis aí o verdadeiro nascimento do Cristo dentro do coração do homem. O homem verdadeiro, sendo uma chispa da Divina Chama, já é divino e não necessita salvação. Tudo de que necessita é a capacidade de fazer-se real para si mesmo, em todos os mundos e em todos os níveis possíveis, para ser um canal daquele poder Deífico no cumprimento do Plano Divino.

Entre as nações orientais, a palavra Salvação implica a ideia de escapar do sofrimento e do mal, de adquirir a condição de estar salvo, isto é, evitar as repetidas encarnações, a roda de nascimentos e mortes, o que as Escolas Órficas no século VI antes de Cristo chamaram “O Círculo de Geração”, o que os budistas chamam Samsara ou Roda da Vida.

PERGUNTA: De quais fatores depende a permanência de um homem em qualquer das secções do mundo astral? Em que tempo e como passa um homem comum do mundo astral ao celestial?

RESPOSTA: O Ego concentra firmemente dentro de si todas as suas forças, deixando para trás subdivisão após subdivisão da matéria astral. Sua demora em qualquer subdivisão será proporcional à quantidade de matéria daquela subdivisão que seu corpo astral contenha, dependendo essa quantidade da vida que viveu, dos desejos que foram permitidos, e da classe de matéria que desta maneira atraiu para construir seu astral.

Por conseguinte, mediante uma vida pura e um pensar elevado, um homem pode diminuir a quantidade de matéria que fique aderida a si e que pertença aos níveis inferiores do astral, desse modo elevando-a ao que poderíamos chamar seu ponto crítico, para que ao primeiro contato com a força desintegrante se rompa sua coesão e se reduza à sua condição original, deixando-o livre para passar imediatamente ao próximo subplano.

Também sua atitude mental depois da morte influencia sua estada ali, uma vez que, pela compreensão de sua situação e fixando sua atenção em assuntos espirituais, poderá facilitar a desintegração astral e encurtar sua permanência nos níveis inferiores.

No caso de uma pessoa totalmente espiritualizada, que tenha purificado seu corpo astral com os constituintes extraídos dos graus mais finos de cada divisão de matéria astral, o ponto crítico mencionado acima poderá ser alcançado com relação a todas as subdivisões de matéria astral, e o resultado será uma passagem praticamente instantânea através daquele plano, de tal modo que recobra sua consciência, bem antes, no mundo celeste. Um homem menos desenvolvido, mas moderado e puro, passará através daquele plano menos rapidamente, ainda que num plácido sonho, inconsciente de seus arredores, até que, tendo deixado para trás, uma após outra, suas envolturas astrais, desperta no mundo celestial. Naturalmente, segundo já se disse, os subplanos se interpenetram um ao outro e não estão separados um do outro no espaço; por isso, quando se fala de uma pessoa que passa de uma subdivisão à outra, não significa que se mova para algum lugar no espaço, mas simplesmente que o foco de sua consciência mudou do cascão externo para o próximo, mais interno.

O homem ordinário, ao encontrar-se na sexta subdivisão, ainda vagando em torno de lugares e pessoas com as quais na Terra esteve no mais íntimo contato, descobre, à medida que o tempo passa, que os contornos terrestres se desvanecem gradualmente e vão tendo menor importância para ele, e por isso mesmo tende cada vez mais a modelar seu meio circundante de acordo com o mais persistente de seus pensamentos. Quando chega à terceira subdivisão, descobre que essa característica substituiu totalmente a visão das realidades do mundo astral. Quando tiverem sido consumidos todos os baixos desejos e emoções, assim como os pensamentos de caráter Egoísta, e o Ego em seu firme processo de concentração tiver passado além, até mesmo, da mais fina classe de matéria astral, chega a hora da morte astral e o corpo astral, ainda não inteiramente desintegrado, é finalmente sacudido (exceto em se tratando de homem inusitadamente mau, que não tenha nem uma gota de amor ou de bondade para com alguém, ou que tenha se degradado até um nível de pecado e de bestialidade irredimíveis). Após a morte astral, a alma tem uma espécie de período gestatório e submerge num sonho breve e aprazível, uma “inconsciência pré-devachânica”, para ser despertada pelo sentimento de intensa bem-aventurança naquela parte do mundo celestial à qual pertença por temperamento. Não há necessariamente movimentação no espaço, senão que a consciência humana acha-se agora focada no mundo celestial inferior, onde se encontram também as consciências daqueles animais que, antes de sua morte, “individualizam-se” e alcançam a estatura de alma humana.

PERGUNTA: Se a morte não é o fim da Vida, mas tão somente um passo de uma etapa de vida até outra, que objetivo tem a dor intensa dos que lamentam a perda de seus entes queridos?

RESPOSTA: Conforme já foi explicado, sua dor não é por uma perda real, mas aparente. É o resultado de um engano e da ignorância das leis da natureza, e representa um sofrimento desnecessário, mesmo para os mais aflitos. O “morto” está, todavia, perto deles, e eles, enquanto seus corpos físicos estiverem adormecidos, conversam com ele; porém, quando despertam, voltam à sua antiga ilusão de havê-lo perdido e se enchem de pensamentos de tristeza durante todo o dia, o que torna o morto muito desgostoso e infeliz no mundo emocional. E não só isso, porque o pesar desenfreado e as insensatas explosões de tal sofrimento produzem um efeito muito doloroso no defunto, que aprazivelmente está desaparecendo na inconsciência que precede seu despertar na glória do mundo celestial. Amiúde se sente despertado de seu sonho de felicidade com uma recordação de sua última vida terrestre, causada pela apaixonada tristeza e os desejos de seus amigos encarnados, que despertam as vibrações correspondentes de pesar, com uma força centuplicada em seu corpo de desejos já liberado, causando-lhe um grande mal-estar e depressão e retardando seriamente seu progresso ulterior. Por outro lado, essa dor desenfreada dos parentes ignorantes, ainda que bem intencionados, obstaculiza grandemente a ajuda dos protetores astrais, que tentam explicar ao morto as condições do mundo astral para levantar seu ânimo e harmonizá-lo com seu novo ambiente.

Não é que aconselhemos o esquecimento, mas sim a recordação numa forma que seja benéfica e não prejudicial, substituindo a tristeza Egoísta e desolada por bons desejos, ardentes e amorosos, em prol de luz perpétua e eterna paz para o defunto.

PERGUNTA: As preces pelos mortos têm algum valor? Se o têm, como devem ser oferecidas?

RESPOSTA: As preces sempre têm valor, tanto para os vivos como para os mortos, quando são ditadas pelo amor. Uma prece será eficaz na proporção da intensidade do pensamento expressado por ela, da pureza e força de vontade com as quais for dirigida à pessoa em questão, e do conhecimento que possua o solicitante. Uma oração, assim como um pensamento, cria uma forma, um elemental artificial, “um poder benéfico ativo” que vai até a pessoa para cujo benefício foi criado e que a ajuda quando a oportunidade se apresentar. Essa energia posta em jogo no plano astral pode afetar qualquer pessoa em seu corpo astral; portanto, é possível auxiliar e proteger um morto com tais formas mentais enquanto ele permanecer no mundo astral.

Um homem que compreenda a constituição do corpo astral e o poder do pensamento pode aumentar enormemente sua ajuda pelo envio deliberado de um elemental artificial, que auxilie na desintegração dos cascões astrais que aprisionam a alma, e que impulsione seu passo para o Devachan. Alguns dos Mantrans dos Shraddhas hindus (cerimónias para os mortos) têm esse objetivo em perspetiva, e são muito eficazes quando empregados por um homem sábio e santo.

Entretanto, o homem comum conhece tão pouco sobre a condição de seus entes queridos, já mortos, que fará muito bem em abster-se de colocar em movimento uma força que possa ser mal dirigida, por falta de conhecimento mais exato acerca do que eles necessitam. Tal pessoa procederia melhor se usasse aquela famosa antífona que tão frequentemente se ouve nos serviços para os defuntos, na Igreja Católica: “Concede-lhe, oh Senhor, descanso eterno e que a luz perpétua brilhe para ele”. Pois essas duas cláusulas expressam exatamente as condições de que o defunto mais necessita: primeiro, perfeito descanso de todo cuidado e pensamento terrestres, a fim de que não seja perturbado seu progresso na direção do mundo celeste; e segundo, a luz perpétua do amor divino, brilhando claramente sobre ele através da parte superior e mais espiritual de sua própria natureza, atraindo-o sempre até essa elevada luz para que seu progresso possa ser rápido. Em verdade, muito pouca ajuda posterior pode a Terra oferecer a um homem para quem essa prece for repetida constante e fervorosamente. Dessa maneira, qualquer um pode ajudar seus amigos ou seres queridos, ao elevar-se a um nível superior, esquecendo-se de si e do engano da perda aparente, enviando pensamentos de “luz perpétua e paz eterna”, e substituindo a tristeza Egoísta e inútil por bons desejos, sinceros e amorosos, para que o progresso daqueles seja rápido desde o mundo astral até o celestial.

PERGUNTA: Podemos fazer algo para ajudar uma pessoa que está próxima de morrer? Se podemos, como e quando?

RESPOSTA: Certamente que podemos fazer muito em benefício dela. Se nos é dado estar a seu lado fisicamente durante sua enfermidade, podemos explicar-lhe as condições depois da morte. Qualquer explicação razoável dessas condições, numa conversa íntima e agradável acerca da vida além-túmulo, aliviará enormemente seu ânimo. Todavia, se nos é impossível a comunicação física, podemos ajudar um moribundo desde o plano astral. A pessoa deve fixar em sua mente, antes de entregar-se ao sono, a intenção de ajudar aquela determinada pessoa, bem como os argumentos que lhe pode apresentar. O objetivo capital de quem ajuda é acalmar e fortalecer o que sofre, e induzi-lo a dar-se conta de que a morte é um processo perfeitamente natural, explicando-lhe a natureza do plano astral e das preparações necessárias para progredir rumo ao mundo celestial.

Aquele que quer auxiliar deve possuir as seguintes qualidades: saber focalizar sua mente no trabalho exclusivo de auxílio; total controle de si, sobre seu temperamento e nervos; perfeita calma, serenidade e estado de alegria; conhecimento dos planos superiores e ausência total de Egoísmo, com um coração pleno de amor. Eis aí como se pode ajudar efetivamente o moribundo e o defunto.

O morto pode permanecer inconsciente depois da morte, por um momento ou poucos minutos, horas, dias, ou mesmo semanas; e embora uma pessoa treinada possa observá-lo por si mesma, quem não está treinado, deveria encontrar-se pronto para ajudar durante várias noites sucessivas, a fim de não falhar na hora em que o morto recobrar sua consciência no mundo astral.

PERGUNTA: Encontraremos os seres queridos que nos precederam na morte?

RESPOSTA: Certamente que sim, pois o amor atuará como um imã e nos reunirá. Se o ser amado morreu recentemente, o encontraremos no plano astral, mas se ele abandonou a Terra há muito tempo, é possível que já tenha passado do astral para o mundo celeste; e quando chegarmos àquele mundo, o teremos de novo ao nosso lado em sua melhor condição possível, mediante a forma ou imagem mental que dele guardemos, vivificada pelo Ego daquela pessoa, conforme se explicará em breve. Não perdemos aqueles a quem amamos; quando existe o afeto, a reunião é certa, já que o amor é um dos maiores poderes do Universo, seja na Vida ou na Morte.

PERGUNTA: Por que é prejudicial a um homem a morte repentina, e qual o motivo da antiga oração da igreja: “Da morte repentina, livrai-nos Senhor”.

RESPOSTA: As condições de vida de um homem depois da morte dependem, em primeiro lugar, do tempo que ele permaneça em qualquer dos subplanos, e, em segundo lugar, do quanto tenha focado a sua consciência em si mesmo; enquanto que a duração da permanência em qualquer dos subplanos dependerá da quantidade de matéria daquele subplano que possuir em seu corpo. E assim, os dois fatores da existência post-mortem dependem da natureza da Vida que viveu, e não da natureza da morte, pois nenhum acidente pode afetar o homem.

Embora uma morte repentina não piore necessariamente a posição de um homem no mundo astral, tampouco a melhora. O lento desgaste dos corpos anciãos, ou a deterioração que provoca uma prolongada enfermidade, invariavelmente debilita e desagrega as partículas astrais, consumindo a maior parte dos baixos desejos, de tal modo que, quando um homem recobra sua consciência no plano astral, muito de seu labor já está feito, por haverem sido consumidas e alijadas de si as partículas que pertenciam aos níveis inferiores. Já a vítima de morte repentina, conservando um corpo astral muito mais forte, carregado daquelas partículas com as quais terá de se haver, poderá prolongar um pouco mais sua residência nos subplanos inferiores do mundo astral. Por outro lado, se ele aprende a fazer bom uso daquela Vida, pode gerar muito melhor carma do que teria sido capaz de criar em igual tempo no plano físico.

Ademais, quando sentimentos de terror e agitação mental precedem a morte, comumente os mesmos persistem depois dela, o que não é uma preparação favorável para a vida astral. Em nossa atual etapa de evolução, frequentemente de noite passamos muito tempo considerando e reconsiderando o último pensamento claro e preciso que ocupou nossa mente, antes de nos entregarmos ao sono. Da mesma maneira, é importante o último pensamento presente na mente antes da morte, especialmente tratando-se de uma pessoa de pouco desenvolvimento, cuja consciência astral seja vaga e caótica, já que seu último pensamento ocupará sua mente por longo tempo e, até certo ponto, estabelecerá a chave que dará o tom à grande parte de sua vida astral. Por isso, valeria a pena cuidar para que tal pensamento fosse de um bom tipo, o que não é possível no caso de uma morte súbita. Naturalmente, tratando-se de gente regularmente desenvolvida e inteligente, a atitude costumeira de sua mente, a tendência geral de seus pensamentos durante a vida terrestre, daria o tom ao seu provável trabalho durante a vida astral, e a ideia particular que ocupasse seu pensamento, no momento da transição de um estado a outro, não significaria muito.

PERGUNTA: Existem outros habitantes no mundo astral além dos mortos?

RESPOSTA: O mundo astral é habitado não só pelos mortos, mas também por uma terça parte dos vivos, que temporariamente deixaram seus corpos físicos durante o sono. Como a matéria astral é muito plástica sob a influência do pensamento, um homem no mundo astral parece semelhante a si mesmo, usando os trajes nos quais pensa. Igualmente, é ali o lugar de residência dos Adeptos e Seus discípulos; de pessoas que se desenvolveram psiquicamente sem a orientação de um Mestre; e de magos negros e seus alunos.

Naquele mundo encontra-se, também, um grande número de seres humanos de outro tipo, sem corpos físicos; alguns muito acima do nível humano, como os Nirmanakayas; os discípulos dos Mestres à espera de reencarnação, etc. Além desses, há outros de nível abaixo, como os despojos astrais e os cascões dos mortos; os cascões vitalizados para a Magia Negra; os magos negros mortos e os discípulos deles, etc.

Residem nesse plano, ademais, seres não humanos, como a essência elemental de nossa evolução, e os corpos astrais dos animais; e grande parte da população do mundo astral é formada de espíritos da natureza, de várias classes, que se chamam fadas, duendes, gnomos, faunos, sátiros, espíritos chocarreiros, etc., os quais têm uma linha diferente de evolução e geralmente usam uma forma diminuta; assim como, também, Devas ou Anjos muito mais adiantados na evolução que o homem. Essa é, igualmente, a residência de entidades artificiais, os elementais inconscientemente formados por homens comuns e conscientemente formados por Adeptos e magos negros; bem como de elementais artificiais humanos empregados nas sessões espíritas.

Portanto, nós não somos os únicos nem os principais habitantes do mundo astral, já que tal mundo está povoado em sua maior parte por seres pertencentes a outras linhas de evolução, que correm paralelamente à nossa, e os quais, embora passem por um nível correspondente ao da nossa humanidade, não passam jamais pela humanidade.

Normalmente os sentidos dos habitantes do mundo astral são capazes de responder tão somente às ondulações de seu próprio mundo. Um homem que vive no mundo físico vê, ouve e sente por meio de vibrações conectadas com a matéria física ao redor de si. Igualmente acha-se rodeado pelos mundos astral, elemental e outros que interpenetram seu próprio mundo mais denso, mas normalmente não é consciente deles porque seus sentidos não podem responder às oscilações daquela matéria, assim como nossos olhos físicos não podem responder às vibrações da luz ultravioleta. Um ser que viva no mundo astral poderá estar ocupando o mesmo espaço que um ser vivo no mundo físico; entretanto cada um será inteiramente inconsciente do outro e não impedirá, de maneira alguma, seus livres movimentos. E isso também é verdade com relação a outros mundos. Estamos continuamente rodeados pelos mundos de matéria mais fina, que se acham tão próximos de nós como este mundo que vemos, e seus habitantes estão passando através de nós e perto de nós, porém não nos damos conta disso.

PERGUNTA: O que acontece com o cadáver astral logo que um ser passa para o Devachan (céu)?

RESPOSTA: Na hora de morrer, o homem separa-se completamente de seu corpo físico, mas um ser ordinário identifica-se estreitamente com seus baixos desejos durante a vida e permite a seu Manas inferior enredar-se de tal maneira com Kama, que o Ego, não obstante toda sua força de arranque, não pode se separar completamente dele. E assim, quando finalmente o homem descarta seu corpo astral em parte desintegrado, deixa atrás de si uma porção de Manas aprisionada e envolta no corpo de desejos. Essa entidade fragmentária, que se denomina “sombra”, tem certa vitalidade e, como se move livremente no mundo astral, com suas recordações passadas, consciência fragmentária e tendência a repetir automaticamente vibrações familiares de amor, desejos e pensamentos, sem inteligência, é confundida frequentemente com o próprio homem em sessões espíritas de gente ignorante.

Numa etapa ulterior (em poucas horas, ou em poucos meses ou anos, de acordo com o caráter espiritual do Ego que tenha passado ao mundo celestial), a consciência fragmentária morre no corpo astral e se afasta dele, embora não retornando ao Ego ao qual pertenceu, e então o cadáver astral, sem reminiscência alguma de sua vida passada, denominado agora um “cascão”, desintegra-se lentamente no mundo astral, conforme ocorreu com o corpo físico em seu próprio mundo.

PERGUNTA: O que ocorre com o ser que passa ao Devachan?

RESPOSTA: O Devachan (a residência dos Devas, ou seja, o lugar de luz ou de bem-aventurança) é uma parte do mundo especialmente resguardada e na qual, pela ação de certos Devas, ou Deuses, não se permite a existência de males ou pesares.

Realmente não é um lugar, mas um estado de consciência, e se encontra aqui, ao redor de nós, a todo o momento, tão próximo quanto o ar que respiramos.

Depois de sua segunda morte, dessa vez no mundo astral, o homem desperta para uma nova glória de vida e de cor, e vive no radiante corpo mental, no mundo celeste. Gradualmente é tomado por um sentimento de inefável júbilo e indescritível bem-aventurança; as mais delicadas melodias sussurram ao seu redor, seu ser acha-se inundado de luz e resplandecem, através de uma neblina dourada, os rostos de seus entes queridos na Terra.

Durante a vida terrestre, cada ser ordinário acha-se rodeado por uma massa de formas mentais que representam os interesses capitais de sua vida e que se fortalecem cada vez mais, permanecendo com ele mesmo depois da morte. A força das formas mentais Egoístas, sejam elas de cólera, ambição, orgulho, avareza, glutonaria, embriaguez, sensualidade, etc., vertem-se na matéria astral e se esgotam no mundo astral, quando o homem está calcinando aquela parte inferior de sua natureza durante a vida purgatória. Seus pensamentos altruístas, porém, sejam eles puramente intelectuais ou de natureza compassiva, terna, devota, ou amorosa, etc., pertencem a seu corpo mental, e os leva consigo ao Devachan, pois somente mediante tais pensamentos refinados poderá apreciar o mundo celestial.

Agora, seu corpo mental é um veículo que ainda não se acha totalmente desenvolvido, como já está o astral, o que o afasta do mundo mental ao redor de si, em lugar de capacitá-lo para vê-lo, embora se encontrem em plena atividade aquelas partes de seu corpo mental que usou de maneira altruísta durante sua vida terrestre. Os pensamentos elevados, refinados e nobres, as aspirações não Egoístas que ele gerou durante sua vida terrestre, agrupam-se então em volta dele, formando ao redor de si uma espécie de cascão, mediante o qual pode responder a certos tipos de vibração na refinada matéria do mundo mental.

Esses pensamentos que o rodeiam são os poderes mediante os quais se dá conta da riqueza do mundo celeste, e não obstante tal mundo seja um reservatório de extensão infinita (toda glória e toda beleza concebíveis), ele pode aproveitá-las exatamente de acordo com sua capacidade de pensar sem Egoísmo. Cada uma de tais formas de pensamento é uma janela através da qual observa, a partir de seu corpo mental, a glória e a beleza do mundo mental. Se ele teve especial inclinação para as coisas físicas durante sua vida terrena, apenas contará com umas poucas janelas pelas quais a glória superior poderá brilhar perto dele. Uma alma inteiramente não Egoísta, e altamente evoluída, é toda janelas, tem plena consciência e pode mover-se em seu veículo mental tão livremente quanto o homem comum emprega seu corpo físico, e por meio daquele inspeciona vastos campos de conhecimento que se estendem diante de si. Entretanto, cada homem pode ter tido algum toque de sentimento puro, não Egoísta, mesmo que tenha sido uma só vez em toda sua vida, que poderá ser agora uma “janela” para ele. Todo ser, excetuando-se um homem em suas primeiras etapas, terá com certeza algo dessa maravilhosa vida de bem-aventurança. Em vez de algumas “almas” irem ao céu e outras ao inferno, a maior parte tem tanto uma etapa de purgatório como uma etapa de céu, que diferem somente em suas proporções relativas.

Pensar pensamentos amorosos ou nobres, apreciar obra prima literária ou adorável obra de arte no mundo físico, é abrir uma janela no mundo celestial; acostumar-se a pensamentos elevados e altruístas é manter aquela janela sempre aberta. Porém, a condição de um homem no mundo celestial é principalmente recetiva, e sua visão de algo fora de sua própria concha de pensamentos é muito limitada; não pode ele construir novas janelas ao longo de novas linhas de atividade se não teve interesse nestas durante sua vida física. Os pensamentos superiores podem seguir muitas direções, algumas delas pessoais, como o afeto por uma pessoa ou a devoção a uma deidade pessoal, e outras delas impessoais, como a arte, a música e a filosofia. Um ser, cujo interesse tenha girado ao redor de certas linhas, encontra prazer incomensurável e instrução ilimitada, isto é, a quantidade de júbilo e de conhecimentos ficará limitada tão somente por seu poder de perceção. Assim como um trabalhador que regressa ao lar com seu salário do dia, o homem extrai do Devachan tanto quanto tenha se preparado para obter por seus esforços durante a vida terrena.

Nesse plano existe a infinita plenitude da Mente Divina, aberta em todo seu ilimitado influxo para todas as almas, justamente na proporção em que cada alma tiver se qualificado para receber. É um mundo cujo poder de resposta às aspirações do homem está limitado apenas pela capacidade deste para aspirar. No Oriente se diz que cada ser traz consigo sua própria taça; que algumas são grandes e outras pequenas; mas que cada taça, grande ou pequena, será enchida até o máximo de sua capacidade. Aquele oceano de bem-aventurança contém muito mais do que o necessário para todos.

PERGUNTA: As pessoas não têm a mesma classe de céu, ou a mesma intensidade de bem-aventurança nele?

RESPOSTA: As imagens mentais (ou formas de pensamento) não Egoístas, que tenham existido como sementes no corpo mental, começam a manifestar-se como árvores no Devachan. Quando um homem tiver formado muitas imagens mentais, seja por sua aspiração ou conhecimento, ou por desejo altruísta de ajudar a humanidade (por mais que tais imaginações tenham sido consideradas no mundo como castelos no ar), vão materializar-se na matéria mais fina do mundo mental, e o homem vai encontrar-se fazendo cada coisa de acordo com seus desejos.

Sendo a matéria astral mais sutil que a matéria física, os pensamentos são coisas no mundo mental ou celestial e, através do poder do pensamento, cada um cria nos céus seu próprio mundo de acordo com seus desejos. Tal como são os pensamentos de um homem, assim é seu Devachan, e como não são iguais os pensamentos nem de duas pessoas, seus céus devem ser, por conseguinte, diferentes. Todavia, como cada um encontra-se ali, a cada momento, exatamente de acordo com seu desejo, todos são extremamente felizes, embora desfrutando de grau diferente de felicidade.

Além do mais, se os gozos celestes fossem tão só de um tipo particular, como sustentam as teorias ortodoxas, sempre haveria alguns que logo se cansariam devido à sua falta de habilidade para participar dessas alegrias, fosse por não encontrar prazer em certa felicidade particular, ou por falta da educação necessária.

E assim, o céu de um homem não pode ser imposto a todos os demais, do mesmo modo que um indivíduo do interior não pode se sentir feliz no ambiente glorioso de um artista, pois o que proporciona felicidade a um pode não oferecer o mesmo a outro. O fato é que cada um cria seu próprio céu por suas formas de pensamento, pela seleção que faz nos esplendores inefáveis do pensamento do Próprio Deus. Pelas causas que ele mesmo engendrou durante sua vida terrena, decide para si mesmo tanto a duração como o caráter de sua vida celeste. Portanto, terá exatamente a quantidade que tiver merecido, e exatamente a qualidade de alegria que esteja mais de acordo com suas idiossincrasias. Eis aí o único arranjo imaginável que pode fazer feliz a cada um, até o máximo de sua capacidade para sê-lo.

PERGUNTA: O que acontece às crianças no mundo celeste?

RESPOSTA: De todos os que entram naquele mundo, as crianças são as mais felizes e as que se sentem completamente em casa. Não perdem seus pais, irmãos, irmãs, nem os companheiros de brincadeiras aos quais amavam; simplesmente os têm perto de si para brincar com eles durante o que nós chamamos noite, em lugar do dia, de tal sorte que não se ressentem nem de perda nem de separação. Durante “nosso” dia jamais são deixadas sozinhas, pois naquele mundo, assim como neste, as crianças se reúnem, brincam entre si, divertem-se numa espécie de Campos Elíseos, cheios de atrações raras e estão sempre em júbilo e, amiúde, turbulentamente felizes.

Mesmo aquelas crianças cujos pensamentos naturalmente se voltam mais para assuntos religiosos, nunca deixam de encontrar o que anseiam. Pois existem os anjos e os santos de antigamente, e não são meramente fantasias piedosas; e os que creem neles e deles necessitam são infalivelmente atraídos para eles, encontrando-os mais gloriosos e benignos do que sonharam na imaginação. E mesmo aqueles que houverem de encontrar o Próprio Deus (Deus em forma material), não ficarão contrariados; pois Instrutores gentilíssimos e muito bondosos explicam-lhes que todas as formas são formas de Deus, já que Ele se encontra por toda parte, e os que sirvam e ajudem a mais ínfima de suas criaturas verdadeiramente estão servindo e ajudando a Ele. Como as crianças gostam de ser úteis, naqueles mundos superiores abre-se diante delas um vasto campo de ajuda e bem-estar em suas ações de misericórdia e amor para com os ignorantes.

Não devemos temer pelas pequenas criaturas que ainda forem incapazes de brincar, pois muitas mães defuntas esperam ali para atraí-las amorosamente até seu seio, para recebê-las e amá-las como se fossem seus próprios filhos. Geralmente tais criaturas descansam no mundo espiritual por muito pouco tempo, conforme já se disse antes, e retornam novamente à Terra para serem, muito amiúde, filhos do mesmo pai e da mesma mãe.

PERGUNTA: Como encontraremos nossos amigos e seres queridos no mundo celeste?

RESPOSTA: Se um ser ama a outro com amor profundo e altruísta, cria uma vigorosa forma-pensamento ou imagem mental daquele amigo ou parente, e naturalmente leva consigo aquela imagem ao mundo celeste, já que esse amor, em virtude de sua falta de Egoísmo, pertence ao respectivo nível de matéria. A força de tal amor é suficientemente poderosa para atuar sobre o Ego do amigo, na parte superior de seu corpo mental, porque é o Ego ou a alma, e não o corpo físico, o que o ser amou com amor puro. Agora, o Ego do ser amado, sentindo aquela vibração, responde subitamente a ela, e se infunde a si mesmo naquela forma-pensamento criada pelo residente do Devachan. E assim, o amigo daquele ser acha-se, real e vividamente, diante dele, e não importa que esteja vivo ou morto, pois o chamado se faz não ao fragmento do amigo, que muitas vezes está prisioneiro num corpo físico, mas ao Ego, que pode responder simultaneamente aos afetos de uma centena de amigos, já que nenhuma quantidade de manifestações num nível inferior pode esgotar a plenitude do Ego, assim como nenhuma quantidade de linhas pode fazer um quadrado, ou nenhum número de quadrados um cubo.

Por conseguinte, no mundo celestial cada ser terá ao redor de si todos os amigos e parentes que desejar, e estes se apresentarão sempre sob seu melhor aspeto, já que se acham duas etapas mais próximas da realidade do que quando habitaram nas limitações do corpo físico.

Essa mesma observação vale quando se trata de um homem cuja inspiração tiver sido a devoção a uma deidade pessoal; a deidade estará sempre presente ante o morto, muito mais vividamente do que no plano físico.

PERGUNTA: Acaso um morto, no céu, pode observar e esperar seus amigos e entes queridos que estejam na Terra?

RESPOSTA: Não. Como poderia um morto ser feliz no céu se olhasse para a Terra e visse que os seres a quem ama estão cheios de pesares ou cometendo algum pecado; ou, por exemplo, se sua mulher estivesse desesperada pela perda dele, ou o que seria ainda pior, se ela tivesse se casado imediatamente com outro?

Tratando-se do esperar, não melhora muito o caso, pois ele teria um longo e cansativo período de espera, que às vezes se estenderia por anos, podendo acontecer de o amigo chegar tão mudado que não seria agradável sua companhia. Porém, de acordo com a ordem natural, todas essas dificuldades são evitadas, e aqueles a quem o morto amava encontram-se sempre com ele e sob seu aspeto mais nobre e melhor, já que não pode acontecer nenhuma mudança, ou discórdia, entre eles, porque ele recebe de Deus, o tempo todo, exatamente o que espera.

PERGUNTA: Se uma alma passa tanto tempo no Devachan entre duas encarnações, quais são suas oportunidades de desenvolvimento durante esta permanência?

RESPOSTA:

I. Por causa das qualidades que desenvolveu em si, tal ser abriu as correspondentes “janelas” no mundo celestial, e pelo exercício continuado dessas qualidades durante longo tempo, as reforçará sobremaneira e voltará à Terra ricamente equipado. Como os pensamentos se intensificam pelo uso reiterado, um homem que tiver empregado centenas de anos em verter afeto desinteressado saberá, certamente, amar mais e melhor. A vida no Devachan é de assimilação e as formas pensamento das aspirações ou de experiências mentais e morais, acumuladas na Terra, são entretecidas no caráter da alma como faculdades mentais e morais, e vêm a ser os poderes e as qualidades, as capacidades e as tendências para sua próxima vida sobre a Terra.

II. Devido às suas aspirações, se porá em contato com alguma das grandes hierarquias de espíritos e aprenderá muito. Por exemplo, dos Gandharvas, uma grande Ordem Angélica que se dedica especialmente à música, poderá aprender combinações novas e maravilhosas de tons musicais.

III. Obterá informação adicional e maior instrução mediante as imagens mentais feitas por outros, se estes estiverem suficientemente desenvolvidos para instruí-lo. Alguém que estiver diante de uma forte imagem do Mestre, obterá por intermédio dela ensinamento e ajuda precisos.

PERGUNTA: Existem sete classes diferentes de céus como geralmente se crê, e passa um ser através de todas elas sucessivamente, conforme ocorre no plano astral?

RESPOSTA: Conforme já se explicou no Capítulo II, existem sete subdivisões no mundo mental, assim como no astral. As três superiores, os níveis Arupa Loka ou “Sem Forma”, são a residência do Ego no corpo causal, enquanto que os quatro níveis inferiores, os Rupa Loka, formam o céu onde os seres passam sua vida celestial no corpo mental. Como no corpo mental nada existe que corresponda à redistribuição da matéria astral, um ser não passa através das sucessivas etapas ou regiões do mundo celestial uma após a outra, como ocorre no mundo astral, mas é atraído até o nível que corresponda mais intimamente ao grau de seu desenvolvimento, e passa ali toda sua vida no corpo mental.

A característica dominante da subdivisão inferior, ou seja, a sétima, é o afeto não Egoísta pela família, pois toda tintura de Egoísmo precisa ser esgotada no plano astral. A sexta tem a característica da devoção religiosa antropomórfica, enquanto que a quinta tem a característica da devoção que se expressa a si mesma em trabalho de qualquer classe. Todas essas três subdivisões se referem à ação própria de uma devoção a personalidades, sejam elas família, amigos ou deidade pessoal.

A quarta subdivisão tem como nota dominante a mais extensa devoção pela humanidade, que inclui aquelas atividades relacionadas com propósitos altruístas, de conhecimento espiritual, alta filosofia ou pensamento científico, habilidade artística ou literária desprovida de Egoísmo, e em geral o serviço por amor ao serviço.

Ao final da vida celeste, que dura diferentes períodos, conforme se explicou no Capítulo IV, chega a vez do corpo mental ser descartado como sucedeu a outros, e começa então a vida do homem no corpo causal.

PERGUNTA: O que acontece ao homem no céu superior, nos três subplanos mais elevados do mundo mental, quando se encontra em seu corpo causal, já terminada sua vida celestial no mundo mental inferior?

RESPOSTA: Todas as faculdades mentais que se expressam nos níveis inferiores são atraídas para o corpo causal, com todos os gérmens de vida passional que se infundiram no corpo mental, procedentes do astral quando do abandono do cascão astral. Terminada uma ronda de sua peregrinação, o Pensador reside por algum tempo em sua própria pátria nativa; a alma aqui não necessita de “janelas”, pois todas as paredes se desvaneceram; porém, como a maioria dos homens tem tão somente uma obscura consciência de seus arredores nestas alturas, descansam ali por um período curto de tempo, apenas conscientes, mas assimilando os pequenos resultados da última vida terrestre.

Entretanto, se o homem já está desenvolvido, sua vida no nível Arupa é muito mais longa, rica e intensa, já que seu corpo causal cresce e se organiza melhor; e ele retorna à vida terrestre com um conhecimento maior e com um poder mais efetivo para ajudar a si mesmo e aos demais. No subplano mais elevado vivem os Mestres e Adeptos e seus Discípulos mais adiantados; no imediatamente inferior, as almas cuja evolução superior é testemunhada por sua cultura interna e seu refinamento natural quando vivem em corpos terrestres; e no terceiro subplano a vasta maioria dos 60 bilhões de almas, de que antes se falou, que formam a massa de nossa ainda atrasada humanidade.

A duração da estada de um ser no mundo mental superior depende de sua etapa evolutiva, assim como de seu profundo pensar e nobre viver durante a vida terrena, de acordo com o descrito no Capítulo IV.

Todavia, para todo homem, por menos que tenha progredido, advém um momento de clara visão antes de seu retorno à Terra, e ele vê sua vida passada com as causas que terão de ser trabalhadas no futuro, e, olhando para o porvir, vê também sua próxima encarnação, que o espera com possibilidades e oportunidades. Então as nuvens da matéria se fecham sobre ele e obscurecem sua visão, e principia um novo ciclo de encarnação, com o despertar dos poderes da mente inferior através de Tanha, a sede cega pela vida manifestada, conforme foi explicado no Capítulo IV ao se falar de reencarnação.