Herbicida usado na sojicultura contamina vinhedos e outras plantações e deixa o agronegócio em pé de guerra no Rio Grande do Sul

Desde que a propriedade do vitivinicultor gaúcho Jeferson Chequim Guerra foi invadida por uma nuvem química, seu vinhedo virou um cemitério de parreiras. Na última safra, a colheita encolheu de 80 toneladas para apenas 10 toneladas de uvas. A causa mortis foi um herbicida hormonal, popularmente conhecido como 2,4-D. Historicamente, os embates no campo costumavam colocar em posições opostas sem-terra e ruralistas. Hoje, no Rio Grande do Sul, não mais. O agrotóxico que infectou as parreiras de Chequim provocou o ineditismo de empurrar o conflito para dentro da porteira. O uso intensivo do produto na lavoura de soja transformou a principal cultura agrícola do estado em inimigo comum. Contra ela, uma miríade de pequenos, médios e grandes produtores de uva, maça e azeitona. Como o 2,4-D tem uma atração fatal por folhas grandes, a erva-mate entrou na rota do herbicida, comprometendo um dos símbolos máximos da cultura gaúcha: o chimarrão.

“A vitivinicultura gaúcha perdeu R$ 100 milhões na safra passada”, calcula Oscar Ló, presidente do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin). Incontrolável e imprevisível, devido a soma e combinação de fatores como vento e umidade do ar, o 2,4-D voa longe, muito longe. O herbicida pode percorrer até 20km de distância. Os primeiros sintomas da contaminação foram detectados no município de Jaguari, justamente onde está o parreiral de Chequim. Lá se vão sete anos. Pulverizado na lavoura de soja para controlar erva daninha, o 2,4-D, por ser volátil, evapora, e sai contaminando a  vizinhança. A deriva do 2,4-D chegou a Bagé, Candiota, Dom Pedrito e Santana do Livramento, entre outros municípios. “Todos foram atingidos pelo herbicida, dos pequenos vinhedos as grandes vinícolas, como a da Almadén, do grupo Miolo, e os espumantes da Chandon”, conta Clori Peruzzo, presidente da Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha.

Há uma década, o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Mas é a primeira vez que se comprova, no país, o nexo causal na saúde do meio ambiente. Laudos laboratoriais atestaram a morte dos vinhedos provocada pela deriva do ácido dioclorofenóxiacético, originalmente aplicado na lavoura de soja. Das 53 amostras colhidas pela Secretaria Estadual da Agricultura do Rio Grande do Sul, no ano passado, 90% deram resultado positivo para o 2,4-D. As maiores perdas foram registradas nas uvas brancas, como a Chardonnay, base para espumantes. A queda na safra foi de 60%. Nas castas de uvas tintas, do tipo  Tempranillo, o prejuízo também foi grande, mas um pouco menor: de 40%.

A engenheira agrônomo Gabriela Pötter, diretora da Guatambu Estância do Vinho, garante que “o vinho não está contaminado”: o 2,4-D é aplicado entre setembro e outubro, período em que os cachos das parreiras ainda não nasceram. Mesmo nas folhas, o resíduo do 2,4-D é rapidamente metabolizado, desaparecendo após sete dias – motivo pelo qual demorou-se a constatar laboratorialmente a contaminação. A briga da vitivinicultura gaúcha, e seus aliados,  com a sojicultura, envolve o estado responsável por 80% dos vinhos produzidos no país contra o terceiro maior produtor nacional de soja – o Rio Grande do Sul só perde para o Mato Grosso e Paraná.

Gulosa como ela só, a lavoura de soja consome a metade do volume de veneno aplicado no campo. O principal deles é o glifosato, que, em meados do ano passado, foi comprovado ser cancerígeno por um juri da Califórnia. A multinacional Monsanto foi declarada culpada numa condenação em 1ª instância nos Estados Unidos. Por aqui, a indústria de agroquímicos conta com um aliado de peso. Nos  primeiros 100 dias do mandato do presidente Jair Bolsonaro, o Ministério da Agricultura aprovou o registro de 152 agrotóxicos. Outros 322 estão na lista para serem avaliados. Cada vez mais permissiva, a agricultura brasileira vem consumindo agrotóxicos já banidos em outros países. É o caso do 2,4-D. O produto é proibido na Austrália e no Canadá.

Por conta da deriva do 2,4-D, o Rio Grande do Sul vem protagonizando uma briga, que, por falta de consenso, foi parar na Justiça. O impasse levou o Ministério Público Estadual (MP) a abrir um inquérito civil para apurar os prejuízos causados na fruticultura local. Dez audiências públicas depois, o impasse continua. Em abril último, o promotor de Justiça do Meio Ambiente, Alexandre Saltz, estipulou um período de um mês para os produtores de soja do estado se explicarem. O prazo terminou em 23 de maio. Nada foi resolvido. Mais uma reunião marcada, desta vez para o dia 31 de maio, onde, mais uma vez, os representantes da indústria de defensivos serão ouvidos. “É uma situação, juridicamente falando, extremamente complexa”, comenta Saltz, admitindo que, independentemente da decisão que venha a ser tomada, os dois lados sofrerão impacto.

A pressão para a suspensão do uso do produto na lavoura de soja do Rio Grande do Sul, ainda que de forma temporária, cresceu, à medida que o veneno foi se espalhando por diferentes culturas agrícolas do estado. Com o apoio de entidades ligadas ao agronegócio, os sojicultores uniram forças em defesa do herbicida e criaram a Iniciativa 2,4-D – a quem cabe defender o produto em nome dos usuários do herbicida.

Na última audiência pública realizada na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, em 16 de maio, uma frente suprapartidária defendia a suspensão imediata do uso do produto na lavoura de soja. À mesa, o deputado estadual Edegar Pretto (PT) e o deputado federal Afonso Hamm (PP) faziam dobradinha em prol da diversificação da produção agrícola do estado e contra o uso do 2,4-D na lavoura de soja. A convivência pacífica entre diferentes culturas agrícolas no estado parece ter virado coisa do passado, assim como divergências ideológicas até, então, consideradas intransponíveis. Pretto é filho de Adão Pretto, um dos fundadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Rio Grande do Sul, e seu herdeiro político no estado; Hamm é membro da Frente Parlamentar da Agropecuária, o braço mais visível da bancada ruralista, e autor do projeto de lei que flexibiliza o porte de arma. Os dois sempre estiveram em campos opostos na disputa política do estado, mas o prejuízo causado à vitivinicultura promoveu uma parceria, que, até então, parecia impossível. Em suas terras, Hamm cultiva uvas há duas décadas, e, como todos os vitivinicultores gaúcho, vem amargando prejuízo.

“A suspensão do 2,4-D é sinal de obscurantismo”, contra-atacou Domingos Lopes, vice-presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul). Enquanto a audiência avançava manhã adentro no Palácio Farroupilhas, no centro da capital gaúcha, o presidente da Farsul, Gedeão Pereira, embarcava num avião rumo a China. O país é o maior comprador mundial da soja brasileira, tendo importado, em 2018, 43 milhões de toneladas do produto. Ele viajava em companhia da ministra da Agricultura, Tereza Cristina: os dois saíram do país com a missão de aumentar as vendas para lá, apostando que o Brasil só tem a ganhar com a guerra comercial entre os chineses e os americanos. A viagem de Gedeão, justamente no dia da última audiência promovida pelo MP, foi interpretada pelos fruticultores gaúchos como um sinal claro de que a entidade escolheu um lado na guerra particular do Rio Grande do Sul.

Depois de muita gritaria, a Farsul reconheceu que a deriva do herbicida atingiu culturas vizinhas às lavouras de soja no estado. A entidade, no entanto, garante que é “impossível colher uma safra de soja sem o 2,4-D”. A afirmação é uma meia verdade. Evidências científicas comprovam que bastaria mudar o tipo de manejo e substituir o produto. Entre os que defendem a suspensão imediata do uso do herbicida, a justificativa para a relutância dos sojicultores é financeira. A substituição do 2,4-D acarretaria um aumento de custo equivalente a uma saca de soja por hectare plantado.

“O uso do 2,4-D é uma afronta à legislação brasileira”, denuncia Norton Sampaio, professor da Unipampa. Ele chegou à audiência pública munido de notas técnicas da Embrapa e da Fiocruz. O documento da Embrapa afirma que “o uso destes produtos são difíceis de atender nas situações reais da agricultura, em que as inversões térmicas e a ocorrência de ventos acima dos limites recomendados são muito mais a regra do que a exceção”.  A bula do produto diz que o 2,4-D só pode ser aplicado com ventos a 10km/h e umidade do ar abaixo de 55%. Em Dom Pedrito, por exemplo, uma das regiões afetada pelo herbicida, a velocidade média dos ventos é superior a 30km/h, podendo chegar a 100km/h.

Considerado um dos agrotóxicos mais longevos do mundo, o 2,4-D é comercializado desde 1945. Em associação a outro herbicida, deu origem ao “agente laranja”, largamente utilizado na Guerra do Vietnã como arma química pelo Exército dos Estados Unidos. À época, a justificativa dos americanos para o uso de uma arma tão potente era de que não se tratava de uma arma química, mas um herbicida capaz de desfolhar e remover a cobertura do esconderijo dos soldados inimigos. No Rio Grande do Sul, o objetivo dos sojicultores parece ser o mesmo: o soldado inimigo, no caso, é a buva, erva-daninha que compromete a lavoura de soja no período da floração.

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