Recentemente terminei a terceira temporada de Anne With an E, e fiquei me sentindo órfã dessa série! Sim, ela me trouxe muitos ensinamentos maravilhosos sobre ser mulher, sobre as pessoas, sobre tudo. Simplesmente me apaixonei pelas emoções, sensações e nostalgia que Anne me trouxe.

A série canadense Anne With an E, cancelada na terceira temporada, é uma adaptação da série de livros Anne of Green Gables, lançados no começo do último século pela autora Lucy Maud Montgomery. Com milhares de fãs no mundo todo e frases impactantes, a série acompanha a história de uma órfã aventureira e revolucionária que é adotada por engano por um casal de irmãos.

A partir do momento em que a jovem de 13 anos chega em Avonlea para a casa de sua nova família, que na verdade pretendia adotar um menino que os ajudassem com tarefas da fazenda, ela causa grande comoção na vida das pessoas ao seu redor. Mesmo com um passado traumático no sistema de adoção, tendo sido adotada anteriormente por famílias abusivas que acabavam a devolvendo, seu espírito livre trouxe novos ares para o pacato vilarejo.

Texto do site médium por Raphaele Godinho 

1 — Definição de família
Eu particularmente creio que esse seja o ponto principal da série. Logo no primeiro episódio nos deparamos com uma adoção feita por uma dupla de irmãos idosos — Marilla e Matthew Cuthbert — que é amplamente comentada e criticada pelos cidadãos moradores da região de Avonlea. A relação dos personagens com a filha adotiva, Anne, é linda, não há outra palavra que possa descrever. Anne, vítima de abusos físicos e psicológicos, encontra um lar e amor no seio de uma família não convencional. Marilla e Matthew fazem de tudo para se adaptarem a Anne, uma menina que, assim como a própria música tema da série diz “está um século à frente”.
Outra parte importante sobre esse tópico, ao menos para mim, é a relação fraterna entre Gilbert e Bash na segunda temporada (eu prometo não soltar spoilers sobre isso, inclusive) que mostra ao público outra concepção não convencional de família.

2 — História
Fico em cólicas quando ouço algumas mulheres hoje em dia dizendo que “não devem seus direitos ao feminismo”, e bem, Anne With an E nos mostra justamente o contrário. Mulheres que tiveram a ousadia de pensarem fora da caixinha foram mais do que responsáveis pela criação e fortificação internacional dos direitos das mulheres. Desde as “Mães (quase) Progressistas” da primeira temporada, até a professora feminista da segunda, a série nos lembra constantemente que as mulheres do passado sofreram as mais diversas humilhações e sanções para que hoje possamos fazer coisas simples como ir à faculdade.

3 — Bullying
Outra pauta importantíssima abordada por Anne é o bullying. A protagonista passa por maus bocados ao chegar em Green Gables, e pasmem, não só as crianças praticam tais atrocidades. Inspirados por seus pais, diversos personagens replicam os comportamentos preconceituosos. O sofrimento de Anne abre um debate muito relevante para os dias atuais: não podemos aceitar abusos disfarçados de brincadeira!

4 — He for She
A campanha He For She (Eles por Elas) foi criada em 2014 pela ONU, e tem como uma de suas maiores representantes a atriz Emma Watson. A iniciativa visa fazer com os homens ajudem o mundo a ser feminista, por meio da conscientização sobre o comportamento machista e o combate ao mesmo. Durante a série, eu lembrei muito dessa campanha. Enquanto personagens como Billy Andrews não se esforçam para mudar o comportamento sexista, outros como Gilbert Blythe pensam mais criticamente sobre o assunto, mesmo que de maneira indireta. O comportamento não só de Gilbert, mas de outros personagens masculinos (como o próprio Matthew, pai de Anne) mudam com o tempo por iniciativa própria.

5 — Adaptação maravilhosa
Li Anne de Green Gables em 2014 e confesso que na época muitos acontecimentos do enredo me chatearam. Apesar de ser uma história fascinante, escrita por uma mulher em pleno final de século XIX, ainda é uma obra que carrega consigo os preconceitos e dogmas de sua época. A série preserva muitos fatores de maneira exemplar e muda outros radicalmente para que a trama se torne aceitável aos olhos do público de 2018. Os comportamentos sexistas de personagens como a própria Anne não são mantidos pelo texto da maravilhosa Moira Walley-Backet, o que fez com que muitos telespectadores — como eu mesma — se identificassem com os personagens e com a história, coisa que não ocorreria tão facilmente com o texto original.

6 — Feminismo
Há mais mulheres tanto no elenco quanto na produção de Anne With an E e isso por si só já é fantástico, visto que as mulheres ainda são minoria na área cinematográfica. Além disso, o tema da igualdade entre homens e mulheres é frequente, sendo abordado em quase todos os episódios da série. As personagens são empoderadas ao longo do desenvolvimento da história e mudam suas perspectivas de vida radicalmente. Antes fadadas unicamente ao casamento e a vida de donas de casa, agora as meninas da Ilha do Príncipe Eduardo pensam em ir à faculdade.

7 — LGBT
O tema da LGBT é abordado de maneira belíssima pelo texto de Moira. Com foco nos personagens de Tia Josephine e Cole, a série fala sobre os desafios enfrentados por aqueles que, em pleno século XX precisavam se esconder para terem a “liberdade” de amar quem quiserem. A abordagem é uma ótima resposta aos comentários tecidos até hoje pelos diversos users de redes sociais, que alegam que “Na minha época não tinha isso” ou “Nunca existiu homofobia” ou até mesmo “Vocês estão atrás é de privilégio gay”. Só de pensar em quantas Tia Josephines e quantos Coles não precisam mais se esconder ou se deixarem abater “pela lei”…

8 — Exposição do racismo
O personagem Bash é alvo de racismo assim que chega ao Canadá e Gilbert tem contato com a escravidão e com o privilégio branco. A série faz duras críticas a um passado marcado pela escravidão e a um presente que ainda cultiva o racismo contra a população negra em todo o mundo. Essa abordagem é feita de maneira secundária e um pouco superficial, mas ainda assim existe e é bastante impactante.

9 — Filosofia
Os ensinamentos passados durante todos os episódios da série são revigorantes e sempre nos estimulam a cultivar empatia e a pensar com positividade. Dá uma olhada nessas frases lindíssimas:
“A honestidade é a melhor política e também muito satisfatória.”
“Às vezes, é preciso deixar as pessoas amarem você.”
“Deixe suas ambições e aspirações guiarem você.”
10 — Imaginação
Finalmente, a cereja do bolo: se tem uma coisa que Anne nos ensina a fazer constantemente, é a usar nossa imaginação! O tempo todo a personagem usa esse recurso independentemente da situação na qual ela e sua família se encontram. Imaginar pode ser ótimo para liberar tudo de bom que tem dentro de sua mente.

FONTE

Anne está longe de ser a única personagem peculiar da trama, que inspira reflexões muito atuais sobre temas delicados como sexismo, homofobia e racismo, entre outros assuntos. Relembre algumas das frases mais impactantes da série:

“Não é o que o mundo reserva pra você, mas o que você traz para o mundo.”

“Você tem uma vida de muita alegria pela frente. Não sem momentos difíceis e tropeços na estrada. Fique seguro com aqueles em quem confia.”

“A melhor parte de conhecer as regras é encontrar uma maneira aceitável de quebrá-las”. 

“Nós, mulheres, poderosas e sagradas, declaramos nesta noite santificada que nossos corpos divinos pertencem a nós mesmas. Escolheremos a quem amar e em quem confiar. Caminharemos nesta Terra com graça e respeito. Sempre teremos orgulho do nosso grande intelecto. Honraremos nossas emoções para que nossos espíritos triunfem. E se algum homem nos desmerecer, mostraremos onde fica a porta. Indestrutível é a nossa força. E livre é a nossa imaginação.”

“Jornalismo de verdade deve defender aqueles que não possuem voz, não calá-los ainda mais.”

“As pessoas enxergam o que desejam, independente da verdade.”