Dos 44 focos identificados, 23 ficam em abatedouros, localizados em 17 cidades

Mais da metade dos surtos de coronavírus investigados no Rio Grande do Sul — 52% do total — estão localizados em frigoríficos. Dos 44 focos identificados até quarta-feira (27), 23 ficam em abatedouros, conforme indica o Informe Epidemiológico divulgado pelo Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs) da Secretaria Estadual da Saúde.

As empresas têm plantas em 17 municípios gaúchos, contabilizam 3,3 mil casos de trabalhadores com sintomas gripais e 842 pessoas com teste positivo para a covid-19. Até o momento, ocorreram quatro óbitos de funcionários e 11 de pessoas que tiveram contato direto com os infectados.

Um surto ocorre quando há a presença de dois ou mais casos de síndrome gripal em um mesmo ambiente fechado, com intervalo de sete dias entre a data de início dos sintomas. No boletim, os focos foram identificados com base em dados disponíveis até 24 de maio. No entanto, o Ministério Público do Trabalho (MPT-RS), que vem monitorando a situação na indústria, indica que a incidência de casos de covid-19 nesses estabelecimentos é ainda maior. A partir da testagem em massa nas empresas, o MPT-RS contabiliza 2,2 mil casos confirmados.

— Um terço dos casos de covid-19 no Estado está em frigoríficos (até quarta-feira o Estado registrava 7 mil casos ao todo) — aponta Priscila Schvarcz, procuradora que coordena o projeto de fiscalização de frigoríficos do MPT-RS.

Priscila aponta que o informe do Cevs ainda não contabiliza casos positivos para covid-19 já relatados pelos municípios, por isso o número de infectados estaria defasado.

Casos de coronavírus em frigoríficos não são exclusividade do Rio Grande do Sul. Em outros Estados e até mesmo em países como Estados Unidos e Alemanha plantas de abates enfrentaram o mesmo problema.

A forma como a atividade está estruturada acaba explicando por que alguns estabelecimentos viraram focos de transmissão. As unidades não possuem ventilação externa, contam com elevada umidade no ambiente e o uso de mão de obra é intensivo principalmente nos setores de aves e suínos, com os profissionais atuando muito próximos uns dos outros na linha de produção.

— Tudo isso é um prato cheio para que haja a disseminação do vírus quando alguém infectado entra neste ambiente — afirma Tani Ranieri, chefe da divisão de vigilância epidemiológica do Cevs.

A avaliação de Tani é de que os surtos em frigoríficos acabaram potencializando a transmissão comunitária em diversos municípios do Interior. Isso porque as empresas costumam mobilizar trabalhadores em diferentes cidades próximas às plantas, transportando-os diariamente para as fábricas.

RS está sem plantas interditadas
Desde o início da crise sanitária, três plantas chegaram a ser totalmente interditadas no Estado: BRF e Minuano, em Lajeado, e JBS, de Passo Fundo. Todas já voltaram às atividades e, no momento, não há frigoríficos parados no Rio Grande do Sul. Até agora, o MPT-RS firmou termos de ajustamento de conduta (TAC) com 13 plantas, instaurou inquéritos civis em 30 unidades e contabiliza três ações civis públicas ajuizadas.

O diretor-executivo da Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav), José Eduardo dos Santos, salienta que o vírus não nasce dentro dos frigoríficos e que as empresas vêm reforçando os protocolos para evitar o contágio. Neste sentido, o executivo considera a judicialização dos casos um “exagero”.

— Mesmo antes da pandemia, o setor já adotava procedimentos de descontaminação e ações de prevenção na área de sanidade para evitar enfermidades do âmbito de saúde animal. Mas fora do âmbito de trabalho, não temos como rastrear todo o percurso das pessoas — constata.

Após os primeiros casos de trabalhadores contaminados, Santos lembra que o sentimento era de pânico no setor. A partir de mudanças nos protocolos de segurança, a avaliação da indústria é de que a situação está sob controle. O dirigente lembra que a produção de alimentos é uma atividade essencial e o fechamento das plantas causa prejuízos significativos, afetando inclusive o ciclo de criação dos animais nas propriedades rurais.

Entre os órgãos de fiscalização, a interdição é encarada como a última alternativa a ser explorada. O procurador-geral do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP), Fabiano Dallazen, aponta que, inicialmente, tentou-se estabelecer diálogo com companhias atingidas. O MP foi o responsável pelo pedido de suspensão das atividades nas unidades da BRF e da Minuano, em Lajeado, no início do mês. A atuação ocorreu pelo entendimento de que os casos em frigoríficos haviam se tornado um problema de saúde pública.

— Tentamos estabelecer negociação por mais de 30 dias com as empresas, sem êxito. Em um primeiro momento, não tivemos adesão àquilo que entendíamos como necessário para diminuir a contaminação — justifica Dallazen.

Há duas semanas, o MP fechou acordo com as duas empresas para a volta das atividades, com 50% da capacidade operacional. Além disso, acertou-se a adoção novos protocolos de segurança nas fábricas e medidas compensatórias, como o pagamento de R$ 1,2 milhão a hospitais do Vale do Taquari.

Número de surtos investigados em frigoríficos no RS
27 de maio – 23
20 de maio – 18
13 de maio -17
6 de maio – 12
29 de abril – 9
Fonte: Cevs/Secretaria Estadual da Saúde

Os casos

A Secretaria Estadual da Saúde identifica 23 surtos em frigoríficos, em 17 municípios: Arroio do Meio, Carlos Barbosa, Caxias do Sul, Encantado, Farroupilha, Garibaldi, Lajeado, Marau, Miraguaí, Nova Araçá, Passo Fundo, Poço das Antas, Seberi, Serafina Corrêa, Tapejara, Três Passos e Trindade do Sul.

Fonte: Gaucha ZH