Candangos e ufólogos acreditam ter visto objetos voadores não identificados no horizonte do Planalto Central. Documentos sigilosos da Defesa registram relatos.

O céu da capital federal tornou-se um dos principais cartões postais da cidade. Basta vasculhar os celulares de candangos e turistas que pisaram em Brasília para ver fotografias do horizonte surgirem em poucos toques nas telas dos aparelhos. Não é à toa que, na terra sonhada por Dom Bosco e concretizada por Juscelino Kubitschek, o céu a perder de vista também seja palco de fenômenos “exóticos”.

Em 1960, um religioso identificado apenas como padre Raimundo registrou por meio de uma câmera “lambe-lambe” um objeto voador não identificado – o chamado óvni – no céu do Núcleo Bandeirante, então conhecido como “Cidade Livre”.

Oito anos mais tarde, Paulo Pinheiro Chagas e Bias Fortes, na época deputados federais, avistaram a 15 quilômetros da capital, na estrada Brasília–Belo Horizonte, uma luz forte, que acreditaram ser um disco voador. O relato da dupla foi divulgado um ano depois, no jornal Diário de Notícias.

“Havia um objeto parado no céu, intensamente luminoso, de forma triangular. Estávamos assim, observando por cerca de quatro minutos, quando o engenho se deslocou na direção da cidade de Goiânia numa velocidade incrível! Nós, então, não tivemos mais dúvida de que vimos um objeto que todos classificam como disco voador”, contou Chagas, à época.

Já em 1982, O Globo noticiou que o então subsecretário-geral do Ministério do Interior – pasta extinta em 1990 –, Luís Carlos Paixão, teria sido “perseguido por objetos voadores”. Na publicação, ele disse que viajava de carro em direção ao Planalto Central, ao lado da família, quando notou a presença de cerca de cinco óvnis “voando em formação”.

De lá para cá, moradores de diferentes regiões administrativas do Distrito Federal – Brazlândia, Gama, Samambaia, Guará, Taguatinga, Paranoá, Sobradinho, asas Norte e Sul – relataram e continuam a relatar luzes, formas e forças “estranhas” no céu de Brasília.

INFORMAÇÕES SIGILOSAS

As transcrições das aparições, classificadas como secretas ou ultrassecretas pelo Ministério da Defesa, começaram a ser disponibilizadas para consulta pública a partir de 2010. A divulgação dos documentos ocorreu como resultado de campanhas da Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU).

Desde a regulamentação da Lei de Acesso à Informação, em maio de 2012, a Defesa havia recebido 107 pedidos de entidades ligadas à ufologia para a publicação dos documentos. Hoje, estão disponíveis no Arquivo Nacional mais de 10 mil páginas, que abarcam relatos de avistamentos e investigações sobre o assunto.

O carioca Thiago Luiz Ticchetti é presidente da CBU, entidade que lutou pela abertura dos arquivos sigilosos. Ele se mudou para Brasília aos 17 anos, em 1994. Na cidade de concreto, conseguiu conectar duas paixões: ufologia e pesquisa científica.

Ticchetti se tornou uma das referências brasileiras no estudo de óvnis – editor da revista UFO, publicação brasileira especializada em Ufologia; e vice-diretor no Brasil da Mutual UFO Network, organização investigativa dos Estados Unidos que estuda objetos voadores não identificados. Ele encontrou em Brasília um terreno fértil para coleta de relatos.

“Brasília não tem prédios altos. Então, a nossa visão do céu é muito mais ampla. Além disso, Brasília é plana, o que facilita a visão do céu.”

Filho de um piloto da aeronáutica, Ticchetti buscava pelas prateleiras de casa livros e revistas sobre discos voadores. Folheando o exemplar “Eram os deuses astronautas”, do escritor suíço Erich Von Däniken – famoso pelas teorias a respeito da influência extraterrestre na cultura humana –, descobriu o interesse pela ufologia.

A curiosidade sobre o tema cresceu ainda mais quando viu um fenômeno estranho ocorrer na Pedra da Gávea, formação rochosa localizada à beira-mar na capital fluminense, em 1982. Na época, ele tinha 8 anos.

“Estava brincando com os meus amigos, era noite e vi uma luz vermelha no céu. Ela surgiu em cima da pedra e foi descendo até o ‘nariz’ da montanha, aquele local onde as pessoas saltam de asa delta. A luz, de repente, desapareceu. Então, fiquei olhando, e a luz surgiu de novo, ficou maior, fez um movimento de pêndulo e desapareceu.”

Objeto luminoso ao lado da superlua fotografado por moradora de Brasília (Lais Maciel/Arquivo pessoal)

Ao chegar ao DF, o ufólogo se deparou com diversos relatos, vídeos e fotos de supostos óvnis que teriam sobrevoado o horizonte candango entre as décadas de 1970 e 1990. Dos cerca de 40 registros recebidos, dois casos chamaram a atenção do pesquisador.

“Não é possível que em um universo em expansão, com bilhões e bilhões de galáxias, não exista outra forma de vida. Um dia, vamos encontrar ou seremos encontrados.”

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