Texto de Gustavo Serrate

Nasci em uma família da igreja evangélica batista. Essa igreja originada nos Estados Unidos é uma das mais tranquilas entre as evangélicas, muito diferente dos cultos berrados das igrejas renovadas. A melhor parte do culto para mim era a musical, quando os corais cantavam os hinos. Especialmente durante eventos como o réveillon, eu sentia os pêlos do braço eriçando quando entoavam “Aleluia”, de Friedrich Händel. Mas como qualquer boa criança, me entediava durante as pregações. Me trancava no banheiro quando meus pais decidiam ir para a igreja e dizia estar tomando banho até que fossem embora sem mim. Minha mãe ficava claramente incomodada com a falta de compromisso religioso. Se lamentava: “O que vai ser desse menino?”, e do outro lado minha vó: “Você precisa educar esses meninos na casa de Deus”.

Domingos eram dias complicados lá em casa. Eu era carregado para o culto. Penteavam meu cabelo, me colocavam em uma camisa de gola, um sapato ou meu melhor tênis e íamos no banco de trás do Ford Del Rey cinza do meu pai. Lembro do cheiro de sovaco mal lavado do meu bisavô. Fnfantilizado pela senilidade, tão descontente quanto eu. Crianças e idosos não tinham direito de escolha. Os bancos de madeira faziam doer a bunda. Eu inventava uma desculpa pra ir ao banheiro e aproveitava pra fazer uma expedição do lado de fora da igreja. Voltava quando o culto estava no final, contando os segundos no ponteiro do relógio de pulso para que a cerimônia acabasse.
Frequentar a igreja, estar na mesma religião dos meus pais sempre foi um tema importante lá em casa. Reconheço que aprendi o significado de fé ali dentro. Nascer em um lar evangélico foi parte significativa da minha jornada, não posso me considerar ex-evangélico pois nunca sequer me batizei, ( na igreja evangélica o batismo é uma escolha pessoal, diferente da igreja católica na qual você é batizado ao nascer). Apesar de ter nascido nesse berço, não posso considerar ter sido um verdadeiro praticante desta fé, apesar da minha criação ter sido neste ambiente.

Quando minha vó contava causos sobre a infância dela eu esperava um dia sentir a mesma emoção das histórias sobre fé. Quando ela ainda era uma criança católica, foi a um culto evangélico e se converteu contra a vontade da família. Foi um ato de rebeldia. Ela conta ter sentido um chamado. Algo a compelia a estar ali. Contava várias histórias sobre meu tataravô, um ex-boêmio que descobriu a fé na igreja. Certo dia um inimigo de longa data descobriu onde ele pregava e entrou no culto para se vingar. Ia lhe enfiar um tiro no meio da testa. Como de praxe, no fim do culto meu Tataravô pedia que fossem a frente todos aqueles que quisessem entregar a vida a Deus. O ex-inimigo chegou aos prantos e confessou o motivo que o trouxera ali. Acabava de desistir da vingança para se converter ao evangelho.
Era ou não era uma época dourada para a fé evangélica?

Mas a época de ouro acabou. Nos anos 1990, com a nova onda de igrejas neopentecostais ocupando espaços urbanos e transformando a fé em um espetáculo comercial, os tempos românticos de histórias evangélicas significativas perderam força para o espetáculo industrial da Doutrina da Prosperidade. Igrejas que enxergam a fé como mercado e o medo como combustível.
Enquanto isso eu vivia a adolescência em estado de rebeldia e conflito constante dentro de casa. Havia pressão para me batizar e frequentar a igreja, mas meus questionamentos me conduziram a um processo de negação da fé construída em casa. Eu estava mais interessado nas profanidades do grunge e do punk rock. Cheguei a considerar o ateísmo, mas a racionalidade tinha suas limitações e não supria minha inquietação. A idéia de viver em um mundo sem espiritualidade soava vazio demais. Passei a a ler qualquer coisa que me despertasse um senso de mistério e curiosidade sobre aspectos inexplicáveis da vida, desde que não caísse na futilidade do pseudo misticismo new age. Conheci um pouco do ocultismo misterioso de G.I. Gurdjieff, a espiritualidade anarquista de Osho, as explorações insólitas com peyote nos desertos mexicanos, por Carlos Catañeda.

Abandonar a fé não era a questão, mas sim conseguir viver com fé, sem abdicar da capacidade de pensar e questionar.
Nesse período, defensores da Doutrina da Prosperidade começaram a trocar os púlpitos pelos palanques moldando a política para acomodar ideologias obscurantistas. Nesse cenário de extremo conservadorismo e hipocrisia, o ódio às diferenças se tornou evidente. Pregavam exatamente o oposto da mensagem central da religião: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. E se há algum indicador de que a sua ideologia está defeituosa, isso é o ódio.

Atire a primeira pedra
Certo dia, no Rio de Janeiro, ao sair de um terreiro de candomblé, uma menina de 11 anos foi atingida por uma pedra, em cheio, bem na cabeça. A pedra foi atirada por pessoas de fé, levantavam a bíblia e chamavam todos de diabo e diziam: ‘vai para o inferno’, ‘Jesus está voltando’!
Outro caso clássico foi na Baixada Fluminense. Alguns traficantes armados humilharam, ameaçaram e obrigaram uma mãe de santo a quebrar as imagens religiosas:
“Olha aqui, o capeta chefe tá aqui! Quebra tudo! A senhora que patrocina essa cachorrada. Esse é só um diálogo que eu to tendo com vocês, — Ostentando um bastão com a palavra “diálogo”, inscrita nele — da próxima vez eu mato! Primeiramente é Jesus, porra”.

Como jornalista, em Brasília, fiz cobertura da notícia sobre um ataque contra terreiros, foram mais de 12 terreiros de Candomblé e Umbanda atacados e destruídos no DF em 2016. Não só destruíram as imagens religiosas, como atearam fogo em tudo. O fogo tomou conta do espaço e por sorte não haviam pessoas no local. Circulava a história sobre um outro terreiro onde mataram o cachorro que vigiava a casa e esfregaram o sangue do animal pelas paredes. Se há um demônio nessa história, fica fácil apontar de que lado ele está.

Constatei que o mais comovente na reação dos filhos de terreiro era a ausência de ódio. Não buscavam vingança. Não odiavam seus agressores. Só queriam viver em paz.
“A nossa história já é uma história de renascimento. Nossos antepassados foram arrastados da terra natal em porões de navios. Foram feitos escravos, viram mulheres sendo violentadas, filhos morrendo; e começou tudo ali. Chegaram em uma terra onde não podiam praticar sua religião, e aí nasceu o sincretismo. Essa força que nós temos vem do ancestrais. Esse ‘não ódio’, é porquê somos religiosos. Não cabe ao religioso ter ódio.”
Essa fala eu registrei em uma das entrevistas que gravei, com Luzia Lacerda, jornalista e diretora do Instituto Expo Religião (RJ).

Chuta-que-é-macumba
Passei a me atentar mais aos infinitos preconceitos do dia-a-dia, partindo de gente que só viu a religião de longe, ouviu os tambores a distância e do alto do trono da arrogância deixou a imaginação trabalhar, conjecturando “quais maldades aqueles macumbeiros estarão fazendo lá dentro daquele terreiro?”. E dessa ignorância que se recusa a enxergar, nasce também a violência. Há aí uma mistura de racismo, intolerância religiosa e insistência na ignorância como receita de um bolo chamado “demonização das diferenças”.

Abandonando velhos rótulos
Nas primeiras lembranças da infância, passava férias na Barra do Jucu (ES), e durante a noite dava para ouvir um batucar de tambores distantes. “Isso aí é coisa de macumba!”, meu tio dizia. A vivacidade e os simbolismos da Umbanda e do Candomblé talvez sejam o maior impacto inicial que um evangélico pode sentir em relação aos terreiros. É muito difícil não querer interpretar cada detalhe de acordo com desinformações que circulam por ai.

Eu passava por um momento difícil da vida quando um amigo de infância me convidou para visitar o terreiro de Umbanda onde ele trabalhava. Fiquei surpreso em saber que ele fazia parte de terreiro. Conhecia bem esse amigo de longa data e ele aparentava estar em pleno uso das faculdades mentais. Era o mesmo velho amigo de sempre, com as mesmas piadas, mas pegando leve com a vida. Não era um “bitolado” com o cérebro extirpado por uma lavagem cerebral de doutrinas. Então confiei o suficiente para dar um passo na direção contrária ao meu preconceito, mesmo sem disposição de fazer parte daquilo.

Antes de entrar no terreiro fiz uma oração pedindo proteção. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, pois tu estás comigo”, salmo 23:4. Mais tarde fui entender que o mesmo Deus e o mesmo Jesus Cristo a quem eu pedia proteção estava exatamente ali dentro da Umbanda. As barreiras que nos separam somos nós quem criamos. Eu me sentia caminhando entre irmãos, por maior que tivesse sido meu medo e preconceito inicial contra aquelas pessoas. Mas ainda havia uma jornada para extirpar o grosso da minha ignorância petrificante.

Os novos aprendizados se somaram a experiência espiritual evangélica, para minha surpresa sem grandes contradições como eu esperava. Foi um caminho natural. Havia sim um fascínio com um novo mundo que se desvelava na minha frente e a existência começava a ganhar um novo significado, um novo propósito.
Aprendi, por exemplo, que os Orixás são partes do divino. Intermediários entre os homens e Deus. Então, nem sequer a Umbanda pode ser considerada uma religião politeísta. Deus é um só.
Os rótulos que demonizam a espiritualidade da Umbanda e do Candomblé eram baseados em falsas premissas que nasciam quando o Brasil ainda era uma colônia e permanecem até hoje. Abandonar velhos rótulos me trouxe de volta um frescor mental e uma curiosidade típicos da infância.

Como funciona a casa de Umbanda
A partir de agora vou contar coisas nas quais você não é obrigado a acreditar, mas pode respeitar a minha decisão e os meus motivos para crer. Demorei para parar de racionalizar e parar de tentar impedir o fluxo da fé sobre certos aspectos da natureza do terreiro de Umbanda.

O terreiro que visitei a primeira vez não tinha tambores, mas tinha incorporação de pombogiras e pretos velhos. Pode haver distinções na forma como cada terreiro desenvolve a gira. Gira é o nome que se dá ao agrupamento de vários espíritos que se manifestam incorporando em médiuns ( trabalhadores da casa ) para fazer consultas a pacientes ( as pessoas que visitam os terreiros ) em busca de uma direção espiritual para seus problemas pessoais. Os pacientes chegam na gira, contam suas questões e são aconselhados. É feita uma limpeza sobre eles e são aliviados do peso. Muitas vezes são libertados de energias negativas que os estavam acompanhando por longos períodos. Essa energia negativa é purificada pela casa e se desfaz; e assim a casa de Umbanda funciona, ajudando pessoas e praticando a caridade ao cuidar das almas das pessoas.

Ao entrar na casa de Umbanda meus preconceitos ainda pipocavam. As paredes eram repletas de desenhos dos orixás, que eu não compreendia. Haviam tridentes por toda a parte, e imagens de Exús. Eu ficava confuso, pois como pode uma religião tão boa trazer imagens que meu repertório simbólico herdado do senso comum evangélico interpretava como manifestações do demônio. A questão é: Não da para querer entender o que acontece dentro de uma gira baseando suas opiniões em conhecimentos que você adquiriu fora da Umbanda. Você nunca vai entender nada, e provavelmente vai inventar coisas bem ruins a respeito do que viu.
Só para exemplificar: o imaginário evangélico simboliza tridentes como o acessório do capeta pra espetar os pobre-coitados nas poças de piche do inferno. Mas de onde surgiu essa imagem tão caricatural?

Você sabia que a Bíblia nem sequer menciona o tridente? Nem muito menos estabelece uma relação entre o demônio e o tridente. Na mitologia grega o tridente era símbolo associado a Poseidon, no Hinduísmo, Chiva usa o tridente em algumas representações, e na África, o Exú. O tridente de Exú em nada tem a ver com o símbolo demoníaco atribuído a ele. Na Umbanda o tridente tem três dentes apontados para cima, representando a água, o fogo e o ar, e o dente apontado para baixo representa a terra. Simples assim. E quanto ao Exú, a palavra quer dizer: “Esfera”, e o que uma esfera faz? Não para nunca no mesmo lugar. Exú é a energia de transformação, de abrir caminhos. E esse é o papel dos Exús na Umbanda, abrir os caminhos dos pacientes que se encontram sofrendo, ou ajudá-los a enxergar os caminhos. Infelizmente, no período de sincretismo religioso, Exú ficou associado ao demônio cristão, porque sua imagem era de uma figura com um tridente na mão e um penis ereto, isso porquê Exú também atua no campo da fertilidade. Então os Europeus púdicos acreditavam que qualquer força religiosa associada a sexualidade era profana. Não é a toa que na idade média queimavam mulheres na fogueira acusando-as de bruxaria. “Magicamente” elas seduziam padres castos e devotos. Pobres mulheres, até hoje a igreja quer puni-las e controlar seus corpos. A Umbanda é uma religião que lida muito melhor com o corpo, sem culpas ou repressões.

Talvez uma grande discrepância da Umbanda (e arrisco dizer, também do espiritismo) com relação as igrejas evangélicas, seria a crença de como funciona a vida após a morte. Na igreja evangélica acredita-se que vamos, ou para o inferno, ou para o céu. E acabou, não existe muita discussão sobre como se passa esse processo. Na Umbanda esses conhecimentos são aprofundados, e mais do que isso, acredita-se não só em reencarnação, mas também no fato de que muitos espíritos vivem aqui na terra, mesmo depois de desencarnados, alguns perdidos, alguns corrompidos, outros em busca de evolução. A terra, de acordo com a visão umbandista, é um plano de desenvolvimento, de aprendizado, para evolução do espírito.

Mesmo na lógica evangélica, a idéia do plano terreno como uma dimensão de aprendizado faz todo sentido, já que os processos dolorosos e de sofrimento que atravessamos aqui nos transformam em pessoas melhores se soubermos lidar com isso de maneira saudável, e a função da espiritualidade é provocar essa transformação. As religiões tem linguagens diferentes, mas a base fundamental é a mesma — religar-se ao divino.

Conversando com pombogiras e exus
Depois da primeira visita ao terreiro, permaneci curioso. Uma amiga do trabalho descobriu que eu fui a uma casa de Umbanda e me convidou para outra Gira, na casa onde ela fazia os trabalhos.
Fomos num sábado a noite, dessa vez era um terreiro bem distante, pegamos muita chuva, andamos por uma estrada de terra cheia de barro e chegamos em uma casinha simples no meio do mato. Lá estava eu, nas cadeiras, esperando para conversar com outras entidades em outra gira de Umbanda. Haviam pessoas de todas as idades, mas haviam muitos jovens na mesma faixa etária que eu. Trouxemos algumas coisas para comer e começaram os tambores e as músicas que abrem a gira, os médiuns iniciaram as incorporações.

Naquela casa eram as entidades quem convidavam os pacientes para conversar. A entidade olhava para as cadeiras onde estavam os pacientes, escolhia alguém e o fitava nos olhos até que a pessoa entendesse: “É comigo?”, ou então o cambono se aproximava para avisar: “Entidade tal quer falar com você”.

Me aproximei para conversar com uma pombogira, a médium usava roupas brancas e colares (guias) atravessados no peito, ela me recebeu com uma risada calorosa. Me perguntou como eu estava me sentindo. Ali, naquele momento eu começava a racionalizar: “Essa conversa não vai dar em nada, não vou conseguir falar muita coisa”. Mas ela me puxou para perto, me deu três abraços e começou a falar por mim, sobre como eu estava tentando ajudar os outros, mesmo quem não queria ser ajudado. Sobre como eu estava preocupado em carregar a cruz de outra pessoa e por isso tudo estava ficando pesado demais para mim. E subitamente eu comecei a chorar. Não eram só lágrimas levinhas escorrendo no rosto, eu comecei a chorar copiosamente, como nunca antes. E ela só me dizia: “Pode chorar meu filho, não tenha vergonha, deixa sair isso de você. Bota pra fora”, e por alguns minutos eu não parava com o choro. Mas eu me sentia protegido, era uma catarse poderosíssima se revolvendo dentro de mim, eu estava vivenciando a experiência da Umbanda e purificando minhas emoções. Ao fim de tanto choro, ela me mandou sentar novamente.

Nessa mesma noite eu fui chamado por outras três entidades diferentes, e as conversas eram continuidade umas das outras. Falávamos do mesmo tema, e cada entidade se aprofundava em um aspecto da dor e dos problemas que eu estava vivendo, complementando o que já havia sido dito antes. Havia uma entidade mulher de quem não me recordo o nome, e dois Exus, um deles era o regente da casa, Zé Pelintra. Recebi uma grande lição sobre como eu estava levando minha vida, consumindo todas energias com esforços inúteis. Eu estava carregado de muita culpa. Mas eles sempre me lembravam: “Você é uma pessoa boa. Você é muito grande meu filho.”, e não me faziam sentir culpado por ter vivido da forma errada. Era meu aprendizado. Eu estava lá por esse motivo. “Você viu como você chegou aqui na casa? Está vendo como está agora? Quero que você se cuide para nunca mais ficar daquele jeito de novo”, e aos poucos estou aprendendo a me cuidar.

Minha curiosidade sobre as incorporações ainda é grande. Nunca incorporei apesar de já ter sentido a irradiação várias vezes. Na casa a incorporação é feita de maneira responsável, com proteções para que nenhuma energia negativa seja capaz de ter poder dentro da Gira. As incorporações que ocorrem em igrejas evangélicas, quando são reais, são perigosíssimas, espíritos de baixa vibração aproveitando a ignorância para destilar mais ignorância, para bagunçar ainda mais a vida de pessoas inocentes e para atiçar ódio e medo alimentando o preconceito contra terreiros de Umbanda ou Candomblé. Esses espíritos perdidos, chamados Quiumbas, quando chegam na Umbanda, são extirpados e purificados. A Umbanda transforma essa energia, limpa e liberta.
Por escolha própria resolvi voltar: uma, duas, três vezes. Até o dia que o coordenador da casa, o Exú chamado Zé Pelintra, com aquela risada boa, me recebeu dizendo: “Eu gosto muito de você meu filho. Você é grande e a sua caminhada é bonita! Se você quiser entrar para a nossa casa, o convite está feito”. Eu agradeci, mas recusei. Eu tinha receio primeiramente em como iria lidar com meus pais, evangélicos desde sempre, e no fundo ainda sentia medo do desconhecido. “Meus pais nunca aceitariam”, eu pensava. Minha mãe se sentiria triste e traída pela minha escolha e poderia até adoecer de tanto pensar nisso. Eu não queria decepcioná-los. Em segundo lugar, sabia do tamanho da responsabilidade que teria que assumir, o filho de Umbanda tem muitos afazeres.

O convite me deixou pensativo e eu parei de frequentar a casa por algumas semanas, quando voltei recebi outro convite. Eu tinha algumas conversas mais superficiais com algumas entidades, outras vezes as conversas eram profundas e esclarecedoras, mas a sensação era sempre de me sentir purificado e muito mais leve do que antes.
A pombogira com conversei inicialmente volta e meia me chamava para conversar e acompanhou essa trajetória. Era quase como se eu já conhecesse alguns médiuns da casa. Perguntei para ela se podia continuar frequentando a casa apenas como paciente. Ela apenas ria e dizia que não havia problema nenhum nisso, e que ela sentia grande alegria sempre que eu voltava. Eu me sentia tão acolhido por aquelas palavras que passava a semana sentindo essa proteção.
Cada dia na casa era uma experiência nova, diferentes tipos de entidade aparecendo e incorporando com roupagens (comportamento) diferenciados, pacientes traziam situações que se desdobravam de diferentes formas. Presenciei algumas incorporações de Quiumbas trazidas por pacientes que muitas vezes vinham carregados. De início aquilo era assustador, mas a proteção da casa e a experiência das entidades demonstrava que tudo estava sob controle e não havia nenhum perigo.

Muito tempo depois me fizeram um terceiro convite. Nessa altura eu já estava encantado pela Umbanda, lendo tudo o que podia a respeito, e aprendendo a descartar bobagens e mistificações. Estava começando a compreender os verdadeiros preceitos da Umbanda.

Mais uma vez deixei meus medos e minhas desculpas falarem mais alto: A minha família não vai aceitar, não sei se estou pronto pra uma responsabilidade como essa. Um semestre inteiro havia se passado. A questão de me tornar parte da Umbanda era uma pergunta que eu fazia a mim mesmo com frequência. Cada vez que pisava na casa sentia maiores formigamentos nas pernas, muitas vezes conversando com algumas entidades, minhas pernas tremiam muito, parecia frio ou nervosismo, mas eu saia da gira e a tremedeira parava. Uma entidade me explicou que isso era um sinal de que eu estava irradiando. A irradiação, na Umbanda é um sinal de que você é médium capaz de trabalhar com incorporação de entidades, significa que você esta no processo de se tornar capaz de pelo menos receber essas energias. Na verdade, todos somos médiuns e capazes disso, mas alguns estão mais preparados para lidar com essas energias do que outros.

Fora da casa eu já havia encontrado equilíbrio emocional, e minha vida estava entrando de volta nos eixos. Passei a prestar mais atenção nas minhas relações pessoais com familiares, irmãos, pais, amigos, colegas de trabalho. E isso era resultado que eu atribui a Deus e a força que a Umbanda me ensinou a perceber, mas as entidades sempre me lembravam que essa força é minha, a Umbanda apenas me ajuda a enxergar a minha própria capacidade. Me sentia muito próximo de todas aquelas pessoas com a mesma preocupação de fazer o bem e de evoluir nos caminhos de Deus.

A questão com a minha família ainda permanece: “Como minha família vai encarar minha escolha? Será que vão aceitar? Vão achar que me tornei diferente? Vão me respeitar? Alguns vão me rejeitar?”. Não sei. É bem provável que alguns aceitem e respeitem, outros farão piadas, outros vão ter medo e talvez alguns queiram me convencer do contrário. O fato é que eu continuo crendo no mesmo Deus de sempre, no mesmo Jesus Cristo e nas forças divinas que chamamos de Orixás. Mas agora creio que tenho uma direção muito mais clara, além de ser uma direção que não me traz medo, mas sim esperança. Não me traz culpa, mas sim responsabilidade. Não me traz bitolação, mas sim a possibilidade de permanecer curioso, questionador e ouso dizer até rebelde no bom sentido. A Umbanda não exige que eu abdique das características que fazem de mim a pessoa que sou, ela me ajuda a aprender a viver de acordo com o que sou. E é uma religião que prega o amor, nunca o ódio. Se isso é ser umbandista ou macumbeiro, eu gosto do que isso significa. E se minha família me rejeitar por isso, vou amá-los da mesma forma e não desistirei deles. O meu caminho sou eu quem faço, ninguém mais.
E foi ponderando todos esses benefícios, mas também dúvidas, e tendo me despido de tantos medos, de tantos preconceitos e finalmente entendendo que a Umbanda só oferecia coisas boas aos seus filhos, que fui a casa em um sábado e pedi ao Zé Pelintra:

— Seu convite para fazer parte da casa ainda está de pé?
E o Zé Pelintra me perguntou se eu estava realmente disposto a fazer aquilo. Se eu entrasse para a casa teria que trabalhar muito e teria muitas responsabilidades novas, mas ganharia uma nova família e ele disse: “Ainda dá tempo de fugir, meu filho!”, e lançou aquela gargalhada boa e brincalhona, típica dos Exús. Eu estava com firmeza na decisão, e disse: “Eu estou pronto”. Seu Zé me pegou pelo braço, me levou para o centro da gira e disse:
— Salve a força do novo filho da casa!
E foi assim que me tornei um filho de Umbanda.

Adendo: ( 14/11/17 )
Umbanda é uma religião de amor e caridade e respeito, não atende a propósitos mesquinhos. Então, adicionei isso somente para sanar algumas dúvidas que possam ficar.
Umbanda não faz sacrifício nem maltrata animais.
Umbanda não pratica amarração para o amor.
Umbanda não pratica vingança ou qualquer malefício a outra pessoa.
Não pratica maldades de nenhuma espécie.
Não ajuda a conseguir nada ilícito.
Umbanda não cobra por atendimentos. O que pode ser pedido são contribuições para ajudar a casa, mas ninguém é obrigado a contribuir como em qualquer igreja que precisa se manter.

FONTE