Documentos que estão no Arquivo Nacional incluem 758 ocorrências, sendo 45 no RS, e podem ser consultados pela população

Uma das áreas mais visitadas no Sistema de Informações do Arquivo Nacional (Sian) é a relacionada aos objetos voadores não identificados (óvnis) que teriam sido vistos no espaço aéreo brasileiro nas últimas seis décadas. São 758 registros, entre relatos, fotografias, vídeos, questionários sobre ocorrências e recortes de jornais e revistas. Destes, 45 são de ocorrências no Rio Grande do Sul. O acervo foi repassado pelo Comando da Aeronáutica do Brasil e tem acesso livre para consulta.

As mais de 20 mil páginas de materiais, de 1952 a 2016, podem ser pesquisadas na unidade de Brasília ou pela internet. O órgão ressalta, porém, que óvnis não significam a existência de extraterrestres ou discos voadores, mas é a denominação usada para qualquer objeto que voe e não tenha identificação imediata.

Entre os documentos mais conhecidos estão os que fazem parte da Noite Oficial dos Óvnis, ocorrida em 19 de maio de 1986 (áudio mais abaixo). Na data, os radares do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta) detectaram pelo menos 21 óvnis na mesma região. Cinco jatos da Força Aérea Brasileira (FAB) foram enviados para persegui-los.

Naquela noite, um operador da torre do Aeroporto de São José dos Campos, em São Paulo, observou pontos luminosos que mudavam de cor, entre laranja e vermelho, e perguntou ao piloto Alcir Pereira se ele via o mesmo. Com a confirmação de Pereira, a torre de Controle de São Paulo captou sinais sem identificação e o Cindacta I, em Brasília, detectou óvnis nos radares de São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás. O Centro de Operações de Defesa Aérea decidiu enviar os caças para interceptá-los, sem sucesso.

Na época, o tenente-brigadeiro do ar Octávio Júlio Moreira Lima, então ministro da Aeronáutica, concedeu entrevista coletiva ao lado dos pilotos dos caças e confirmou os acontecimentos.

Ouça uma das conversas entre o piloto e as torres de controle, com  o relato completo do avistamento

Dos 45 documentos relacionados ao Rio Grande do Sul, 19 são de 1996. Destes, 15 avistamentos ocorreram entre 20 e 23 de março, a maior parte na região de Pelotas e arredores. Em outubro daquele ano, ocorreu um dos relatos gaúchos mais conhecidos: o caso Westendorff.

Liberação dos arquivos

A decisão do governo de abrir publicamente arquivos que eram guardados sob sigilo ocorreu depois de uma campanha nacional organizada pela Revista UFO, em 2004, que pedia a liberdade de informação para os registros relacionados ao tema. Em janeiro de 2005, a Aeronáutica contatou a Comissão Brasileira de Ufólogos. Cinco meses depois, durante uma reunião entre as partes, em Brasília, a Comissão teve acesso aos documentos, que só foram liberados publicamente em 2007.

— A Aeronáutica tem sido muito transparente desde a primeira liberação de documentos. A cada seis meses até um ano, os documentos foram sendo liberados por década. Quando fizemos a campanha, não pleiteamos que os documentos fossem para a Comissão Brasileira de Ufólogos, mas para toda a sociedade brasileira — relata o ufólogo, editor da revista UFO e integrante da Comissão Brasileira de Ufólogos Ademar José Gevaerd.

Em agosto de 2010, uma portaria foi publicada no Diário Oficial da União regulamentando como a Aeronáutica deveria proceder com notificações de óvnis no espaço aéreo brasileiro. O documento determinou que o Comando da Aeronáutica (Comaer) deveria se restringir ao registro de ocorrências e ao encaminhamento do material para o Arquivo Nacional. Já o Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Comdabra) foi indicado como a organização do Comaer responsável por receber e catalogar os registros referentes a óvnis relatados, em formulário próprio, por usuários dos serviços de controle de tráfego aéreo e encaminhá-los regularmente ao Centro de Documentação e Histórico da Aeronáutica (Cendoc), responsável por arquivar cópias e enviar os originais ao Arquivo Nacional.

Confira cinco ocorrências gaúchas registradas no Arquivo Nacional

Pelotas – 18/11/1999

Numa madrugada, em Pelotas, um empresário de 46 anos avistou e registrou um objeto de forma arredondada se deslocando de Sul para Norte. Por 40 minutos, o objeto chegou a ficar parado. A esfera variava entre as cores branca e amarela. Apesar de o registro no AN informar que há imagens do avistamento, elas não estão disponibilizadas de forma digital.

O relato do empresário, que estava com outras duas pessoas, foi feito ao Cindacta 2. No relatório, diz que “o objeto era enorme (do tamanho de um pequeno estádio de futebol) e deslocava-se com uma velocidade muito alta, ao mesmo tempo em que emitia uma luz branca com tonalidades amarelas. Veio do quadrante sul (em relação ao observador) e parou logo num ponto a nordeste do observador. Lá permaneceu por aproximadamente 40 minutos, e de vez em quando saíam luzes menores (brancas ou amarelas) e iam até o solo. Com a luz do sol, segundo o relator, o enorme objeto foi ficando invisível e desapareceu. O relator informou que filmou o objeto durante muito tempo e que seu filho ficou com medo. Também disse que durante o tempo em que o objeto pairava, uma aeronave aproximou-se vindo na direção noroeste, sentido sudeste e passou por baixo do objeto”.

Tapera – 19/03/1996

Eletricista de 36 anos e a filha, de 10 anos na época, deslocavam-se da cidade para o interior quando avistaram um objeto oval em baixa altitude, parecendo um farol de automóvel. Ele se deslocava em velocidades diferentes e acompanhou o carro por 45 minutos. O céu estava limpo.

No relatório, aponta que havia um filme de excelente qualidade, mas não está disponível digitalmente.

Pelotas – 20/03/1996

Médico de 44 anos saía de casa com familiares quando visualizou, por volta das 18h45min, a Oeste, um objeto redondo com reentrâncias. No relatório, consta que era maior que uma estrela e apresentava cor branca. O objeto se deslocava lentamente de forma horizontal, na linha do horizonte. Por mais de uma hora, ele e os familiares o filmaram. O céu estava sem nuvens. O objeto mudou de cor para vermelho e desapareceu. O relatório acusa que há um filme mostrando o objeto, mas não está disponível digitalmente.

Pelotas – 5/10/1996

Durante um voo no avião EMB 712 Tupi, o empresário e piloto Haroldo Westendorff observou um objeto de forma piramidal com extremidades arredondadas que girava em torno de si, sem emitir sons ou qualquer tipo de fumaça. O fato ocorreu sobre a Lagoa dos Patos e durou cerca de 30 minutos. O céu estava parcialmente nublado e, segundo o piloto, o objeto voador se movia lentamente na direção do Oceano Atlântico. Ele se aproximou a uma distância de cerca de 300 metros e viu que a nave era formada por oito lados com saliências que pareciam ser janelas.

Via rádio, contatou a estação do Aeroporto de Pelotas e com o Centro de Controle de Espaço Aéreo de Curitiba. Westendorff, então, passou a contornar a nave enquanto ela se deslocava. Na segunda volta, segundo o depoimento, a cúpula se abriu e um objeto com a forma de um disco saiu no sentido vertical, inclinou-se a 45 graus e voou rapidamente na direção do mar. O disco era três vezes maior que o avião. A nave, então, soltou fachos avermelhados pela cúpula ainda aberta e voou em alta velocidade, desaparecendo no céu.

Canoas – 05/03/2001

Por volta das 16h50min, o comandante de uma aeronave que se deslocava em direção a Porto Alegre avistou um objeto comprido e cilíndrico pairando em movimento pendular. No relatório, ele informou que o óvni tinha o comprimento de um Boeing 737 e era na cor branca. O avistamento durou cerca de um minuto. O céu estava sem nuvens. No relato informa que a “observação foi muito clara a ponto de motivá-lo a ligar para informar as autoridades e pediu que não envolvesse o nome da empresa para a qual trabalha”.

 Santo Antônio da Patrulha – 06/10/2013

Por volta das 4h40min, um jornalista filmou por sete minutos, a partir do Morro da Pedreira, um objeto luminoso de formato arredondado e cor branca deslocando-se de forma aleatória, cruzando-se e agrupando-se em foco único. Não emitia sons e estava a uma distância do observador de cerca de 1,2 mil metros.

Matéria Original da Aline Custódio no Site Gaúcha ZH