“Ele não explode sozinho. É preciso um gatilho muito grande para que uma explosão ocorra”.

O presidente do Líbano, Michel Aoun, afirmou que uma substância chamada nitrato de amônio, usada como fertilizante e em materiais explosivos, pode ter causado a mega-explosão que deixou dezenas de mortos e milhares de feridos em Beirute, capital do país.

Aoun afirmou ser “inaceitável” que 2.750 toneladas do composto fossem estocadas em um depósito, sem a segurança necessária.

Uma investigação está em andamento para encontrar o gatilho exato da explosão. O Conselho Supremo de Defesa do Líbano afirmou que os responsáveis vão enfrentar a “punição máxima” possível.

Explosivo altamente potente

“O nitrato de amônio é um dos fertilizantes mais utilizados na agricultura no mundo inteiro. Também é usado na fabricação de explosivos”, explica Reinaldo Bazito, professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP).

A substância pode ser utilizada na produção de explosivos e bombas.

“Ele é um explosivo altamente potente”, diz Bazito.

Segundo o professor, normalmente o nitrato de amônio é estocado em grandes quantidades, pois a substância atende a uma grande demanda da agricultura por fertilizantes.

“Ele é importante porque fornece uma necessidade básica das plantas, que são os nutrientes NPK, sigla para nitrogênio, fósforo e potássio”, explica.

Bazito afirma que o fertilizante não apresenta grandes riscos se armazenado de maneira segura.

“Ele não explode sozinho. É preciso um gatilho muito grande para que uma explosão ocorra. No caso do Líbano, se for isso que aconteceu, acredito que a explosão pode ter sido causada pelo incêndio que estava ocorrendo antes”, explica.

Para armazenar o elemento de maneira segura, diz Bazito, “são necessárias precauções contra incêndio.”

“Os armazéns precisam ser feitos de tal forma que não haja acúmulo de nitrato de amônio. É preciso garantir que não haja ‘pontos quentes’ (temperatura excessivamente alta) no material estocado, evitando a decomposição térmica”, afirma.

Para Luiz Carlos Dias, professor do instituto de química da Universidade de Campinas (Unicamp), armazenar o produto em casa (um sólido granulado semelhante a um sal grosso) não causa grandes riscos, a menos que ele seja exposto a altas temperaturas.

“É necessária uma combustão para ocorrer a explosão. Se havia uma grande quantidade do produto armazenado, uma temperatura acima de 300 graus pode o tornar explosivo. Um incêndio atinge essa temperatura facilmente”, afirma.

Já Bazito diz que seguir a legislação e precauções básicas bastam para estocar o produto sem correr riscos.

“Ele é um material seguro se armazenado de maneira adequada, conforme a legislação e normas pertinentes, para evitar incêndios e explosão em caso de incêndio. Embora haja casos de explosões, o número de acidentes em relação à quantidade de vezes que ele é utilizado e transportado no mundo é pequeno, proporcionalmente”, afirma.

Outras explosões

O nitrato de amônio já causou algumas explosões trágicas.

Uma delas ocorreu no estado americano do Texas, em 16 de abril de 1947. Na ocasião, 581 pessoas morreram depois que um incêndio em um navio causou a explosão de cerca de 2.000 toneladas de nitrato de amônio. O caso foi considerado uma das mais potentes explosões não-nucleares da história.

Em 1995, dois extremistas americanos usaram a mesma substância, estocada em uma van, para explodir parte de um prédio na cidade de Oklahoma, também nos Estados Unidos. Ao todo, 168 pessoas morreram e 680 ficaram feridas.

O atentado, cometido por Timothy McVeigh e seu cúmplice, Terry Nichols, foi um dos mais traumáticos da história dos Estados Unidos.

“Terroristas misturam com óleo e explodem usando um detonador. Foi assim em Oklahoma, quando o nitrato de amônio foi combinado com com nitrometano. E também durante um ataque em Oslo (em 2011, quando um extremista explodiu um carro em frente à sede do governo norueguês, matando oito pessoas)”, afirmou Luiz Carlos Dias, da Unicamp.

Em 2015, falhas na armazenagem de nitrato de amônio também causaram explosões na cidade de Tianjin, na China, matando 173 pessoas.

BBC